Opinião: México deveria enfrentar Donald Trump

Jorge Castañeda*

  • Bill Kostroun/AP

    Protesto de torcedor mexicano: "Donald Trump, nós somos muitos"

    Protesto de torcedor mexicano: "Donald Trump, nós somos muitos"

Pela primeira vez um candidato presidencial americano fez uma campanha ativa contra os interesses nacionais de outro país, desde que Ronald Reagan atacou a União Soviética em 1980. Donald J. Trump tornou o México um dos temas centrais de sua campanha, ao ameaçar deportar todos os imigrantes ilegais -- cerca da metade deles mexicanos --, construir um muro na fronteira mexicana e rasgar o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, na sigla em inglês), que é muito mais importante para o México do que para os Estados Unidos, 

Como os mexicanos deveriam responder agora que Trump foi eleito?

O presidente Enrique Peña Nieto optou por uma abordagem de não-enfrentamento. Desde seu convite e recepção embaraçosos a Trump em agosto, ele tem tentado repetidamente acomodar as exigências do presidente eleito. Ele aceitou a reabertura da discussão do Nafta e limitou o debate sobre "o muro" a quem pagará por ele, não sobre se deve ser construído. Peña Nieto disse que ajudará os mexicanos, mas não assumiu uma posição firme contra as deportações em si.

O México não tem que apaziguar Trump dessa forma. Ele pode reagir. Não vencerá todas as batalhas, mas pode conseguir mais por meio da obstrução e ao tornar a vida miserável para o novo presidente, ao aumentar o custo de suas políticas antimexicanas.

Na questão do Nafta, o México deve simplesmente dizer a Washington que se recusa a renegociar o tratado. Pode haver motivos para a criação de acordos paralelos para complementação do tratado e para discutir questões como desvalorização cambial ou salários. Mas a ideia de renegociação do Nafta, como Trump diz que pretende fazer, deve ser completamente inaceitável para o governo do México.

Se o governo Trump, por sua vez, ameaçar abandonar o Nafta, que assim seja. Trump seria responsável por quebrar um acordo que foi mantido por três presidentes americanos, cinco mexicanos e seis primeiros-ministros canadenses ao longo dos últimos 22 anos. E, apesar de algumas falhas, tem funcionado razoavelmente bem.

Yuri Cortez/ AFP
O presidente mexicano Enrique Peña Nieto e Donald Trump na Cidade do México, em agosto deste ano

A culpa por uma saída do tratado seria dele e muitos interesses comerciais americanos e forças políticas, incluindo numerosos republicanos, ficariam ressentidos com Trump por isso. O dano à economia do México seria, sem dúvida, grande. Mas uma renegociação prolongada do Nafta poderia potencialmente causar danos ainda maiores, com anos de incerteza desencorajando o investimento no país.

Em relação às deportações, o México pode se posicionar legalmente que receberá apenas as pessoas que os Estados Unidos puderem provar que são de fato mexicanas. Isso teria que ocorrer enquanto ainda estiverem nos Estados Unidos.

Como muitos imigrantes ilegais mexicanos não possuem documentos, isso transferiria o custo político e econômico da deportação do México para seu vizinho no norte. Haveria atraso, litígio e centros de detenção lotados. A mídia exibiria as cenas de crianças separadas de seus pais que estão presos em um limbo legal.

Isso poderia levar a uma catástrofe humanitária, algo que ninguém quer ver. Mas a comparação não pode ser com o status quo; em vez disso, deve ser com as milhares de deportações prometidas por Trump. Seus apoiadores poderiam não se importar, mas muitos outros americanos sim. Os protestos poderiam forçá-lo a abandonar as tentativas detestáveis de deportação em massa.

E quanto ao muro que foi tão importante na campanha de Trump? É absurdo para o México dizer que não se importa desde que não pague por ele. O governo mexicano deveria se opor plenamente à sua construção. Construir um muro na fronteira é um ato hostil. Enviaria uma mensagem horrível ao mundo. O custo e risco de cruzá-la sem documentos aumentaria, tornando o contrabando ainda mais lucrativo para o crime organizado.

Rick Wilking/Reuters
Após visita ao México, Trump participa de coletiva de imprensa nos EUA

Assim que o México anunciar que se opõe ao muro, o governo deveria recorrer a todas as ferramentas legais, ambientais, políticas, sociais, culturais e regionais para barrar a construção. Deveria mobilizar as comunidades binacionais no Arizona, Califórnia, Novo México e Texas contra a construção do muro, até que o preço de buscar essa ideia absurda se torne alto demais para Trump. Cidades binacionais, como Ciudad Juárez-El Paso, deveriam realizar manifestações e entrar com processos para tentar assegurar que um muro hostil construído pelos americanos não as dividam.

Finalmente, o México deveria tirar proveito da decisão da Califórnia de legalizar a maconha recreativa. Independente da vitória de Trump, a aprovação da proposta no Estado mais populoso dos Estados Unidos torna ridícula a guerra do México contra as drogas. Qual o sentido de enviar soldados mexicanos para incendiar plantações, revistar caminhões e procurar por túneis do narcotráfico se, assim que nossa maconha chegasse à Califórnia, ela poderia ser vendida no 7-Eleven local?

Mas com a agressão de Trump contra o México, há motivo adicional para o país adotar uma postura pragmática de "piscar e acenar a cabeça" às exportações de maconha aos Estados Unidos: o governo mexicano não tem motivo para cooperar com um governo hostil em Washington. Nossas autoridades devem em vez disso fazer vista grossa em relação à maconha.

Nenhuma dessas posições será isenta de riscos para o México. Haveria represálias americanas, uma reação negativa em algumas regiões e crises humanitárias. Um governo mexicano fraco e impopular poderia não resistir à pressão do governo Trump. Mas se os negócios como de costume não são uma opção, essas sugestões podem ser. Os líderes, em ambos os lados da fronteira, deveriam contemplá-las.

*Jorge G. Castañeda, ministro das Relações Exteriores do México de 2000 a 2003, é professor na Universidade de Nova York
 

Mexicanos veem eleição de Trump como pesadelo

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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