Berço da aviação nos EUA, fábrica de aeronaves dos irmãos Wright será restaurada

Christine Negroni

Em Dayton (Ohio)

  • Ty Wright/The New York Times

    Miniatura de avião dos irmãos Wright na antiga fábrica de aeronaves em Ohio

    Miniatura de avião dos irmãos Wright na antiga fábrica de aeronaves em Ohio

Em uma gelada tarde de outono, Antoine Alston, de 4 anos de idade, e sua irmã de 8 anos De'Asia Liggins, esperavam pelo ônibus junto com sua mãe na parte oeste desta cidade. Atrás deles, havia uma fábrica abandonada de importância histórica, mas para as crianças isso era novidade.

Este mês faz 113 anos que um avião criado pelos irmãos Wright fez seu primeiro voo motorizado. Sete anos depois, naquela fábrica na West Third Street, os irmãos construíram os primeiros aviões produzidos em massa em fábricas para venda. Agora, como parte de um plano para restaurar a fábrica, as crianças do oeste de Dayton podem estar aprendendo muito mais sobre os filhos mais famosos da cidade e sua invenção que mudou o mundo.

O objetivo original era simples: salvar os dois prédios de tijolos e telhado triangular da demolição, ao inclui-los na rota da aviação do Serviço Nacional de Parques da região, constituída por cinco paradas. Isso virou um projeto multimilionário de 22 hectares, que por necessidade acabou refletindo a criatividade e determinação dos irmãos Wright.

Os Wrights construíram duas fábricas em 1910-11 para a produção de aeronaves. Somente cerca de 120 aviões foram fabricados ali, uma vez que Wilbur Wright morreu inesperadamente em 1912 e Orville vendeu sua participação no negócio em 1915. Nas sete décadas que se seguiram, foram produzidas peças de automóveis nesses dois prédios e em três outros que se somaram a eles.

Dayton, uma cidade industrial que já foi conhecida como a cidade das mil fábricas, começou a perder empregos na indústria há cerca de uma década, diz Ford Weber, diretor de desenvolvimento econômico da cidade. A retração econômica e a crise de habitação de 2008 prejudicaram imensamente a cidade, com um aumento no número de execuções de hipotecas. O prejuízo daquela época continua aparente hoje, na zona oeste de Dayton. Praticamente todos os quarteirões em torno da fábrica fecharam ou têm casas e prédios desmoronando.

Em 2009, a Aliança do Patrimônio Nacional da Aviação, um grupo sem fins lucrativos baseado em Dayton, dedicado a preservar pontos importantes para a história da aviação na região, convenceu o Congresso a incorporar a fábrica e os 8 hectares do seu entorno ao Parque Histórico do Patrimônio Nacional da Aviação de Dayton, do Serviço Nacional de Parques.

O grupo queria preservar o local depois que o último proprietário dos prédios, uma fabricante de peças automotivas, se mudou e declarou falência. Tony Sculimbrene, diretor executivo da aliança, disse que temia que a fábrica pudesse ser demolida. No entanto, quando foi dada a designação, ela não incluía dinheiro para a restauração, e a aliança teve de encontrar um meio de financiá-la.

"Eu me lembro especificamente de ter pensado comigo mesmo: 'Como vamos fazer isso? Como vamos salvá-la sem o Serviço de Parques?'", disse Sculimbrene. "Foi então que decidimos fazer com que ele passasse de um projeto puramente histórico para um projeto de desenvolvimento econômico."

A Home Avenue Redevelopment, uma incorporadora que trabalha com terrenos industriais abandonados e adquiriu a propriedade no processo de falência, demoliu tudo menos o complexo fabril dos irmãos Wright. Ela removeu materiais perigosos e deixou o terreno pronto para ser escavado com US$ 3,5 milhões da prefeitura e do governo do Estado, e US$ 2 milhões que eram parte do acordo de vendas entre o proprietário—a DPH Holdings, que faz negócios como a fabricante de peças automotivas Delphi—e o comprador.

No começo do ano que vem, a propriedade trocará novamente de mãos quando a aliança irá comprá-la da Home Avenue Redevelopment. Então o Serviço de Parques ocupará os prédios da fábrica, dando a eles o que Dean Alexander, superintendente do Parque Histórico do Patrimônio Nacional da Aviação de Dayton, chama de "3.700 m2 de uma tela em branco."

"É um desafio pegar uma fábrica antiga e transformá-la em algo que seja interessante para o público geral visitar", disse Alexander. "O Serviço de Parques está sempre buscando formas novas de envolver gerações mais novas e um público mais diversificado."

Ainda está sendo discutido o que preencherão as três outras unidades adjacentes à fábrica histórica dos irmãos Wright. Uma das opções seriam salas de aula com foco em ensino de ciências, tecnologia, engenharia e matemática.

"Nosso país se tornou um país focado em ciências, tecnologia, engenharia e matemática, e os irmãos Wright eram tudo isso", disse Amanda Wright Lane, sobrinha-bisneta dos irmãos que vive em Columbus e apoia o plano da aliança. "As crianças podem vir aqui para ver o que isso significava 100 anos atrás."

Outras ideias incluem um espaço de oficina para um grupo sem fins lucrativos que constrói réplicas que voam do Wright B Flyer, treinamentos para a força aérea e projetos comunitários.

O vizinho mais próximo do parque já foi determinado; a Biblioteca Pública de Dayton está construindo uma filial de US$ 7 milhões do outro lado da rua.

"Uma biblioteca pública com um parque nacional; melhor, impossível", disse Timothy R. Gaffney, porta-voz da aliança. "A biblioteca atrairá gente de toda a vizinhança para o local. A fábrica atrairá gente do mundo inteiro."

Mas continua sendo um desafio encontrar negócios para os 13 hectares de terreno industrial próximo do Serviço de Parques.

Gaffney observou que algumas empresas de manufatura leve e produção de materiais avançados para aviação veem o legado dos irmãos Wright como sendo relevante para seus negócios. "Estive em contato com algumas empresas, elas querem associar sua marca ao local de nascimento da indústria da aviação", ele disse.

As projeções mais otimistas preveem até 500 novos empregos com um salário médio anual de US$ 40 mil vindo para a região, disse Shelley Dickstein, administradora municipal de Dayton. 

"A verdadeira questão é se o mercado vai produzir o que gostaríamos de ver", ela acrescentou.

Jean Brown, do bairro próximo de Westwood, disse esperar que a revitalização da fábrica vá beneficiar seus vizinhos residenciais. Ela observou que depois que o Centro de Interpretação Wright-Dunbar, a cerca de 3 km das fábricas, foi concluído e se tornou uma parada na rota da aviação, as moradias naquela região melhoraram.

"Eles construíram tantos prédios novos lá", disse Brown. "Dizem que estão vindo para cá".

Fora de Dayton, o projeto tem defensores proeminentes em David McCullough, autor da biografia "The Wright Brothers" (2016), e em Patty Wagstaff, piloto de shows aéreos. Ambos fizeram vídeos em apoio ao plano de desenvolvimento depois de visitarem a fábrica dilapidada.

O impacto da aviação não se limita ao último século, ou mesmo às pessoas que voam frequentemente, disse Wagstaff.

"Eu voo todo final de semana, e vejo como isso pode mudar vidas", disse Wagstaff, "mas se você não voar, como pode saber o quão especial isso é? É isso que a restauração da fábrica para o público pode conquistar."

Tradutor: UOL

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