China remove assentamento de tibetanos no maior instituto budista do mundo

Edward Wong*

Em Larung Gar (China)

  • Gilles Sabrie/The New York Times

    Monges budistas em Larung Gar, no Tibete, região administrada pela China

    Monges budistas em Larung Gar, no Tibete, região administrada pela China

No topo de uma colina, o barulho de uma motosserra abafava os alto-falantes de onde saíam os cânticos de um lama, em um templo próximo.

A motosserra, manejada por trabalhadores na demolição de uma fileira de casas, assinala o fim iminente de milhares de moradias monásticas construídas a mão em Larung Gar, o maior instituto budista do mundo.

Desde que foi fundado em 1980, Larung Gar cresceu até virar uma área de expansão extraordinária e surreal, com inúmeras moradias pintadas de vermelho em torno de templos, estupas e grandes rodas de orações. As casas se espalham sobre as paredes desse remoto vale tibetano como geleia de morango sobre uma broa.

Larung Gar se tornou uma das instituições mais influentes no mundo tibetano, com os ensinamentos de seus monges mais antigos sendo louvados, debatidos e pregados dali até o Himalaia. Nos últimos anos, seus discípulos popularizaram o movimento das "10 novas virtudes" baseado em crenças budistas, espalhando sua mensagem pela região.

Agora os oficiais chineses estão intensificando o controle sobre o assentamento, naquilo que muitos tibetanos e ativistas chamam de golpe duro contra a prática religiosa tibetana.

Recentemente, em uma tarde, era possível ver operários de capacete desmontando celas que monges e freiras haviam construído ao longo de um espinhaço. Enquanto eles jogavam longe vigas de madeira e lonas de plástico, as freiras vasculhavam entre os destroços em busca de pertences seus. Homens que pareciam ser policiais à paisana observavam a partir de um banco do outro lado da rua.

Centenas de budistas já haviam sido expulsos da área. Um monge que assistia à destruição a partir da ponta de um penhasco me contou que estava hospedado em uma casa do outro lado do vale. Assim como outros que foram entrevistados para esta  matéria, ele falou sob condição de anonimato, para evitar represálias das autoridades.

"Ouvi dizer que minha casa será demolida", ele disse. "Não sei se vão permitir que eu fique."

As tensões entre tibetanos e o governo chinês têm sido grandes desde que houve uma insurreição geral pelo planalto tibetano em 2008. A supressão de sua cultura e de sua vida religiosa continua no centro das queixas dos tibetanos, e as restrições em importantes instituições religiosas como Larung Gar alimentaram esse ressentimento.

Muitos tibetanos dizem temer a erosão de sua língua, de suas tradições e de suas formas de culto. A China ainda condena o dalai-lama, o líder espiritual tibetano, e proíbe sua imagem em toda a região.

Algumas estimativas apontam para uma população de 20 mil pessoas em Larung Gar, muitos deles religiosos que migraram para lá vindos de partes distantes do amplo planalto. Praticantes do budismo que são Han, a etnia dominante na China, vivem lado a lado com tibetanos no assentamento, que fica a 16 horas de carro em um trajeto sinuoso a partir da capital da província, Chengdu. 

Entrevistas com residentes de Larung Gar e relatos da Human Rights Watch, da Radio Free Asia e de grupos estrangeiros pró-Tibete indicam que oficiais pretendem reduzir a população do assentamento para 5 mil até o final do ano que vem através de despejos em massa. Durante o verão, oficiais começaram a deportar monges e freiras que não eram residentes registrados dessa área de Garzê na província de Sichuan, que inclui uma grande parte da tradicional região tibetana de Kham.

Os usuários tibetanos do WeChat, um popular aplicativo chinês de redes sociais, disseram que aqueles que foram expulsos precisaram prometer nunca mais voltar. Até outubro, cerca de mil pessoas haviam sido expulsas, de acordo com residentes e grupos de direitos humanos.

Em junho, um artigo publicado por um website estatal citava um oficial do partido local, Hua Ke, dizendo que as autoridades não estavam expulsando residentes ou destruindo suas moradias. Ele disse que na verdade estariam reformando o assentamento lotado "para eliminar riscos ocultos e proteger a segurança pessoal e a propriedade dos monges e das freiras."

Quando as demolições começaram este verão, oficiais fecharam a área para estrangeiros. A polícia montou postos de controle do lado de fora do vale. Mas, no mês passado, consegui entrar em Larung Gar junto com dois colegas.

Um grande posto de controle na estrada se encontrava sem ninguém, então subimos em um ônibus na boca do vale que nos levou até o coração do assentamento. Também havia turistas chineses visitando, muitos deles atraídos pela oportunidade de ver um sepultamento celestial, um ritual funerário tibetano ao ar livre no qual um homem retalha um cadáver de forma que abutres possam se banquetear com os restos mortais.

Ao meio-dia, freiras de hábito carmim corriam para uma reunião no convento principal. Entre as travessas sinuosas, religiosos saíam e entravam em sua casas, que são pouco mais que cabanas construídas com vigas de madeira e chapas de metal e plástico. Monges falando mandarim—provavelmente de etnia Han—escavavam um canal de esgoto.

Pareciam cenas do cotidiano, nada fora do normal, até que chegamos a uma grande roda de oração em uma estrada principal que subia de forma sinuosa até a parede norte do vale. Ao lado da roda, vimos quatro operários de capacete sobre uma casa, arrancando o teto de metal. Ali perto, um lote de terra com destroços de outra casa demolida.

Continuamos morro acima. No topo do espinhaço, vimos uma longa fileira de casas sendo demolidas pelos trabalhadores. Conseguíamos ouvir uma motosserra, com uma escavadeira amarela ali perto.

Essa destruição estava acontecendo em uma parte de Larung Gar de especial importância religiosa. As casas haviam sido construídas do outro lado da estupa mais alta do vale, por onde perambulam peregrinos e residentes, muitas vezes enquanto giram rodas de oração.

O governo diz que o assentamento está lotado, e ele está. Há esgoto a céu aberto e  valas de lixo. Em 2014, um incêndio destruiu cerca de 100 casas. Mas os tibetanos dizem que os oficiais poderiam construir enclaves mais novos e mais limpos em vez de despejar as pessoas. Eles acreditam que o verdadeiro objetivo do governo seria enfraquecer centros de poder que poderiam rivalizar com ele.

Elliot Sperling, um estudioso da cultura tibetana que lecionou na Universidade de Indiana, compartilha da visão dos tibetanos sobre as motivações por trás das demolições.

"O partido vê o Tibete, dentro e fora da Região Autônoma do Tibete, como uma das regiões mais voláteis, e não vê com bons olhos fontes alternativas de autoridade, incluindo autoridade moral e comportamental, e claramente o crescimento de Larung é problemático", diz Sperling.

Larung Gar foi fundado em 1980 por Jigme Phuntsok, um carismático lama cujo retrato pode ser visto em todo o assentamento. (Um gar é um acampamento monástico, que começa como uma pequena aglomeração.). Então, em 2001, oficiais despejaram muitos de seus residentes, demolindo suas casas. Mas as pessoas voltaram.

Depois que Jigme morreu em 2004, dois lamas mais antigos assumiram, expandindo o perfil de Larung Gar, muitas vezes indo para outros países para dar palestras e transmitir ensinamentos. Um deles, Sodargye, foi para a Europa este verão, enquanto o outro, Tsultrim Lodro, fez uma turnê por universidades americanas.

Os dois abades não falaram publicamente contra as demolições, e ordenaram aos residentes que não se opusessem ao governo. Os residentes disseram que eles acreditam que é melhor não protestar contra a demolição, e em vez disso deixar que ela siga seu rumo e eles vivam em paz depois.

Discípulos de Larung Gar têm espalhado por todo o Tibete controlado pelos chineses o movimento das "10 novas virtudes". Baseado em um modelo budista, ele defende uma fortificação em 10 princípios: não matar ou vender animais, não roubar, não beber, não brigar e assim por diante. A doutrina é especialmente popular em Garzê. Alguns praticantes usam um pendente com a imagem de uma pomba branca, e oficiais notaram seu ativismo religioso.

Para alguns nômades tibetanos, esses dogmas que chegam a partir de dois abades de Larung Gar tornam a vida mais difícil, já que boa parte de sua economia se baseia no pastoreio e na venda de animais, especialmente iaques. "Esses lamas são muito respeitados, mas alguns tibetanos não concordam com as políticas dos lamas", diz Katia Buffetrille, uma estudiosa da cultura tibetana da École Pratique des Hautes Études de Paris.

Monges de Larung Gar atravessaram Garzê para tentar desarmar conflitos locais e ajudar com questões de justiça social. Na região de savanas de Lhagong, chamada de Tagong em chinês, monges ajudaram os residentes a redigir uma documentação quando eles quiseram protestar contra uma grande mina de lítio.

Mas residentes da região disseram que as autoridades não estavam felizes com essa atividade. "Eles querem controlar os tibetanos", diz um homem de Garzê que visitou Larung Gar diversas vezes. "Eles não querem que o monastério cresça muito rápido."

*Com contribuição de Vanessa Piao

Tradutor: UOL

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