Trump, o louco do ano

Charles M. Blow

  • Reprodução/Time

Então, a revista "Time", sempre em busca de alvoroço, elegeu Donald Trump esta semana como Pessoa do Ano. Mas eles o fizeram com a seguinte manchete: "Presidente dos Estados Divididos da América."

O semi-fascista da Quinta Avenida não ficou lisonjeado com essa escolha de palavras.

Em uma entrevista para o programa "Today", Trump bufou: "Quando você diz Estados Divididos da América, eu não os dividi. Agora eles estão divididos". E acrescentou depois: "Acho que dizer dividido é sarcástico, mas até aí, é uma opinião dividida. Ainda não sou presidente. Então não fiz nada para dividir."

Donald, seu nome é divisão. Você e sua campanha de perniciosidade e intolerância não só dividiram este país, como o deixou em farrapos.

Isso vai de acordo com uma tendência extremamente perturbadora de Trump: negar responsabilidade por coisas pelas quais ele é totalmente culpado, ao mesmo tempo em que leva o crédito total por coisas nas quais só esteve parcialmente envolvido.

Como minha mãe costumava dizer: não tente jogar uma pedra e esconder sua mão. Assuma sua odiosidade.

Mas Trump contou a mentira com uma facilidade e uma inocuidade que indicavam inocência e ingenuidade infantis. Na verdade, suas palavras escondiam um frio calculismo.

Essa é a questão da demagogia: ela pode ser encantadora, até deslumbrante, e é isso que a torna tão perigosa.

Os demagogos podem bajular, sussurrar e dar risadinhas. Eles podem nos lembrar do bem que há no mundo porque eles têm uma consciência aguda das peculiaridades do mundo. Eles também podem amar e ser amados. Eles podem refletir nossa própria humanidade porque eles são humanos, mas suas ambições não pendem para o bem.

Seu objetivo máximo é distrair, o que permite a dominação, que por sua vez leva à destruição.

Trump está conduzindo duas campanhas pós-campanha: uma elevada e outra baixa, uma de frivolidade e outra de grande impacto.

Uma é uma campanha de pão e circo —com tuítes, comícios, discursos grandiloquentes sobre questões aleatórias do momento, tudo com a intenção de distrair e provocar— e a outra é a montagem de um gabinete cheio de generais "cachorros loucos" e doadores milionários, um aviário virtual de abutres e gaviões.

Na quarta-feira, o "The New York Times" relatou que Trump havia "se decidido pelo general John F. Kelly, um general de quatro estrelas aposentado da Marinha cujo filho foi morto em combate no Afeganistão, como sua escolha para a Segurança Interna."

Eles também ressaltaram que Kelly havia "ignorado um argumento citado por aqueles que defendem o fechamento da prisão militar de Guantánamo, dizendo que não havia se mostrado como uma inspiração para militantes." A prisão passou para seu comando.

Não se engane: a prisão de Guantánamo é um dos flagelos morais mais gritantes e persistentes remanescentes de nossa reação "dane-se o humanitarismo" aos ataques de 11 de setembro.

Sobre a prisão, Trump disse o seguinte, no mês passado:

"Esta manhã assisti o presidente Obama falar sobre Gitmo, certo, Guantánamo Bay, que aliás, aliás, vamos manter aberta. Que vamos manter aberta...e vamos enchê-la de caras malvados, acreditem, vamos enchê-la."

O "NYT" também disse que Kelly "questionou os planos do governo Obama de abrir todas as funções de combate para mulheres, dizendo que as forças armadas teriam de baixar seus padrões físicos para permitir mulheres em algumas funções."

Isso é perturbador, mas Kelly não é o único das escolhas militares de Trump que tem uma atitude inquietante em relação às mulheres.

No mês passado, o The Daily Beast relatou que o gabinete do tenente-general Michael Flynn, escolha de Trump para conselheiro de segurança nacional, "mandava as mulheres usarem maquiagem, salto alto e saia".

Essas diretivas para as mulheres foram apresentadas em uma "apresentação de janeiro de 2013, intitulada 'Vestida para o Sucesso'," que foi obtida por um pedido previsto na Lei de Liberdade de Informação feito pela organização MuckRock. A apresentação supostamente deu declarações patriarcais indiscriminadas —"a maquiagem ajuda a deixar as mulheres mais atraentes"— com grandes detalhes— "Use só o suficiente para acentuar suas feições". De acordo com a apresentação, "Não defenda o visual da mulher sem graça."

Então, em outras palavras, enquanto o soldado homem usa camuflagem, a soldado mulher deveria usar base. Entendi. De fato, na quarta-feira, minha colega Susan Chira ponderou nestas páginas:

"Seria o gabinete de Donald Trump anti-mulheres?" Ela desfiou uma litania de posicionamentos anti-mulheres e políticas apresentadas por nomeados de Trump, deixando este leitor com a clara conclusão de que sim, ele é. E ela encerrou com esta: "Um dos poucos pontos positivos que militantes dos direitos das mulheres veem em um governo Trump são propostas defendidas por Ivanka Trump. como o pagamento da licença-maternidade e a oferta de mais deduções de impostos devido a gastos com crianças." Mas, como ela observa, existem críticas legítimas de que até isso é patriarcal, por não cobrir a licença-paternidade.

A questão que persiste, a questão que precisamos monitorar com vigilância é se os incipientes brotos de igualitarismo que nasceram neste país serão pisoteados pela pesada bota de um autoritarismo revitalizado.

Sinto como se os Estados Unidos estivessem sendo atingidos por um neuralizador, como no filme "Homens de Preto". Estamos correndo o risco de esquecer o que aconteceu e perder vista, na névoa da confusão e da dissimulação, da profundidade da ameaça que está se formando diante de nós.

Esse é nosso desafio: ver com clareza o que esse enganador quer ocultar; ter determinação quanto àquilo que ele quer que nos resignemos; entender que o homem do ano da revista "Time", por suas palavras e ações, está mais para o louco do ano.

Tradutor: UOL

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