Como é se candidatar a um emprego na Casa Branca de Trump?

Julie Hirschfeld Davis

Em Washington (EUA)

  • Sam Hodgson/The New York Times

    Sonny Perdue, ex-governador da Georgia, dá entrevista aos jornalistas após reunião na Trump Tower

    Sonny Perdue, ex-governador da Georgia, dá entrevista aos jornalistas após reunião na Trump Tower

Quando o ex-governador da Geórgia, Sonny Perdue, desceu do elevador no 26º andar da Trump Tower na semana passada, para sua entrevista com Donald Trump, ele esperava ser interrogado pelo presidente eleito e por uma falange de associados, algo parecido com as cenas de confronto na sala de reuniões, à mesa de conferência, no programa de televisão "O Aprendiz".

Mas em vez disso ele encontrou Trump, calmo e solícito atrás de uma mesa lotada de papéis e jornais, em um grande escritório de canto com uma mistura de lembranças e decorações que pareciam ter mudado pouco desde os anos 80. Nick Ayers, um assessor do vice-presidente eleito Mike Pence, e Stephen K. Bannon, que servirá como estrategista-chefe de Trump, ouviam de lado. Trump, que ofereceu uma cadeira para Perdue em frente à sua mesa, estava no comando.

"Ele abordou aquilo como se estivesse fechando um contrato, e queria saber se ele estava no caminho certo", disse Perdue, que está sendo considerado para secretário da Agricultura e usava na reunião uma gravata adornada com tratores. "Ele acredita que nós nos Estados Unidos fomos bobos ao longo dos anos na forma como lidamos com nossos concorrentes estrangeiros e com o comércio internacional, e eu concordo, e ele queria saber o que eu faria a respeito."

Por mais de uma década, milhões de americanos assistiram Trump entrevistar empregados potenciais no programa "O Aprendiz" com uma mistura de arrogância e desdém. Mas de forma privada ao longo das últimas semanas, uma versão menos teatral do espetáculo tem se desdobrado no escritório em Manhattan, e ocasionalmente em seu campo de golfe em Bedminster, Nova Jersey, ou em Mar-a-Lago, seu local de descanso em Palm Beach, Flórida.

O estilo de entrevista de Trump no mundo real é direto, porém convencional, segundo pessoas que se sentaram diante dele. Ele não tomou notas ou pareceu usar uma lista de perguntas, mas tinha dossiês sobre seus visitantes e exibia com frequência bastante conhecimento sobre a formação e experiência deles. Ele raramente bebia ou comia. Ele se mantinha de paletó. Em Nova York, ele gostava de mostrar a ampla vista do Central Park visível por sobre seu ombro.

Os candidatos, que precisam desfilar diante da mídia no saguão de mármore e bronze da Trump Tower ("É quase como caminhar pelo tapete vermelho em Hollywood", disse o deputado Lou Barletta, republicano da Pensilvânia, que se ofereceu para secretário dos transportes ou do trabalho), disseram que o presidente eleito com frequência faz perguntas abertas e tem pouca paciência com respostas que dão voltas.

"Se você enrolar, ele interromperá você", disse Newt Gingrich, o ex-presidente da Câmara que inicialmente era um candidato a secretário de Estado de Trump, mas decidiu que não estava interessado em um cargo no governo. "Ele deseja saber o que você pode fazer por ele."

Gingrich disse que a abordagem de Trump para formar seu governo é a mesma que ele usou em seus negócios multibilionários.

"Ele está acostumado a definir os empregos, medindo a capacidade e avaliando: 'Você será capaz de dirigir meu campo de golfe? Você será capaz de dirigir meu hotel? Será que desejo seu restaurante no meu prédio?" disse Gingrich.

Trump tem se envolvido mais diretamente nas entrevistas do que seus antecessores. George W. Bush raramente falava pessoalmente com mais de um finalista para cada cargo no governo, disse Clay Johnson 3º, que dirigiu o esforço de transição dele em 2000. O presidente Barack Obama também entrevistou apenas um único finalista para cada posto na maioria dos casos, geralmente em conversas pessoais visando confirmar uma conclusão já estabelecida de que o candidato era o certo para o cargo, disse Dan Pfeiffer, um alto funcionário da transição em 2008.

"Em alguns casos, ele sabia quem queria e a questão era convencê-los a aceitar", disse Pfeiffer, citando como exemplo Hillary Clinton, que se tornou secretária de Estado de Obama, e Robert M. Gates, que ele persuadiu a permanecer como secretário de Defesa.

Obama também foi taxativo de que as deliberações não deveriam vazar a público, mas esse não é o caso com Trump.

Membros do Congresso, generais, empresários e outros se misturam do lado de fora de seu escritório, aguardando por uma audiência com o presidente eleito. Barletta aguardou por mais de 45 minutos para sua reunião, passando o tempo conversando com seus colega deputado Michael McCaul, republicano do Texas, que aguardava por sua entrevista para o cargo de secretário de Segurança Interna.

"Era como uma sala de espera para pessoas que você conhece ou já ouviu falar, todas aguardando por sua vez", disse Robert L. Johnson, fundador da rede de televisão "BET", que visitou Trump em Bedminster para discutir formas de o presidente eleito estender a mão aos afroamericanos.

Enquanto Johnson estava entrando, Rudy Giuliani, o ex-prefeito de Nova York que está sendo considerado por Trump para secretário de Estado, estava saindo.

Trump deseja sentir fundo uma contratação potencial, disseram pessoas próximas dele, prezando a afinidade pessoal e um espírito empreendedor. Mas ele também deseja o parecer de conselheiros de confiança, particularmente Pence e sua filha mais velha, Ivanka Trump, ao avaliar um candidato.

Foi Ivanka Trump quem entrou em contato com Johnson, o empresário e fundador da "BET", depois que ela viu uma declaração feita por ele uma semana após a vitória de seu pai. Nela, Johnson pediu aos eleitores negros para participarem das eleições e insistirem para que ambos os partidos políticos tratem de suas preocupações, para assim obterem o apoio deles.

Dias depois, Johnson foi conduzido a uma sala no Trump National Golf Club, em Bedminster, para se encontrar com Trump, juntamente com Reince Priebus, que Trump nomeou como chefe de Gabinete, Bannon e o marido de Ivanka Trump, Jared Kushner. Trump perguntou a ele sobre quais cargos poderia estar interessado em assumir no governo, mas Johnson disse rapidamente que não estava procurando um cargo.

"Eu lhe disse ao nos sentarmos na sala: 'Presidente eleito Trump, você não deveria perguntar aos eleitores afroamericanos o que eles têm a perder, como fez em sua campanha. O que deveria ter dito, e o que deveria dizer agora, é o que vocês têm a ganhar com um governo Trump", disse Johnson.

Trump pareceu aceitar o conselho.

"Ele disse: 'Então devo me concentrar nos aspectos inspiradores'", disse Johnson.

Trump também aceitou conselhos de outros candidatos a cargos. Durante sua entrevista com James N. Mattis, que foi escolhido na semana passada para secretário de Defesa, Trump perguntou ao general reformado sobre se tortura funciona como ferramenta para extração de informação vital de suspeitos de terrorismo. Mattis lhe disse que não, uma posição que Trump disse posteriormente que lhe surpreendeu e lhe deu motivo para reconsiderar sua posição sobre o assunto.

Como alguém que preza a lealdade, Trump também quis saber precisamente o que os candidatos ao cargo fizeram para ajudá-lo a chegar à Casa Branca.

"Ele me perguntou o que fiz para ajudá-lo na Geórgia", disse Perdue, que disse ao presidente eleito que ele e seu primo, o senador David Perdue, tranquilizaram repetidamente os diretores de campanha sobre as chances de Trump ali e os encorajaram a focar suas energias em outros lugares.

Scott Brown, um ex-senador de Massachusetts que se reuniu com Trump no mês passado sobre se tornar seu secretário de Assuntos dos Veteranos, disse que Trump lhe perguntou como ele poderia ajudá-lo a cumprir suas promessas de campanha e como assegurar um "bom valor" para os veteranos que recebem serviços da agência ou de empresas terceirizadas.

"Ele deixou claro que é um empresário e que delegará para pessoas como eu, potencialmente, e outros", disse Brown. "Ele dirá: 'Faça seu trabalho, faça bem, caso contrário... você está demitido'."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos