Casos de abusos em abrigos mostram falta de preparo para lidar com jovens refugiados

Martin Selsoe Sorensen

Em Langeland (Dinamarca)

  • Ilvy Njiokiktjien/The New York Times

    O centro de refugiados Praestekaergard foi fechado após ao menos 12 crianças refugiadas terem sido abusadas sexualmente por outras crianças, na ilha de Langeland, na Dinamarca

    O centro de refugiados Praestekaergard foi fechado após ao menos 12 crianças refugiadas terem sido abusadas sexualmente por outras crianças, na ilha de Langeland, na Dinamarca

Os primeiros que buscaram asilo, cinco tímidos meninos africanos, chegaram em julho de 2014, poucos dias depois que as autoridades desta pequena ilha da Dinamarca receberam autorização para abrir um abrigo para crianças.

Os organizadores locais criaram rapidamente até 20 abrigos que hospedaram mais de 3.200 refugiados, um ato que misturou generosidade humanitária com um empurrão econômico para a pobre comunidade, pois os abrigos atraíram milhões em subsídios do governo.

Mas foi demais e muito rápido. Dois anos depois, a rede de abrigos de Langeland está cheia de problemas e abusos, incluindo incêndios criminosos, brigas, estupro e agressão sexual.

Os escândalos puseram em questão a adequação e as motivações para uma expansão tão rápida. Mas também indicaram perigos em toda a Europa, onde muitos países também foram mal preparados para o surto de migrantes e o grande número de menores desacompanhados entre eles.

"Em toda a Europa, os sistemas de proteção às crianças estão falhando", disse Sarah Crowe, uma porta-voz da Unicef em Genebra (Suíça), quando contatada por telefone. "Há uma suposição de que tudo está sob controle quando elas chegam à Europa, mas na verdade é apenas o começo de uma nova fase de sua jornada", afirmou.

Em novembro, a Unicef relatou que 22.775 menores desacompanhados tinham chegado à Europa, vindos da África, desde janeiro. É quase o dobro do número de 2015. A organização encontrou sérios problemas nos cuidados às crianças que buscam asilo em toda a Europa.

"Em partes da Alemanha, alguns dos centros para famílias não são adequados a crianças", disse Crowe. "Elas são vítimas de violência e abusos, e o pessoal não tem treinamento adequado. Estamos trabalhando para harmonizar os padrões."

A Human Rights Watch, uma organização de defesa dos direitos humanos, manifestou preocupações semelhantes em junho sobre os operadores de centros de asilo na Suécia. As autoridades francesas e britânicas também receberam críticas pelo tratamento dado a crianças desacompanhadas no vasto campo de migrantes conhecido como Selva, na cidade portuária francesa de Calais.

A agência de inteligência criminal da União Europeia, Europol, disse em janeiro que pelo menos 10 mil menores desacompanhados estavam desaparecidos depois de chegar à Europa.

Ilvy Njiokiktjien/The New York Times
Crianças refugiadas celebram o Natal no centro em Nyborg, operado pela municipalidade de Langeland, na Dinamarca

Supostamente eles caíram pelas brechas dos sistemas de asilo de diversos países, ou se reuniram a parentes ou amigos, mas o que exatamente aconteceu com muitos deles é um mistério.

A lição de Langeland, hoje alguns admitem, é que cuidar de migrantes vulneráveis e refugiados que fogem de conflitos em lugares como Síria, Afeganistão e Eritreia exige técnicas especiais que muitos funcionários de asilos não possuem.

Em Langeland, dois empregados de um centro na aldeia de Tulleboelle foram acusados de ter relações sexuais com menores --equivalente a estupro nos EUA-- e de praticar outros atos sexuais com sete jovens refugiados, de 16 a 18 anos.

Em outro centro, Praestekaergaard, também operado pela municipalidade de Langeland, até 12 crianças refugiadas podem ter sido vítimas de abuso sexual por outras crianças refugiadas. Os abusos ocorreram no ano passado, mas só foram divulgados em novembro.

Ulrik Pihl, que dirigia o programa de asilo, foi demitido de suas funções depois de críticas de que ele não informou às autoridades de imigração dinamarquesas sobre os episódios, mesmo depois que foram relatados à polícia.

Em novembro, o governo anunciou que Langeland e outro município seriam proibidos de hospedar menores desacompanhados no futuro.

"Eu quero claramente me dissociar do abuso", disse Pihl em uma entrevista. Ele lamentou não ter informado rapidamente às autoridades, mas insistiu que os problemas eram inevitáveis.

"Não acho que poderíamos tê-los impedido", disse. "Não havia nada na ficha criminal desses funcionários."

Mas Pihl reconheceu que, diante do grande número de recém-chegados e muitos novos centros em um período caótico de grande crescimento, ele não teve tempo para educar os membros da equipe.

Ilvy Njiokiktjien/The New York Times
Um refugiado de Aleppo, na Síria, compra roupas em uma loja de segunda mão na ilha de Langeland, na Dinamarca. A chega dos refugiados mudou a vida no município, que tem uma população de 12,5 mil habitantes

Um memorando do município sobre os episódios no centro de Praestekaergaard reconheceu que a instalação tinha "muitos poucos funcionários", mas acrescentou que haviam chegado mais verbas do serviço de imigração para abordar esse problema.

Documentos do governo obtidos pela Radio24syv da Dinamarca revelaram que o serviço de imigração recebeu diversas advertências do Conselho Dinamarquês de Refugiados, um grupo não governamental, sobre maus tratos a crianças cometidos por funcionários em dezembro de 2014.

As advertências citavam tendências suicidas entre algumas crianças e dizia que funcionários tinham acordado crianças borrifando água fria sobre elas ou retirando o colchão debaixo delas. Mas as advertências foram seguidas de apenas um telefonema ao município de Langeland, segundo os documentos. Na semana passada, o governo disse que vai reforçar a supervisão dos centros de asilo.

Em uma tarde recente, a única luz acesa nos escritórios da Prefeitura de Langeland era a de Kurt Habekost, o recém-nomeado diretor temporário de asilo.

"Admito que demoramos para reagir", disse ele, referindo-se ao treinamento de funcionários nos abrigos. "Mas quando você estabelece um centro em 48 horas leva algum tempo para educar o pessoal."

"Talvez devêssemos ter dado mais atenção às instalações das crianças", admitiu ele. "Mas recrutar é difícil porque a maioria das pessoas sabe que é um emprego temporário."

Com os problemas, e menos refugiados pedindo asilo na Europa hoje, oito dos centros de Langeland foram fechados, sete o serão nos próximos meses e 82 funcionários foram demitidos.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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