Teve o cartão roubado? No "BBB" da vida real, câmeras não te ajudam a pegar o ladrão

Quentin Hardy

Em San Francisco (EUA)

  • Rivaldo Gomes/Folhapress

    Os passos do ladrão ficaram registrados pelas câmeras de segurança das lojas onde ele efetuou compras com o cartão de crédito roubado

    Os passos do ladrão ficaram registrados pelas câmeras de segurança das lojas onde ele efetuou compras com o cartão de crédito roubado

Neste ano, tomei uma cerveja em um dos bares mais "econômicos" do bairro de Mission. Minha carteira ficou lá até um pouco mais tarde que eu.

Só percebi isso às 11h do dia seguinte, quando recebi uma ligação do meu banco. Um homem especializado em detecção de fraudes me perguntou se nas últimas 12 horas eu tinha ido ao McDonald's duas vezes, feito quatro viagens com o Uber, comprado um telefone descartável na MetroPCS e visitado as lojas Walgreens e Target.

O que se seguiu é algo tristemente conhecido por muitos de nós: passei o dia cancelando cartões de crédito, encomendando novas carteirinhas do plano de saúde, trocando minha carteira de motorista e tentando me lembrar do que mais havia em minha carteira, além de dinheiro.

Uma semana depois, depois de conseguir relativamente recuperar os cartões, recebi do meu banco uma lista de todas as cobranças (que o banco cobriu). Elas formaram uma espécie de guia da noite.

Olhando os números, comecei a me perguntar: quantas vezes, durante esse passeio criminoso extremamente banal, meu ladrão foi fotografado, registrado, medido ou simplesmente observado em nosso mundo semiconstante de bancos de dados? E, com um pequeno esforço, quão difícil seria para a polícia identificá-lo?

A resposta para a primeira pergunta é: provavelmente dezenas de vezes. Mas isso não significa necessariamente que todo esse monitoramento seja útil para alguém como eu.

Algumas companhias relutam em falar sobre o quanto elas filmam, ou por quanto tempo mantêm as imagens. Outras simplesmente não sabem direito.

Por exemplo, aproximadamente 90% das cerca de 13 mil lanchonetes do McDonald's nos EUA são de propriedade de operadores independentes, por isso a companhia realmente não sabe dizer se essas lojas têm câmeras. "Supomos que a maioria tenha", disse Terri Hickey, uma porta-voz da empresa. "Recomendamos com insistência sua instalação e utilização."

E um McDonald's em San Francisco? "Quase certamente há câmeras, internas e externas", disse Grace Gatpandan, uma policial da cidade. "Se for um 'drive-through', eles terão uma câmera." Algumas dessas câmeras são para filmar as pessoas que tentam sair sem pagar, ou para apanhar furtos de funcionários.

Uma Walgreens na esquina das ruas Mission e 23, outra escala daquela noite, também é bem equipada com câmeras. "Pelo menos duas na farmácia, na entrada, provavelmente nos corredores de compras", disse Phil Caruso, um porta-voz da Walgreens. "Nós gostamos que essas, e algumas no exterior, fiquem visíveis, e colocamos uma placa na frente informando às pessoas que estão sendo filmadas."

Como muitas outras grandes lojas, a Walgreens muitas vezes tem outras câmeras menores na altura da porta, para captar os rostos, caso a polícia queira 'closes' das pessoas.

A Target não quis falar sobre o que o ladrão comprou com meu cartão de crédito, ou como usa o vídeo, mas talvez seja a que mais observa seus clientes. Só sua área de saída na loja das ruas Fourth com Mission em San Francisco, o local mais provável que meu ladrão visitou, tem pelo menos 18 câmeras, de quatro fabricantes.

O ladrão gastou quase US$ 200 na Target, o suficiente para comprar nove das 13 câmeras de vigilância doméstica que a Target vende ali. Isso teria exigido passar por outros 50 domos de vigilância altamente visíveis.

O advento das câmeras domésticas baratas, e o roubo de pacotes entregues por firmas como a Amazon, levaram a uma explosão de câmeras em San Francisco. Policiais que investigam crimes sérios foram treinados para procurar câmeras próximas, e cada um dos dez distritos policiais da cidade tem um oficial especialista em vigilância.

Quando você adquire consciência de sua ubiquidade, procurar câmeras pode ser estranhamente divertido. Eu contei 15 no quarteirão próximo à Target. Pode ser um pouco demais --cinco delas estavam voltadas para a entrada de uma loja de maconha medicinal. É claro que todo mundo com um smartphone também pode gravar vídeos.

O Departamento de Polícia de San Francisco gosta desse dilúvio de vídeos, segundo um porta-voz do departamento, Carlos Manfredi, porque coisas como fraudes de cartão de crédito estão muitas vezes ligadas a outros crimes. "Distribuímos fotos de pessoas a todas as delegacias da cidade, para ver se outros policiais conhecem a pessoa de outros crimes", disse ele.

Eles também entram em canais privados no YouTube e no Vimeo, disse ele.

No ano passado, um assassinato que envolvia uma mala com um corpo esquartejado foi solucionado quando a polícia encontrou vídeos de vigilância que mostravam um homem arrastando a mala pela rua.

Meu caso estava na outra ponta do espectro do crime, mas até mesmo o estilo de crime dá pistas sobre o ladrão. Esse homem ou mulher começou devagar, com as compras no McDonald's e na Walgreens, e aparentemente fez a grande compra na Target quando sentiu confiança de que o cartão passava normalmente. O ladrão também usou só um cartão.

"Ele estava tentando se manter na tela do radar", disse Joe Sullivan, chefe de segurança da Uber. Normalmente, um ladrão com um cartão roubado contrata limusines de luxo, para "aparecer", disse ele. "O seu cara pegou UberPool", o serviço de viagens mais barato da empresa.

É estranho sentir um pouco de vergonha disso? O que, meu cartão não é bom o suficiente para o serviço de luxo?

Sullivan, um ex-promotor federal em Las Vegas que também trabalhou na eBay e no Facebook, disse que os criminosos chamam essas pequenas compras de "saques iniciais". "Você vai devagar no início, para garantir que os cartões funcionam", explicou ele. "Então começa a gastar mais." Meu banco parece ter entrado em ação logo depois da primeira compra grande.

Isso não quer dizer que meu ladrão fosse um mestre do crime. Eu não tenho conta no Uber, e ele (segundo Sullivan, mas as regras de privacidade da Uber a impediram de me dizer qualquer coisa a mais) colocou o cartão em uma conta existente.

A Uber também tem dados GPS de todas as viagens, os horários e o nome dos motoristas. Estes podem ter câmeras próprias nos carros, mas a Uber não sabe quantos as usam.

"Se a polícia se interessar pelo seu caso, temos muito que podemos partilhar com eles", disse Sullivan.

Um grande "se". Depois de duas visitas e três telefonemas à delegacia do bairro de Mission, e três telefonemas e dois e-mails ao serviço de assuntos públicos do Departamento de Polícia de San Francisco (caminho não acessível à maioria dos civis), a polícia designou alguém para o meu caso. Isso foi bem mais de um mês após o furto. A Walgreens lhes entregou alguns vídeos, que circularam, mas a Target já tinha jogado fora suas gravações.

A Uber, que em suas quatro corridas obteve informações do trajeto e o endereço da pessoa, não foi contatada.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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