Na cidade cubana criada por Hershey, cidadãos têm orgulho do legado do barão do chocolate

Kirk Semple

Em Camilo Cienfuegos (Cuba)

  • Lisette Poole/The New York Times

    Estação de trem em Camilo Cienfuegos, em Cuba, ainda exibe o nome original da cidade, Hershey

    Estação de trem em Camilo Cienfuegos, em Cuba, ainda exibe o nome original da cidade, Hershey

A refinaria de açúcar está fechada há 14 anos, mas Amarylis Ribot sente falta do som do apito a vapor que sinalizava as mudanças nos turnos de trabalho.

Ela sente falta do cheiro da colheita, "um odor difícil de explicar", ela disse, e do cheiro adocicado pairando no ar. Ela sente falta do som da indústria, com o barulho dos trens que traziam a cana e levavam as sacas de açúcar, mas principalmente à noite, após ela desligar a televisão.

"É uma grande mistura de emoções", disse Ribot, 68 anos. "A indústria não existe mais, assim a nostalgia tomou seu lugar."

Esta pequena cidade na costa norte de Cuba é repleta de lembranças e melancolia, um tipo de monumento vivo às histórias entrelaçadas dos Estados Unidos e Cuba, e dos sucessos e fracassos da revolução social de Fidel Castro.

A cidade data de 1916, quando Milton S. Hershey, o barão do chocolate americano, visitou Cuba pela primeira vez e decidiu comprar plantações de cana-de-açúcar e moinhos na ilha para fornecimento ao seu crescente império do chocolate na Pensilvânia. Em terras ao leste de Havana, ele construiu uma grande refinaria de açúcar e uma cidadezinha vizinha, uma cidade modelo como sua criação em Hershey, Pensilvânia, onde morariam seus funcionários e suas famílias.

Ele batizou o local de Hershey.

A cidade chegou a contar com cerca de 160 casas (a mais elegante feita de pedra, a mais modesta de tábuas de madeira), construídas ao longo de uma grade de ruas e cada uma contando com pequenos quintais e varandas na frente, em um estilo comum ao dos crescentes subúrbios dos Estados Unidos. Ela também contava com uma escola pública, um posto de saúde, lojas, um cinema, um campo de golfe, clubes sociais e um estádio de beisebol, onde uma equipe patrocinada por Hershey mandava seus jogos, disseram os moradores.

A fábrica se transformou em uma das refinarias de açúcar mais produtivas do país, se não de toda a América Latina, e a cidade era a inveja das cidades vizinhas, que careciam do padrão de vida que Hershey conferiu ao assentamento que levava seu nome.

A empresa era a proprietária de todos os imóveis no vilarejo, mas era um patrão benevolente, disseram os moradores. Ela pagava salários relativamente altos, subsidiava a moradia e buscava manter seus funcionários e suas famílias felizes, respondendo rapidamente a questões de reparos nos imóveis e na manutenção dos serviços de utilidade pública.

"Este era um local separado do restante do país", disse Pedro Gonzalez Bernal, 67 anos, um antigo morador do vilarejo e um jornalista de rádio, cujo pai trabalhou como condutor na ferrovia construída por Hershey para conectar a refinaria com Havana e o porto de Matanzas. "Éramos um pequeno mundo à parte."

Mas os costumes importados da empresa também incluíam segregação racial e de classe: os supervisores americanos viviam nas casas maiores, os operários nas menores; os trabalhadores negros recebiam casas na periferia da cidade.

Hershey morreu em 1945 e a empresa vendeu a refinaria e a cidade, juntamente com suas outras propriedades em Cuba, em 1948.

Após a ascensão de Fidel Castro em 1959, a refinaria foi nacionalizada e a cidade foi rebatizada de Camilo Cienfuegos, o nome de um dos comandantes de Castro. A segregação acabou, dizem os atuais moradores com orgulho, e as casas foram redistribuídas enquanto o socialismo de Castro buscava acabar com as hierarquias de classe e raciais.

Mas com a mudança de propriedade, a atenção aos detalhes na cidade começou gradualmente a desaparecer, disseram os moradores. Estes se tornaram responsáveis pelos reparos em suas casas, mas os salários públicos mais baixos deixavam com frequência fora de alcance o custo dos reparos. Uma festa anual posteriormente deixou de ser realizada. O estádio de beisebol foi demolido.

Mesmo assim, a refinaria de açúcar continuou entre as mais produtivas do país, ajudando a fazer de Cuba a maior exportadora mundial de açúcar e do açúcar a espinha dorsal da economia cubana. Mas o negócio de açúcar entrou em declínio após o colapso da União Soviética, sua principal patrocinadora, e no início dos anos 2000 o governo acabou com muitas plantações de cana-de-açúcar, inclusive a daqui.

Os moradores foram informados que a velha refinaria Hershey teria que fechar por não ser mais eficiente. Todos culparam o embargo americano por tornar a importação dos suprimentos e peças sobressalentes necessárias mais difícil, se não impossível.

Mas diferente de fechamentos semelhantes em certas cidades industriais americanas, o fechamento da refinaria aqui não matou a economia local, disseram os moradores. O governo cubano ajudou os trabalhadores a encontrarem novos empregos. Alguns foram enviados de volta à escola para se prepararem para o trabalho em setores diferentes, enquanto outros foram transferidos para setores em crescimento, como o turismo.

"Eles não foram abandonados sem trabalho, é óbvio", disse Mercedes Díaz Hernandez, 69 anos, mulher de Pedro Gonzalez Bernal, como se sugerindo que a noção de desemprego em Cuba era um absurdo.

Os moradores do vilarejo e os funcionários da fábrica responderam à decisão do governo com obediência e lealdade. Não ocorreram protestos públicos ou insurreições, disseram os moradores.

"É fácil entender", disse Pedro Gonzales Bernal em uma entrevista em sua casa, em Camilo Cienfuegos, na semana passada.

Se a fábrica está presa em um padrão de ineficiência econômica, ele prosseguiu, "é necessário fechá-la para o bem-estar do país e para o bem-estar da revolução". Seu televisor estava sintonizado em uma transmissão do cortejo fúnebre de Castro enquanto cruzava o país.

"A refinaria sempre foi fonte de orgulho", disse Pedro Gonzalez Bernal. "Nós continuamos sentindo o orgulho."

Mas muitos na cidade lidam silenciosamente com o sentimento de perda.

A refinaria foi o "centro da vida daqui", disse Ribot, cujo pai foi seu diretor por vários anos desde o final dos anos 60.

Jesús Zenon Aresbello, 80 anos, que viveu toda sua vida na cidade, disse que "todos queriam deixá-la para seus filhos, seus netos".

A decadência da cidade acelerou após o fechamento da refinaria, disseram os moradores. E apesar de o lugar permanecer diferente de qualquer outro em Cuba, caiu em um estado de abandono, não diferente do restante do país.

A condição de muitas casas mostra os proprietários fazendo o melhor que podem com poucos recursos: interiores e quintais limpos e bem cuidados, mas com as estruturas mantidas por meio de uma colcha de retalhos de reparos baratos.

O mato tomou conta das calçadas enquanto pilhas de lixo pontilham as margens das ruas. Slogans revolucionários desbotados nos muros parecem ganhar relevo tendo como pano de fundo as janelas quebradas de um depósito ou o teto desmoronado de uma casa próxima.

Nos últimos meses, grande parte dos prédios da refinaria de açúcar foi demolida e o entulho foi retirado, deixando um vasto terreno quase vazio com pedras e metais retorcidos espalhados, e pontuado por três chaminés que restaram.

"Sou fidelista, totalmente a favor da revolução", declarou Meraldo Nojas Sutil, 78 anos, que se mudou para Hershey quanto tinha 11 anos e trabalhou na fábrica durante os anos 60 e 70. "Mas a cidade está lentamente deteriorando."

Muitos moradores não hesitam em traçar um contraste entre o atual estado da cidade e como era quando o "sr. Hershey", como ele costuma ser chamado aqui, era o chefe.

Os moradores parecem achar graça, se não orgulho, dos laços com os Estados Unidos.

A maioria ainda chama a cidade pelo nome original, pronunciado localmente como "aIR-see". E placas de Hershey ainda estão penduradas na estação de trem da cidade, um lembrança romântica de uma era passada, apesar de, talvez, também um símbolo da esperança de que o passado, ou ao menos certos aspectos dele, possa retornar.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos