Qualquer um pode ser general no Afeganistão; os EUA 'racham' essa conta

Mujib Mashal

  • Ahmad Masood/Reuters

    Soldados afegãos ficam de guarda no local de um ataque suicida em Cabul

    Soldados afegãos ficam de guarda no local de um ataque suicida em Cabul

O Afeganistão pode ter dificuldades para recrutar soldados suficientes para suas forças armadas, mas está inundado por generais.

O país tem cerca de mil oficiais com a patente de general em seus livros --mais que os EUA, cuja força militar é o triplo da afegã. E fora dos livros? Ninguém sabe.

Novos nomes são acrescentados à lista a um ritmo desproporcional com as realidades bélicas, onde as forças armadas afegãs --o Exército, a Polícia Nacional e as forças de inteligência, que somam 350 mil ao todo-- vêm constantemente perdendo soldados e território para o Taleban. Enquanto isso, as aposentadorias são raras.

O governo americano, que paga grande parte da conta dos militares afegãos, não consegue precisar o número de generais. "Ainda não sabemos para quantos policiais e quantos soldados pagamos salário", disse John F. Sopko, o inspetor-geral dos EUA para a reconstrução do Afeganistão. "Nem sabemos quantos generais existem. É muito patético, e estamos assim há 15 anos."

É um bom emprego, se você conseguir, com salário bastante bom, benefícios colaterais e uma pensão. E como alguém se torna general no Afeganistão?

Alguns deles subiram a escada de comando durante décadas, trabalhando duro e sobrevivendo aos expurgos de sucessivos governos. Mas outros tomaram caminhos muito mais fáceis.

Imagine que você é o jovem filho de um antigo líder guerreiro que acaba de morrer. Juntamente com as condolências, o governo o transformará em general, como se a patente fosse hereditária. Encomendas também são distribuídas como agradecimento político aos parentes homens de figuras importantes. E na era dourada da fabricação de generais --a guerra civil dos anos 1990-- eles eram às vezes distribuídos em vez de pagamento.

Na anarquia que se seguiu à retirada soviética e à queda do regime comunista, centenas de generais nasceram da noite para o dia. Sibghatullah Mujadidi, o presidente interino do governo mujahidin, que foi apoiado pela CIA, tinha pouco a oferecer aos combatentes arrasados que lotavam sua sala de espera, por isso um assessor anotava o nome dos que queriam ser generais.

Segundo Abdul Hafiz Mansour, que dirigia a televisão estatal na época e hoje é membro do Parlamento, um confidente do presidente --muitas vezes seu filho-- aparecia nos estúdios toda noite para entregar ao apresentador do telejornal uma lista dos generais a declarar. Certa noite, disse ele, havia 38 nomes.

"A lista era manuscrita em uma folha de papel simples --não havia logotipo, nem timbre oficial", disse Mansour.

A lista às vezes crescia misteriosamente no caminho do gabinete presidencial ao estúdio. Mansour disse que sabia de generais que conseguiram sua patente naquele tempo por meio de uma fotocópia clandestina e uma canetada.

Em reação aos anúncios na TV, facções rivais de todo o país declaravam sumariamente seus próprios generais. O ex-chefe guerreiro Abdul Rashid Dostum, que hoje é o vice-presidente do Afeganistão, concedeu estrelas a muitos dos homens mais próximos dele e até imprimiu sua própria moeda para remunerá-los. A piada era que entre os guarda-costas de Dostum não havia coronéis.
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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