Alimentação

Em um vale da Califórnia, há comida saudável por toda parte, exceto nas mesas

Thomas Fuller

Em Salinas, Califórnia (EUA)

  • Jim Wilson/The New York Times

Enquanto os americanos se reuniram às mesas para o Dia de Ação de Graças, há uma boa chance de que as partes mais saudáveis de suas refeições, as saladas mistas, as caçarolas de brócolis ou refogados de couve-de-bruxelas, foram cultivadas aqui no Vale de Salinas.

Uma longa faixa de solo profundo e fértil cercado por montanhas, o vale mais que dobrou sua produção nas últimas décadas e agora produz mais da metade das folhas de alface consumidas nos Estados Unidos.

Mas um lugar onde a riqueza de antioxidantes do vale não aparece com frequência é nas mesas dos trabalhadores migrantes que os colhem.

Autoridades de saúde pública descrevem uma crise de pobreza e desnutrição entre os dezenas de milhares de trabalhadores rurais e suas famílias que cuidam das plantações de alface, brócolis, aipo, couve-flor e espinafre, entre muitos outros produtos, em uma área chamada de saladeira da nação.

Mais de um terço das crianças no Distrito Escolar Primário de Salinas City é sem-teto; as taxas gerais de diabete estão subindo e a projeção de que aumentarão ainda mais; e 85% dos trabalhadores rurais no vale estão acima do peso ou obesos, em parte porque a comida não saudável é menos cara, disse Marc B. Schenker, um professor da Universidade da Califórnia, em Davis, que estuda a saúde dos trabalhadores rurais.

"As pessoas que cultivam nossos alimentos não podem consumi-los e estão mais doentes por causa disso", disse Joel Diringer, um especialista em saúde pública e defensor dos trabalhadores rurais. "É uma incrível ironia o fato de que aqueles que trabalham no campo o dia todo não têm acesso aos alimentos frescos que colhem."

Por décadas, os campos do Vale de Salinas são uma porta giratória de migrantes, dos habitantes de Oklahoma das obras de John Steinbeck aos imigrantes latino-americanos que cuidam dos campos atualmente. Segundo o Departamento do Trabalho dos Estados Unidos, 90% dos trabalhadores rurais na Califórnia nasceram no exterior, principalmente no México.

Apesar dos vegetais produzidos no vale estarem chegando a um número cada vez maior de lares americanos, as autoridades de saúde pública dizem que não há sinais de melhoria nas condições de vida e dietas dos trabalhadores rurais.

A popularidade de bebidas açucaradas e as preferências culturais por alimentos altamente calóricos como tacos e tamales contribuem para a obesidade dos trabalhadores rurais e suas famílias, disseram as autoridades de saúde pública. Como aproximadamente metade dos trabalhadores rurais no Vale de Salinas está no país ilegalmente, muitos não contam com seguro-saúde e ficam sem tratamento até os sintomas se tornarem agudos.

A combinação de aluguéis caros e baixa renda (os salários geralmente são entre US$ 10 a US$ 15 por hora, ou cerca de R$ 34 a R$ 51) deixa os trabalhadores rurais com pouco dinheiro para alimentação e contribui para a crise habitacional em Salinas.

O número de moradores de rua aumentou tanto nos últimos anos que o Distrito Escolar Primário de Salinas City agora conta um uma funcionária dedicada aos alunos sem moradia permanente.

Cheryl Camary, a funcionária para os sem-teto do distrito escolar, listou os tipos de moradias onde alguns trabalhadores rurais dormem: "Tendas, acampamentos, prédios abandonados", ela disse. "Eles podem morar no barracão de ferramentas, no galinheiro."

Em uma aula sobre diabete e nutrição realizada em um jardim de infância em King City, algumas mulheres obesas de famílias de trabalhadores rurais receberam uma enxurrada de estatísticas sobre os riscos de uma dieta ruim, especialmente aquelas com excesso de açúcar.

"Dois entre cinco americanos desenvolverão diabete", disse Lisa Rico, a instrutora, à classe em espanhol. "Mas aqui entre nós, é um entre dois."

A aula foi proporcionada pela Fundação Médica Natividad, uma entidade sem fins lucrativos que faz parte do Centro Médico Natividad, um grande hospital de Salinas.

Rico leu para a classe os resultados de uma pesquisa envolvendo 1.200 jovens no condado de Monterey, que inclui Salinas: 72% das crianças com menos de 10 anos e 83% dos adolescentes disseram beber pelo menos um refrigerante por dia; os adolescentes bebiam 4,5 vezes mais bebidas açucaradas do que água.

Um estudo publicado em março pelo Centro de Pesquisa de Políticas de Saúde da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, apontou que 57% dos moradores do condado de Monterey apresentavam diabete ou pré-diabete, ligeiramente acima da média da Califórnia de 55%.

Mas a dr. Dana Kent, diretora médica para educação e promoção de saúde da Fundação Médica Natividad, disse que as estimativas entre os trabalhadores rurais podem estar abaixo da realidade, especialmente entre os imigrantes ilegais e temerosos de obter atendimento médico.

"Temos uma sensação de que há muita gente ali não diagnosticada", disse Kent.

Em uma tarde recente, trabalhadores do México e El Salvador colhiam pés de alface em um campo em Gonzales, uma cidade no coração do Vale de Salinas. Os trabalhadores se moviam rapidamente, cortando, podando as folhas externas e colocando os pés de alface em sacos plásticos, a ponto de parecerem atores em um filme exibido em velocidade acelerada.

Angelica Beltran, a supervisora, disse que seus funcionários geralmente comem entre seis a oito tacos enquanto estão trabalhando e dois ou três refrigerantes durante seu turno.

"Ninguém bebe refrigerante diet", ela disse. "O sabor não é bom."

Apesar do ritmo frenético do trabalho, os trabalhadores sofrem do que Melissa Kendrick, a chefe do Banco de Alimentos do Condado de Monterey, chama de "paradoxo de obesidade dos pobres".

"Sim, eles são gordos, mas são desnutridos porque só comem porcaria", ela disse.

O consumo de alimentos baratos e amiláceos é um fator importante para a epidemia de obesidade por todos os Estados Unidos. Mas as taxas entre os trabalhadores rurais são significativamente mais altas: 85% estão acima do peso ou obesos em comparação à media nacional de 69%.

Alguns trabalhadores rurais no Vale de Salinas dormem ao lado dos vegetais que não têm dinheiro para comprar.

Em uma fileira de apartamentos empoeirados ao estilo de barracões, em meio a trilhos ferroviários e vastas plantações de brócolis, Maria Hernandez, 60, paga US$ 520 (cerca de R$ 1.770) por mês por dois quartos minúsculos, cada um com cerca de 5 metros de diâmetro. Sua família estendida é de imigrantes mexicanos que passaram suas vidas plantando e colhendo morangos, aipo e outros produtos. Ela ficou ciente da necessidade de comer melhor quando tanto sua mãe quanto sua irmã foram diagnosticadas com diabete.

"Apesar de estarmos cercados de alimentos saudáveis, não comemos porque é caro", disse Antonia Tejada, a filha de Hernandez, que trabalho no turno da noite no McDonald's. "Preferimos comprar um saco grande de feijão do que pagar US$ 2 (cerca de R$ 7) por um pouquinho de brócolis que mal alimenta uma pessoa."

A apenas uma hora ao sul do Vale do Silício, o Vale de Salinas é uma área rural com preços urbanos.

Israel de Jesus, que trabalha como intérprete no Centro Médico Natividad, em Salinas, lotou uma casa que alugou por US$ 1.600 (cerca de R$ 5.440) por mês quando realizava trabalho rural.

"Não tem como economizar dinheiro, por causa das contas e do aluguel", disse Jesus. "Mas é preciso economizar dinheiro, para poder viver durante o inverno."

Mesmo quando hortifrútis e outros alimentos saudáveis estão disponíveis ou com preço acessível, os trabalhadores às vezes optam pela satisfação dos pratos habituais.

Brigita Gonzalez acorda todo dia às 3h30 para preparar a comida para seu marido, que parte para os campos uma hora depois. Quando certa vez ela lhe preparou uma salada como acompanhamento para os tacos, ele voltou à noite sem ter terminado de comer a salada.

Gonzales disse que seu marido foi provocado pelos colegas de trabalho por comer salada: "Todos ficavam dizendo: 'O que é isso que você está comendo?'"

Kendrick, do banco de alimentos, diz que a demanda é forte por alimentos saudáveis, apesar das preferências culturais. O banco de alimentos distribui cerca de 5 milhões de refeições por ano e está levantando dinheiro para um grande depósito de alimentos em um terreno de 24 mil metros quadrados.

Após ter trabalhado no Vale do Silício, Kendrick disse que foi motivada pela ideia de que é possível corrigir o problema de fome e desnutrição em um país com tanta riqueza.

"Já passei tempo na Índia, no Oriente Médio, no Sudeste Asiático, países do terceiro mundo onde a pobreza está por toda parte", ela disse. "É chocante quando você a encontra em seu Estado natal."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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