Líder sul-coreana resiste aos crescentes pedidos por impeachment

Choe Sang Hun

Em Seul (Coreia do Sul)

  • Baek Seung-ryul/Yonhap via AP

Park Geun-hye está enfrentando impeachment e processo por suposta corrupção e tráfico de influência. Um de suas conselheiras está sendo comparada a Rasputin pela estridente mídia de notícias sul-coreana. Grupos cada vez maiores de manifestantes tomam as ruas, exigindo sua renúncia.

A presidente da Coreia do Sul está paralisada por um escândalo bizarro e uma crescente reação negativa do público, que podem torná-la a primeira líder sul-coreana removida do cargo desde que seu pai, o ditador militar Park Chung-hee, foi assassinado em 1979.

Mas mesmo com a queda de seu índice de aprovação para um único dígito, Park Geun-hye permanece desafiadora, o que significa que a pior crise política da Coreia do Sul em décadas provavelmente se arrastará por meses, deixando seu governo conservador distraído e em desarranjo em um momento em que está lidando com uma desaceleração econômica e crescente dívida interna.

Além disso, com relatos de que o conflito em torno do programa de mísseis nucleares da Coreia do Norte pode se acirrar à medida que o presidente eleito dos EUA, Donald Trump, se prepara para ser empossado em Washington, o impasse em Seul pode deixar os Estados Unidos com um aliado seriamente debilitado.

No sábado, centenas de milhares de manifestantes foram às ruas de Seul para aquele que supostamente foi o maior protesto contra um presidente sul-coreano.

O protesto concluiu uma semana dramática, na qual o escândalo envolvendo uma conselheira sombria de Park caminhou para uma votação de impeachment na Assembleia Nacional, e na qual promotores do governo a acusaram de conspiração criminosa, a primeira vez em que um presidente no exercício do poder é apontado como suspeito criminal. Enquanto isso, dois importantes assessores falaram em renunciar, dizendo que estavam impossibilitados de servir em meio à tempestade do escândalo.

Park permanece enclausurada na Casa Azul presidencial, negando as acusações contra ela por meio de um porta-voz e se recusando a responder às perguntas dos promotores.

"A presidente não tem intenção de renunciar, as pessoas estão brigando nas ruas e o governo está paralisado", disse Woo Sang-ho, líder no plenário do maior partido de oposição, o Partido Democrático. "Não temos opção, exceto o impeachment dela."

Uma votação de impeachment, esperada no início do mês que vem, exige uma maioria de dois terços para ser aprovado. Se os partidos de oposição permanecerem unidos, eles precisarão de menos de 30 votos do Partido Saenuri, de Park, para seu impeachment. O impeachment teria que ser ratificado pelo Tribunal Constitucional.

Uma deserção importante ocorreu na semana passada, quando Kim Moo-sung, um ex-presidente do partido e diretor da campanha presidencial de Park, prometeu apoiar o impeachment, dizendo que ela "traiu o povo e nosso partido".

A suposta conspiração envolve uma confidente e conselheira presidencial secreta, Choi Soon-sil, que foi indiciada em 20 de novembro por exploração de sua influência junto a Park para ter acesso a documentos confidenciais do governo e forçar empresas a doarem US$ 69 milhões a duas fundações que ela controlava.

Promotores disseram que Park foi cúmplice no esquema, orientando seus assessores a ajudarem Choi a extorquir grandes empresas como Samsung e Hyundai.

Mas é o relacionamento de quatro décadas de Park com Choi, que foi descrita como "xamã adivinha" pelos políticos de oposição, que tem fascinado os sul-coreanos.

O pai de Choi, Choi Tae-min, fundador da Igreja da Vida Eterna e um autoproclamado messias, foi mentor de Park. Segundo um relatório da agência de inteligência coreana, ele a abordou após a mãe dela ter sido assassinada em 1974, lhe dizendo que sua mãe morta tinha falado com ele em seus sonhos.

O relatório disse que Choi Tae-min passou a cultivar sua influência sobre Park, na época filha do ditador, para solicitar propinas e acumular uma fortuna familiar. Segundo o indiciamento de 20 de novembro, a filha deu continuidade ao negócio da família.

O ex-motorista de Choi Soon-sil disse ao jornal "Segye Ilbo", na semana passada, que ele entregou uma maleta de dinheiro da família Choi para bancar a candidatura de Park ao Parlamento no final dos anos 90. Durante sua campanha presidencial em 2012 e mesmo após sua posse, Choi Soon-sil editava os discursos de Park, como esta reconheceu.

Park já pediu publicamente desculpas duas vezes pelo escândalo em discursos televisionados, dizendo que baixou sua guarda diante de uma amiga de confiança. Mas ela disse que não tinha conhecimento de qualquer extorsão e seu gabinete chamou na semana passada as acusações dos promotores de infundadas.

"Não acreditamos que a investigação pelos promotores foi justa ou politicamente neutra", disse o porta-voz dela, Jung Youn-kuk.

Membros leais do partido se uniram para tentar impedir o impeachment. Lee Jung-hyun, o atual presidente do partido, alertou contra deserções: "Mesmo se você pular fora devido ao navio estar inclinando, a única coisa que o aguardará é um mar de morte". Ele também chamou de "Judas" os membros do partido que desejam o impeachment de Park.

Mesmo assim, as revelações dos promotores alienaram até mesmo alguns dos aliados ferrenhamente conservadores de Park, muitos dos quais a viam como uma réplica de seu pai, que era reverenciado por ter tirado o país da pobreza. Os críticos dizem que o governo dela é uma cópia ruim, imitando algumas das tendências autoritária de seu pai, mas carente da eficácia e das políticas que o guiavam.

A esta altura, destino de Park pode depender de "timing" tanto quanto do peso das evidências. Se a abertura do processo de impeachment for aprovada, seus poderes presidenciais serão suspensos enquanto o Tribunal Constitucional tem seis meses para decidir sobre sua validade. O mandato de cinco anos de Park termina em fevereiro de 2018.

Analistas dizem que ela está ganhando tempo obstruindo a investigação, na esperança de que o alvoroço diminua ou que Assembleia Nacional ou o Tribunal Constitucional, de inclinação de direita, vote contra o impeachment.

Mas o esgotamento do tempo para o impeachment não necessariamente a poupará de um processo. Já apontada pelos promotores como suspeita de crime, ela pode ser presa no dia em que deixar o cargo ou perder sua imunidade presidencial.

Esse não parece ser um privilégio que ela abrirá mão voluntariamente.

"Ela se manterá firme, mesmo se todos os 50 milhões de sul-coreanos saírem para rejeitar sua presidência e exigir sua renúncia", disse o primeiro-ministro Kim Jong-pil, um parente de Park, para a revista de notícias "Sisa Journal" neste mês. "Assim que ela finca o pé, ninguém consegue movê-la."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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