Como um cartunista usa a charge para denunciar a corrupção e foi preso

Mike Ives

Em Hong Kong

  • Zunar via The New York Times

    Charge de Zunar de uma pessoa acorrentada com a Lei da Sedição em volta do pescoço e o Código Penal como algemas

    Charge de Zunar de uma pessoa acorrentada com a Lei da Sedição em volta do pescoço e o Código Penal como algemas

Quando manifestantes invadiram uma exposição de arte de Zulkiflee Anwar Ulhaque, um cartunista político, no Festival Literário de George Town na Malásia, no sábado, ele presumiu que a polícia ia querer sua ajuda para identificar os responsáveis.

Em vez disso, disse Zulkiflee, conhecido como Zunar, ele foi interrogado pela polícia, detido por um dia e informado de que estava sob investigação por produzir cartuns que propositadamente difamavam o primeiro-ministro Najib Razak.

Não foi a primeira vez que Zulkiflee, que já enfrenta nove acusações de sedição e está proibido de deixar o país, arrumou confusão com sua caneta. Suas charges frequentemente atacam Najib, que é acusado de desviar milhões de dólares de um fundo de investimento estatal. Najib tem enfrentado manifestações pedindo por sua renúncia, mais recentemente em um protesto anticorrupção este mês que atraiu dezenas de milhares de pessoas em Kuala Lumpur, a capital.

Em uma entrevista, Zulkiflee, 54, discutiu como as mídias sociais foram se tornando um canal cada vez mais importante para a dissidência política na Malásia, e por que ele continua a usar sua arte para investigar a corrupção e a injustiça sem se preocupar demais com os riscos.

NYT: O senhor sente que o clima para criar sua arte mudou nos últimos anos?

Zulkiflee: As pessoas realmente não estão felizes com o governo --são cada vez mais pessoas-- mas existem leis que as impedem de estar na linha de frente e de serem francas demais. Então elas usarão qualquer tipo de formato, de ferramenta, para expressar seus pontos de vista ou protestar. Então agora as mídias sociais são uma ferramenta muito eficaz. As pessoas estão começando a ser criativas nas mídias sociais ao usarem desenhos, charges, pôsteres ou vídeos.

O governo sente que isso é muito perigoso para eles, então começaram a introduzir leis. Por exemplo, a Lei da Sedição foi introduzida pelo governo britânico em 1948. E em 2012, o primeiro-ministro fez uma promessa aberta para a Malásia de que ele aboliria a Lei da Sedição, ao vivo pela TV. Mas ele a está usando mais agora, e ela será reforçada.

NYT: Esses tipos de regulações afetam seu processo criativo?

Zulkiflee: Estou enfrentando tantas leis, foram usadas três leis contra mim até agora. Mas uma coisa que mantenho em mente --uma coisa muito, muito importante-- é que o maior inimigo para qualquer um no mundo é a autocensura. Para mim, o talento não é um dom, mas sim uma responsabilidade. As pessoas perguntam: você não tem medo? Sim, eu tenho medo, sou humano. Mas a responsabilidade é maior do que o medo. Então não quero realmente pensar no que o governo vai fazer comigo depois. Eu só me concentro no que devo fazer. Isso me ajuda a continuar e eu desenho mais charges. Se começar a pensar na lei, começo a pensar na prisão, começo a pensar na ação do governo, e eu definitivamente começo a praticar a autocensura, e isso não é bom. Então eu desenho normalmente.

NYT: Sua charge sobre a pessoa acorrentada com a Lei da Sedição em volta do pescoço e o Código Penal como algemas...

Zulkiflee: Esse é um autorretrato.

NYT: O que o senhor estava tentando dizer?

Zulkiflee: Você vê que três leis, que mencionei anteriormente, foram usadas contra mim. Primeiro a Lei da Sedição, segundo o código penal, terceiro a Lei da Imprensa Escrita e das Publicações. Fui acorrentado com essas leis, pelas mãos, pelo pescoço e pelas pernas. Mas se você olhar para minha camisa, você pode ver minhas filosofias ali. Entre elas estão "Vou continuar desenhando até a última gota de tinta" e "Como posso ser neutro? Até minha caneta tem uma posição." Então esse desenho mostra que mesmo tendo uma lei para me deter, mesmo havendo uma regulação para me deter, mesmo que eles tenham tentado banir meus livros --na verdade eles não tentaram, eles já baniram meu livro-- vou continuar desenhando. É por isso que, sem as mãos, continuo usando minha boca ou meus dentes para desenhar. Isso é para mostrar a filosofia e a determinação em cumprir meu dever como cartunista na Malásia.

NYT: O senhor disse que está esperando uma décima acusação de sedição. Mesmo sem isso, há uma previsão de mais de 40 anos como sentença máxima de prisão. Como o senhor se sente com a perspectiva de talvez ter de cumprir uma pena tão longa?

Zulkiflee: Você precisa entender que essa é uma acusação de motivação política, não tem nada a ver com a lei. Na Malásia, é muito, muito difícil para nós que somos acusados por motivação política. Você só precisa olhar para o que aconteceu com o caso do líder da oposição na Malásia, Anwar Ibrahim. Embora ele tivesse fortes evidências e testemunhas, foi algo político. Será muito difícil para nós consertarmos isso. Mas para mim este é um caso muito importante para se criar conscientização em todo o mundo a respeito do estado da liberdade de expressão e dos direitos humanos na Malásia. Eu vou enfrentar isso.

Tradutor: UOL

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