Como a internet salvou uma pequena cidade do sul da Itália do isolamento

Gaia Pianigiani

Em Soveria Mannelli (Itália)

  • Gianni Cipriano/The New York Times

    Soveria Mannelli,vilarejo no sul da região da Calábria com cerca de 3 mil moradores, na Itália

    Soveria Mannelli,vilarejo no sul da região da Calábria com cerca de 3 mil moradores, na Itália

Mario Caligiuri ainda se lembra da noite que pode ter mudado o destino de Soveria Mannelli.

Era véspera de Ano Novo na virada do milênio e ele, como prefeito na época, enviou correndo um e-mail para as autoridades em Roma em busca de um público para explicar sua iniciativa de conectar à internet sua cidade de cerca de 3 mil habitantes, no topo da montanha, que se encontrava em dificuldades.

Durante gerações, Soveria Mannelli foi um agitado entreposto, situado estrategicamente ao longo da estrada principal que ia do sul de Nápoles até a ponta da "bota" da Itália. Mas depois que o governo construiu uma rodovia nos anos 1970 mais próxima da costa, o tráfego foi desviado. Soveria Mannelli ficou isolada.

Caligiuri, assim como muitos outros em Soveria Mannelli, havia se recusado a partir "por um sentimento de afeição", ele disse. Ele estava determinado a resolver as barreiras logísticas do isolamento da cidade.

"Eu havia entendido que as novas tecnologias haviam criado o desenvolvimento econômico, mas era só isso", lembra Caligiuri, que hoje é professor universitário. "Mas foi só quando o governo me convocou em Roma que eu soube que estava fazendo algo de bom."

Caligiuri, 56, serviu cinco mandatos consecutivos como prefeito ao longo de 18 anos. E Soveria Mannelli conduziu com sucesso à era digital sua antiga cultura de trabalho, reavivando os negócios de sua família e transformando a cidade em um modelo de inovação para o subdesenvolvido sul da Itália.

Hoje Soveria Mannelli conta uma próspera editora de médio porte, uma grande fabricante de móveis para escolas e um antigo lanifício, todos tocados por famílias que conseguiram manter suas raízes na cidade ao adaptarem seus negócios à era digital.

A mistura de uma duradoura estabilidade administrativa com prefeitos de visão e um vibrante espírito empreendedor a tornou um destaque na região.

"É um caso exemplar que mostra claramente como uma administração funcional e estável pode ajudar os negócios a crescerem, e que uma pequena comunidade pode promover uma verdadeira cultura de negócios, também no sul da Itália", disse Pier Luigi Sacco, um professor de economia cultural na IULM, universidade de Milão.

Ao mesmo tempo, ele observou que para um lugar tão pequeno Soveria Mannelli possui uma atípica variedade e concentração de habilidades que torna seu sucesso algo difícil de replicar em outros lugares.

"Temo que seja difícil aumentá-la", acrescentou Sacco. "A polifonia de talentos em um vilarejo tão pequeno assim seria algo incomum em qualquer outro lugar do mundo."

Gianni Cipriano/The New York Times
Mario Caligiuri, prefeito várias vezesde Soveria Mannelli e atualmente professor universário

Na época em que Caligiuri escreveu para Roma, 80 famílias do vilarejo estavam conectadas à internet e 800 outras receberiam computadores pessoais financiados através de fundos regionais da União Europeia.

Foi esse tipo de expansão que ajudou Florindo Rubbettino, 45, a fazer a editora de sua família prosperar em Soveria Mannelli, onde seu pai Rosario a fundou em 1972.

"Estamos longe de Milão e pode levar um dia para entregar livros no mercado, mas esse é nosso desafio, e até hoje nunca pensamos em ir embora", disse Rubbettino. "A cultura do trabalho e a qualidade das relações em um território pequeno como este não têm preço."

Para reduzir custos logísticos e ficar de olho na qualidade de produção, a Editora Rubbettino construiu um ciclo integrado dentro de seu amplo depósito em Soveria Mannelli.

Mais de 80 funcionários editam, imprimem e embalam 300 novos livros por ano para o mercado italiano, gerando um faturamento de cerca de 8 milhões de euros (R$ 28 milhões).

Camillo Sirianni, um negócio de família já em sua terceira geração, que começou como uma empresa de carpintaria mecanizada em 1909, também superou o isolamento de sua cidade natal para se tonar uma líder de mercado na fabricação de móveis escolares.

Em um depósito high-tech no subúrbio da cidade, a empresa monta milhares de carteiras, bancos e armários coloridos, além de outros acessórios feitos de faia da Calábria que são enviados para o mundo inteiro, desde o Reino Unido até os Emirados Árabes, passando pela América Central e pela Polinésia.

Durante muitos anos, o pior obstáculo logístico da empresa foi a estrada muito estreita (que foi ampliada desde então), ladeada por altos carvalhos, que levava até a rodovia principal.

"É claro que boas estradas facilitam o empreendedorismo, mas não é a única coisa necessária para o desenvolvimento econômico", disse Francesco Sirianni, gerente de exportação da empresa. "Se você está na internet, não importa onde você se encontra hoje."

Gianni Cipriano/The New York Times
Emilio Salvatore Leo, herdeiro do histórico lanifício da família, em Soveria Mannelli

A empresa tem usado a internet desde 1996, e possui seu próprio website desde 1999. Às vezes ainda acontece de, durante uma chamada por Skype, seus clientes se mostrarem preocupados com o prazo de transporte, mas os Siriannis já pensaram em tudo.

Para entregas em locais próximos, eles contam com entregadores que dirigem desde o produtivo norte da Itália até seu sul orientado para o consumo e vice-versa. Um grande porto nas proximidades ajuda no caso de destinos mais distantes.

A cultura de trabalho tradicional pode ser vista na mais antiga fábrica de Soveria Mannelli, o Lanifício Leo, chamado de "máquina de lã."

Fundado em 1873, ele foi o primeiro —e agora o último— lanifício operado por máquinas na Calábria. Ele empregava 50 pessoas até os anos 1970, quando políticas nacionais para desenvolver o sul da Itália incentivavam uma produção em maior escala ou estatal em detrimento de pequenos negócios.

O lanifício ficou parado por cerca de duas décadas, até que Emilio Salvatore Leo, 41, começou a convidar designers e artistas internacionais para residências de verão em Soveria Mannelli.

Com a inspiração deles, ele tentou antever um futuro para seu lanifício e ao longo dos anos transformou o lanifício de sua família em uma marca que fabrica roupas e artigos para casa.

As máquinas centenárias de Leo agora tecem lã da Austrália e da Nova Zelândia, caxemira do Nepal e algodão do Egito e da América do Sul. Ele chama seu negócio de "startup de sucata", referindo-se às dezenas de diferentes teares que sua família adquiriu ao longo dos anos.

Gianni Cipriano/The New York Times
Funcionário monta cadeira na fábrica Camillo Sirianni, em Soveria Mannelli

"A questão aqui não é a velocidade com a qual nós produzimos", ele disse, sentado em seu estúdio repleto de livros sobre a arte da tecelagem, design internacional e economia. Ali perto, viam-se elaborados mantos cinza e verde trapezoidais pendurados em um cabide. "A Itália não consegue competir com tecidos de baixo custo."

Ele acrescentou: "Eu perguntei a mim mesmo como poderia usar um tear de 100 anos de idade para produzir tecidos, e a resposta que encontrei ia na mesma linha de uma impressora 3-D, então comecei a estudar projetos para adaptar minha produção à minha tecnologia antiga."

O negócio de Leo é significativamente menor que os de seus amigos em Soveria Mannelli, mas ele já ganhou alguns prêmios internacionais de design, ministra oficinas no mundo inteiro e está prestes a abrir uma loja online em seu site.

No entanto, ele sonha em voltar a tecer diretamente da lã de ovelha e talvez até mesmo de ter suas próprias ovelhas calabresas, como seus ancestrais.

"O verdadeiro desafio é preservar este lugar, manter uma abordagem contemporânea", disse Leo. "O passado não precisa ser contemplado, mas utilizado. É isso que estamos fazendo aqui."

Tradutor: UOL

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