Combativo, populista Steve Bannon encontrou seu homem forte em Donald Trump

Scott Shane

  • AFP PHOTO / GETTY IMAGES / Drew Angerer

Quando Julia chegou ao seu escritório em Santa Monica às 8h —que, pelos padrões de Hollywood, é praticamente madrugada— ela encontrou Stephen K. Bannon já em sua escrivaninha, coberta de copos de café para viagem. Eles foram co-roteiristas em um documentário sobre Ronald Reagan, mas Bannon basicamente acabou assumindo o controle de tudo. Ele lhe contou que já estava trabalhando havia horas, escrevendo freneticamente sobre seu herói político.

Hoje, com Donald Trump, cuja eleição Bannon ajudou a arquitetar, prestes a tomar o poder, o filme de 2004 "In the Face of Evil" carrega um tom profético em sua mensagem: Somente um homem estava preparado para o desafio trazido por ameaças internas e globais iminentes.

"Um homem de visão", diz o trailer. "Um 'outsider', um radical com visões extremas."

Assim como Reagan, Trump se dirigia às pessoas que ele chamava de "os homens e mulheres esquecidos de nosso país", a classe média branca trabalhadora. Ele jurou atacar o radicalismo islâmico, da mesma forma que Reagan havia confrontado o comunismo. Repetindo o tema de salvador da pátria presente em "In the Face of Evil", Trump declarou sobre o aperto passado pelo país: "Só eu posso resolver isso."

Jones, por sua vez, não teve dificuldades para ver os paralelos. Ela diz que "Trump é o Reagan de Steve".

Trump, é claro, não foi criação de Bannon. (Questionado na terça-feira por jornalistas do "New York Times" para opinar sobre Bannon, Trump o elogiou, mas disse enfaticamente: "Sou eu que tomo as decisões.")

Mas Bannon entendeu melhor do que qualquer outro estrategista da campanha de 2016 quantos eleitores estavam em busca de uma mudança drástica, disse Patrick Caddell, um veterano das pesquisas de opinião pública. "Sua ideologia é a do 'outsider' e a do insurgente", disse Caddell.

Críticos veementes de sua nomeação, um grupo variado que inclui o apresentador de talk-show conservador Glenn Beck e o senador Bernie Sanders, que competiu com Hillary Clinton pela candidatura presidencial democrata, chamaram Bannon de racista, sexista, antissemita e islamofóbico. No entanto, entrevistas com cerca de 20 pessoas que o conhecem bem retratam um homem difícil de rotular. (Bannon recusou um pedido de entrevista, dizendo que estava ocupado demais com a transição presidencial.)

Fãs e inimigos concordam que ele é um "gritador", uma personalidade explosiva que às vezes recorre a uma linguagem ofensiva ou hiperbólica. Em documentos de uma ação judicial consta que uma de suas três ex-mulheres alegou que ele disse não querer que suas filhas gêmeas frequentassem uma escola com judeus que criam seus filhos como "pestes mimadas", uma alegação negada por Bannon. Em uma entrevista de 2011 para uma rádio, ele disse que mulheres liberais eram "um bando de sapatonas saídas das Sete Irmãs (faculdades historicamente só de mulheres)".

"Ninguém disse que ele é legal", diz Patrick McSweeney, ex-presidente do Partido Republicano da Virginia que conhece sua família há anos. "Ele é a pessoa menos politicamente correta que eu conheço. Sua preocupação predominante é cumprir uma missão."

Bannon encorajou o uso de "iscas de cliques" no site do Breitbart.com e links para artigos do Breitbart muitas vezes são espalhados pelo Twitter e pelo Facebook juntamente com retórica nazista e comentários racistas. Bannon só criticou levemente os intolerantes entre seus admiradores.

"Eu o conheço há 14 anos, e nunca o ouvi soltar um comentário racista ou antissemita", disse Peter Schweizer, um escritor conservador e presidente do Government Accountability Institute, do qual Bannon foi um dos fundadores.

Ben Shapiro, um ex-editor do Breitbart que tem criticado Bannon duramente, o chamou de "manipulador" que "levou para o mainstream" extremistas de direita com intuitos políticos cínicos.

Jones, ex-colaboradora de Bannon no cinema, que se descreve como bastante liberal, disse: "Steve não é racista."

Mas ela acrescentou: "Ele está usando a alt-right (direita alternativa) para ganhar poder."

Robin Mickle, um colega de Bannon na Marinha a bordo do destróier USS Paul F. Foster, lembra que ele e alguns de seus colegas idealistas ficaram surpresos com algo que Bannon lhes dissera em 1978.

"Ele disse que havia ingressado na Marinha para incrementar seu currículo, porque ele queria entrar para a política algum dia", disse Mickle.

Bannon era o filho do meio entre cinco irmãos de uma família irlandesa católica, que morava em uma arborizada vizinhança do norte de Richmond, no Estado da Virginia. Seu pai, Martin, de 95 anos, de quem ele permanece muito próximo, era um técnico de telefonia que chegou depois a um cargo gerencial médio na companhia telefônica.

Embora sua família tivesse raízes democratas, Bannon, assim como a maior parte de seus colegas na Marinha, desdenhava o presidente Jimmy Carter e estava encantado por Ronald Reagan.

Quando Bannon ouviu que a festa da eleição de Reagan estava marcada para acontecer em um hotel de Los Angeles, ele fez várias ligações para tentar conseguir ingressos. Sonny Masso, um colega da Marinha que depois chegou ao cargo de almirante, lembra que quando Bannon foi ignorado, ele disse: "Ei, cara, nós acabamos de voltar do Golfo Pérsico". Logo depois o assessor de Reagan, Lyn Nofziger, ligou para ele dizendo: "O governador ficaria honrado em tê-lo lá."

Bannon foi aceito na faculdade de administração de Harvard, e deixou a Marinha em 1983 para começar uma nova vida.

Amigos seus em Harvard e depois no Goldman Sachs estavam cientes das visões conservadoras de Bannon, mas raramente se discutia política. "Ele estava na área de fusões e aquisições, eu estava em finanças corporativas, e nós dois trabalhávamos 100 horas por semana", disse Scot Vorse, que conheceu Bannon em seu primeiro dia em Harvard e entrou para o Goldman Sachs na mesma época.

Passados menos de quatro anos, Bannon saiu do Goldman para abrir sua própria firma, a Bannon &Co., para a qual Vorse logo entrou.

"Nós éramos os azarões", disse Vorse. "Estávamos competindo pelo mercado das maiores empresas de entretenimento do mundo, e nós nos saímos bem."

Em 1998, a Bannon&Co. foi comprada pelo Société Générale, e Bannon administrou uma série de empresas que trabalhavam na intersecção do entretenimento e das finanças.

Através dos filmes, Bannon passou a voltar sua atenção para a política. Tim Watkins, seu codiretor no documentário sobre Reagan, disse que Bannon trabalhava das 7h às 2h da manhã.

No dia 11 de setembro de 2001, os ataques terroristas "mudaram o filme radicalmente", disse Watkins. As batalhas da Guerra Fria de Reagan se misturaram ao final, que mostrava os aviões sequestrados batendo no World Trade Center e pessoas pulando das janelas.

"Steve teve várias das ideias gerais", disse Watkins, em especial a de que "a vida é uma batalha entre o bem e o mal, e a história se repete".

Quando sua filha mais velha Maureen entrou na [academia militar americana] West Point, Bannon ficou extasiado e ele estava em Fort Campbell, no Kentucky, em 2011, quando ela voltou de uma missão no Iraque. Mas através do serviço de sua filha, ele viu uma desigualdade que alimentou sua raiva contra os americanos privilegiados com quem ele por muito tempo trabalhou.

Na West Point, "ele viu uma total falta de pessoas vindas das camadas econômicas superiores da sociedade americana", disse Schweizer, o escritor conservador. "Ele achava aquilo estarrecedor, especialmente porque a elite estabelecia tantas políticas que enviavam esses jovens para a guerra."

Quando houve uma reunião do Tea Party em 2010 em Nova York, Steve Bannon já havia adotado totalmente um diagnóstico baseado em classe sobre os infortúnios do país: "Nos últimos vinte anos, nossas elites financeiras e a classe política cuidaram de si mesmas e levaram nosso país à beira da ruína", ele disse. Em comparação, o Tea Party segundo ele era apoiado pelas "pessoas que lutam em nossas guerras, pagam nossos impostos, comandam nossas organizações civis, que constroem nossas cidades e que mantêm nossas vizinhanças unidas."

Em uma reveladora intervenção por Skype para uma conferência no Vaticano em 2014, algumas de suas palavras podem ter vindo da senadora Elizabeth Warren (democrata-Massachusetts) ou de Sanders.

"Nenhuma acusação criminal foi feita contra qualquer executivo de banco associado à crise (financeira) de 2008", reclamava Bannon. "E, na verdade, é ainda pior. Nenhum bônus e nenhum título foi tirado [deles]."

Sobre outros temas, incluindo raça e religião, ele não fez concessões a sensibilidades políticas. Jones, sua colega de cinema, disse que durante os anos em que trabalharam juntos, Bannon falava ocasionalmente sobre a superioridade genética de algumas pessoas e uma vez pensou sobre a conveniência de se limitar o voto a donos de propriedades.

"Eu disse: 'Isso excluiria muitos afroamericanos'," lembra Jones. "Ele disse: 'Talvez isso não seja tão ruim'."

Bannon assumiu como presidente executivo da Breitbart News em 2012 após a morte de Andrew Breitbart. Os críticos de Bannon afirmam que às vezes ele coloca suas preferências políticas à frente da imparcialidade ou mesmo dos fatos, determinando que algumas matérias sejam reescritas de acordo com suas especificações e ignorando protestos de que suas mudanças possam torná-las imprecisas. A Breitbart se especializou em coberturas incendiárias de tiroteios policiais, imigração e islamismo de maneiras intencionadas a alfinetar posições liberais.

Alex Marlow, o editor-chefe da Breitbart, negou que Bannon tivesse alguma vez permitido deliberadamente que uma matéria imprecisa fosse publicada no site. "A Breitbart representa certos valores, como o conservadorismo, o populismo e o nacionalismo, e Steve Bannon queria que nosso conteúdo refletisse isso", disse Marlow.

Alguns editores e repórteres da Breitbart achavam que ele estava transformando o site de notícias em uma plataforma de propaganda.

"Na minha opinião, Steve Bannon é um rufião, e traiu a missão de Andrew para apoiar outro rufião, Donald Trump", escreveu Shapiro em uma declaração quando saiu da Breitbart em março em apoio a Michelle Fields, uma repórter da Breitbart que havia sido agarrada brutalmente por Corey Lewandowski, diretor de campanha de Trump na época. "Ele transformou a empresa em um 'Pravda' pessoal de Trump."

Nas semanas finais da campanha, Bannon tinha certeza de que as pesquisas que apontavam para uma vitória de Hillary estavam erradas, de acordo com outros funcionários da campanha. A família dele foi até a cidade de Nova York para o pós-eleição.

Às 4h30 da manhã, Vorse, seu ex-colega, o procurou para dar os parabéns. Ele se lembrou de seus tempos em Hollywood, quando "conquistávamos vitórias e o Steve comemorava por dois segundos e depois já estava com a cabeça na próxima."

"Ele disse: 'Preciso ir porque temos uma reunião daqui a três horas. Preciso correr.'"

Tradutor: UOL

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