Ligação de Trump com Taiwan foi gafe ou recomeço da diplomacia dos EUA?

Mark Landler, de Washington (EUA), e Jane Perlez, de Pequim (China)*

  • Evan Vucci e Chinag Ying-ying/ AP

    O presidente eleito dos EUA Donald Trump e a presidente de Taiwan Tsai Ing-wen

    O presidente eleito dos EUA Donald Trump e a presidente de Taiwan Tsai Ing-wen

Os motivos do presidente eleito Donald Trump para sua conversa telefônica heterodoxa com a líder de Taiwan continuam misteriosos, mas alguns republicanos estão saudando sua diplomacia improvisada como uma ruptura revigorante dos rituais diplomáticos que datam do governo de Richard Nixon. Ela poderá servir de base, segundo eles, para um relacionamento mais saudável com a China.

A questão, como ocorre frequentemente com Trump, é se ele terá a disciplina para efetivar essas mudanças. Em suma, o telefonema foi o início de uma política calculada, ou foi meramente um gesto isolado que vai afastar a China e deixar Taiwan ainda mais isolada?

Até agora, as mensagens no lado de Trump são mistas. O vice-presidente eleito Mike Pence insistiu no domingo (4) que as pessoas estão vendo coisas demais na conversa com a presidente Tsai Ing-wen, e que Trump simplesmente aceitou os cumprimentos da "líder eleita democraticamente de Taiwan". Mas pessoas que assessoram a transição dizem que Trump sabia exatamente o que estava fazendo.

Certamente, o presidente eleito não fez nada para reduzir as tensões instigadas pelo telefonema. Uma série de postagens vituperantes de Trump no Twitter durante o fim de semana sobre as políticas comerciais e militares da China atiçaram as perguntas sobre se ele quer reformular as relações com a China de modo mais fundamental.

Mas não se discute que várias pessoas envolvidas na campanha de Trump há muito favorecem a abertura de canais mais formais entre os EUA e Taiwan como forma de pressionar a China. E os republicanos que são considerados para altos cargos aplaudem o que veem como a determinação de Trump usar Taiwan como moeda de troca na disputa geopolítica com a China.

"Ele é o primeiro presidente desde o Comunicado de Xangai que oferece a oportunidade de um novo olhar para o relacionamento através do estreito", disse Jon M. Huntsman Jr., que foi embaixador na China sob o presidente Barack Obama. Huntsman referia-se à declaração de 1972, feita depois da visita de Nixon à China, que restringiu acentuadamente as relações com Taiwan.

O nome de Huntsman veio à tona recentemente como candidato a secretário de Estado, juntamente com o de John R. Bolton, ex-embaixador na ONU sob a Presidência de George W. Bush. Bolton se encontrou com Trump no dia em que este recebeu a ligação de Tsai. Mais tarde, ele disse que os EUA "deveriam sacudir o relacionamento" com a China.

Trump pareceu se ofender com a sugestão de que precisaria da aprovação da China para falar com Tsai. Em duas postagens no Twitter, ele escreveu: "A China nos perguntou se não havia problema em desvalorizar sua moeda (dificultando a concorrência para nossas empresas), taxar pesadamente nossos produtos que vão para seu país (os EUA não os taxa) ou construir um enorme complexo militar no meio do mar do Sul da China? Eu acho que não!"

Isso, por sua vez, levou o governo chinês a endurecer seus protestos à diplomacia desenfreada de Trump. Depois de inicialmente minimizar a ligação que estabelece precedentes, os chineses advertiram Trump, em um editorial na primeira página da edição internacional do "Diário do Povo", que "criar problemas para o relacionamento China-EUA é criar problemas para os próprios EUA".

A China costuma usar a edição internacional de seu jornal oficial para testar importantes pronunciamentos políticos. Em uma réplica a Trump, o editorial disse que empurrar a China contra Taiwan "reduziria em muito a probabilidade de alcançar o objetivo de tornar os EUA grandes de novo".

Ao criticar as políticas da China sobre comércio e segurança, porém, Trump pareceu confirmar sua intenção de adotar uma linha mais dura com a liderança chinesa em um leque maior de questões --e amorteceu ainda mais a esperança em Pequim de que ele pudesse recuar da retórica que usou na campanha, que incluiu ameaças de tarifas comerciais punitivas.

Tal posição refletiria seus assessores de política externa, que criticaram o governo Obama como fraco em relação a Pequim. Alex Grey, um membro da equipe de transição do Departamento de Estado, escreveu um artigo na revista "Foreign Policy" de novembro, com outro assessor de Trump, Peter Navarro, em que citou o tratamento dado por Obama a Taiwan como "ultrajante".

"Esse farol da democracia na Ásia talvez seja o parceiro dos EUA mais vulnerável militarmente em todo o mundo", escreveram Grey e Navarro, declarando que a ilha precisa de um "acordo de armas abrangente" com os EUA para "conter o olhar cobiçoso da China".

Reince Priebus, nomeado chefe de Gabinete de Trump, também tem uma história com Taiwan. Em outubro de 2015, ele se reuniu com Tsai em Taipé como parte de uma delegação do Comitê Nacional Republicano. Depois que Trump escolheu Priebus, o ministro das Relações Exteriores de Taiwan, David Lee, disse em uma sessão legislativa que a indicação é "uma boa notícia para Taiwan".

Grupos pró-Taiwan em Washington minimizaram sua própria atuação na orquestração do telefonema. Mas o aprovaram como um passo para restabelecer o equilíbrio no triplo relacionamento entre Washington, Pequim e Taipé. Eles também disseram que não precisava provocar um confronto com a China.

"É absurdo falarmos sobre entrar em guerra com a China para defender Taiwan, mas nossos presidentes não poderem conversar", disse Randall Schriver, executivo-chefe do Project 2049 Institute, grupo de pensadores de Washington que defende relações mais próximas com Taiwan.

"Os chineses compreendem isso", continuou Schriver. "Eles não querem ver um recuo em seus esforços para isolar Taiwan, mas também não querem um relacionamento ruim com os EUA."

Outros especialistas em China dizem valorizar o desejo de Trump de repensar antigos protocolos diplomáticos. Como observou o presidente eleito, é difícil explicar para pessoas comuns por que os EUA vendem armas avançadas para Taiwan, mas seus líderes não podem se comunicar pessoalmente. Alguns estudiosos da China dizem que não está claro que essa política tenha grande utilidade para os EUA --nem está claro que Pequim não aprenderia a suportar uma relação mais próxima dos EUA com Taiwan.

O problema, segundo alguns, é que Trump antagonizou desnecessariamente a China ao trombetear a ligação e depois acompanhá-la de uma série de tuítes desafiadores. "Não é o telefonema que é o problema; é sua divulgação", disse Shelley Rigger, professora de ciência política, especializada em Taiwan, no Davidson College.

Isso poderia colocar o presidente Xi Jinping em uma posição difícil, obrigando-o a escolher entre não dar importância aos ataques de Trump e arriscar-se a uma reação em seu país, ou aumentar as apostas reagindo de maneira mais firme e colocando a China em uma potencial rota de colisão com os EUA.

A reação inicial do governo chinês à ligação de Trump já atraiu uma torrente de críticas nas redes sociais, de chineses queixando-se de que não foi suficiente. A declaração do ministro das Relações Exteriores, Wang Yi, que foi relativamente discreta, diante da natureza sem precedentes do telefonema, evitou criticar Trump, e em vez disso acusou Taiwan de aplicar um "pequeno truque" no presidente eleito.

Isso ofereceu a Trump uma maneira de sair do imbróglio salvando a face e uma oportunidade de desanuviar a situação. Mas as mensagens que ele postou no Twitter no final do domingo aumentaram a pressão sobre os líderes chineses.

"Os tuítes e os atos de Trump parecem ser mais que um ato simbólico", disse James E. Fanell, um ex-diretor de operações de inteligência e informação da Frota do Pacífico dos EUA. "Isto vai incomodar Pequim, mas vai lembrar ao resto da região Indo-Ásia-Pacífico que o novo governo não se prenderá ao passado."

Alguns analistas chineses acreditam que Trump está adotando um caminho totalmente diferente do de Obama, determinado a competir intensamente com a China em questões econômicas. Mas, conhecendo sua carreira como negociador, alguns veem as medidas da última semana de forma otimista, como uma jogada de abertura.

"Ao mostrar força desde o início, ele pode esperar vantagens nas negociações posteriores com os chineses", disse Zhang Baohui, professor de relações internacionais na Universidade Lingnan em Hong Kong. "Ele é um empresário, e poderá usar suas táticas nos negócios para as relações estatais."

*Colaboraram Keith Bradsher, de Guangzhou (China), e Yufan Huang, na pesquisa

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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