Será que Donald Trump destruirá o acordo com o Irã?

Ellie Geranmayeh*

Em Londres

  • Yuri Gripas/ AFP

Líderes de outros países precisam deixar claro para o presidente eleito que trabalharão pela manutenção do acordo nuclear

Não há muitas questões nas quais a Europa, Rússia e China concordem, mas existe uma: assegurar que o presidente eleito Donald J. Trump não mine o acordo nuclear com o Irã.

Há motivos legítimos para a preocupação de que o novo governo ou o Congresso sabotarão o acordo, que Trump chamou de "desastre" e prometeu "desfazer". O presidente eleito também se cercou de pessoas como Rudolph W. Giuliani e John R. Bolton, ambos mencionados como escolhas potenciais para secretário de Estado, que disseram que desejam encerrar imediatamente o acordo e pedem por uma mudança de regime no Irã. A escolha de Trump para liderar a CIA (Agência Central de Inteligência), Mike Pompeo, escreveu recentemente pelo Twitter: "Aguardo ansiosamente pela reversão desse acordo desastroso com o maior Estado patrocinador de terrorismo do mundo".

Enquanto Trump decide em que direção conduzirá suas políticas para o Irã, países que até agora foram parceiros dos Estados Unidos em relação ao Irã devem traçar uma linha. Eles devem dizer firmemente ao presidente eleito que enquanto o Irã continuar cumprindo suas obrigações segundo o acordo, eles também o farão. Eles também devem deixar claro que se o Congresso ou o presidente americano desfizer o acordo, outras potências mundiais lidarão ao seu próprio modo com o Irã.

Não causa surpresa que a maioria dos países apoie o acordo nuclear e que o presidente Obama tenha prometido vetar as tentativas dos republicanos de desfazer o feito diplomático monumental. O Irã desmontou e limitou aspectos fundamentais de seu programa nuclear em troca de um relaxamento das sanções. Isso não apenas promoveu um avanço da agenda de não-proliferação do Ocidente, como também preveniu os Estados Unidos de precisarem recorrer a respostas militares.

Há uma boa chance de que após os informes de inteligência mostrarem a ele como os interesses de segurança dos Estados Unidos se beneficiaram com o acordo, Trump perceba a importância de manter o acordo nuclear intacto. Ele pode até mesmo ser persuadido pelo lobby corporativo e por interesses comerciais a preservá-lo, dado o acesso potencial das empresas americanas aos mercados do Irã.

Isso ganharia o apoio das empresas americanas tanto quanto dos aliados europeus, da Rússia e da China. Também fortaleceria a credibilidade internacional dos Estados Unidos e de seu novo presidente, além de abrir um maior espaço diplomático para seu governo realizar sua meta declarada de cooperar com a Rússia no combate ao Estado Islâmico.

Mas Trump também pode ser persuadido pelos falcões com os quais se cercou. Ele pode desferir um golpe mortal rápido no acordo ao suspender, negligenciar ou buscar renegociar os compromissos americanos de relaxamento das sanções. Isso poderia resultar na reintrodução das sanções americanas secundárias contra empresas internacionais que fazem negócios com o Irã.

Os Estados Unidos, assim como outros signatários do acordo nuclear, também podem desfazê-lo ao alegarem que o Irã não cumpriu seus termos. Neste caso, voltariam as sanções do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Mas na verdade, o restante do mundo dificilmente aplicaria essas sanções como antes do acordo, por acreditarem que são os Estados Unidos que estão violando o espírito do acordo.

De modo alternativo, Trump pode evitar a responsabilidade escancarada e permitir que o acordo morra, ao sancionar legislação impondo novas sanções ao Irã ou introduzindo medidas de supervisão ao programa nuclear do Irã além dos termos do acordo.

Em todos esses cenários, os Estados Unidos seriam vistos como minando o acordo e provocando o Irã a abandonar suas obrigações. A solidariedade do restante do mundo neste caso seria voltada aos iranianos.

Seria Trump, como presidente, que teria que lidar com essas repercussões. Porque a coalizão internacional que antes apoiava as sanções ao Irã não será refeita, a influência econômica dos Estados Unidos sobre o Irã seria muito mais fraca, aumentando a probabilidade de que o Irã retome seu programa nuclear, aumentando por sua vez o risco de uma ação militar americana.

Em 14 de novembro, 28 líderes europeus reiteraram por unanimidade seu "compromisso resoluto" com o acordo, independente do resultado da eleição americana. Os chefes de Estado dos cinco outros países que negociaram o acordo com o Irã sem dúvida se sentiriam traídos por uma retirada do presidente americano. Isso certamente colocaria os Estados Unidos em confronto com a Rússia, China e Europa não apenas em relação ao Irã, mas também em outros assuntos nos quais Trump precisará da cooperação deles, como a guerra na Síria.

Se presidente dos Estados Unidos ou o Congresso forem vistos como sabotando o acordo, a União Europeia, juntamente com a Rússia e a China, devem tentar proteger suas principais restrições nucleares oferecendo relaxamento significativo das sanções ao Irã. Isso precisará incluir a suspensão das sanções bancárias europeias e o embargo ao petróleo que foi imposto devido ao programa nuclear do Irã. Também exigiria ações ousadas, mas não sem precedentes, para proteção das empresas europeias contra a aplicação de sanções americanas por parte do Departamento do Tesouro, visando proibir negócios com o Irã.

Há passos que podem ser dados agora para evitar a necessidade de recorrer a essas medidas. Os líderes internacionais devem transmitir imediatamente ao futuro governo a importância da preservação do acordo.

Também há uma janela antes da posse de Trump durante a qual as potências mundiais podem cimentar os ganhos conseguidos sob o acordo, ao resolverem os obstáculos bancários e regulatórios atualmente enfrentados pelas empresas que buscam executar grandes acordos já fechados com o Irã.

Os países europeus, em particular, devem trabalhar com o Irã e com o governo Obama no desenvolvimento de canais de comunicação entre Teerã e Washington que sobrevivam ao fim do mandato do presidente Obama, e enviar sinais firmes da continuidade do compromisso político deles com o acordo. Os líderes empresariais também devem deixar claro que o acordo nuclear serve tanto aos interesses de segurança americanos quanto globais.

A posição imediata de Trump a respeito do acordo com o Irã será um dos primeiros testes críticos de sua presidência. Também testará a legitimidade do Conselho de Segurança da ONU. O público americano, assim como os líderes internacionais, devem deixar claro ao presidente eleito que não quer se ver envolvido em outra crise militar no Oriente Médio, especialmente uma que o mundo trabalhou tão arduamente para evitar.

*Ellie Geranmayeh é membro para políticas do programa para Oriente Médio e Norte da África do Conselho Europeu de Relações Exteriores

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos