Com atiradores e reféns, Estado Islâmico se entrincheira em Mossul

Tyler Hicks

  • Tyler Hicks/The New York Times

    Fumaça cobre região de Qayyara após o Estado Islâmico incendiar postos de petróleo

    Fumaça cobre região de Qayyara após o Estado Islâmico incendiar postos de petróleo

Na batalha contra o Estado Islâmico por Mossul, a segunda maior cidade do Iraque, não existe uma linha de frente contínua, mas sim uma colcha de retalhos composta por campos de batalha dentro da cidade e em todo seu entorno.

Quando o Estado Islâmico recua de uma posição, ele procura deixar o máximo possível de estragos para trás, incluindo poços de petróleo em chamas que os escondam diante de um avanço do governo. Também há atiradores de elite a postos, prontos para atacar.

Um vilarejo ou um bairro que seja retomado por tropas do governo podem ser inundados novamente por combatentes extremistas, que não costumam estar longe.

Recentemente, passei três semanas nessa zona volátil. Primeiro junto com o Exército iraquiano no leste de Mossul, e depois, com reveses sofridos pelo Exército, cuja batalha de desgaste quarteirão por quarteirão não estava indo do jeito esperado, junto com unidades da polícia federal iraquiana.

A polícia, que anda de veículos blindados, está tendo um papel importante na batalha por Mossul, às vezes apoiando o Exército. Ela também está sendo responsável por proteger seu próprio território em torno da cidade.

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Comboio da polícia iraquiana em apoio ao Exército em Mossul

À polícia foi atribuída a tarefa de manter áreas na linha de frente; nas proximidades, combatentes do Estado Islâmico estão a postos e preparados.

Quando não estão protegendo um território e nem avançando, os dois lados trocam de forma intermitente tiros de rifle e de morteiros, demonstrações de força leves que tendem mais a perturbar do que a infligir baixas graves.

Durante os dois dias em que estive junto com a polícia, esta recebeu a ordem de fazer uma pausa em seu avanço. Então a maior parte dos policiais teve de esperar junto a um front lamacento até o próximo avanço.

Para os civis que não conseguem deixar o local devido aos combates, a vida é sombria, e a maioria deles está desesperada para ir embora. As áreas em torno do front sob disputa não têm água ou energia, e não há como as pessoas conseguirem suprimentos básicos.

Aqueles que não conseguem sair por causa dos combates e aqueles que voltam na esperança de recomeçar suas vidas —ou pelo menos recuperar alguns pertences —correm o risco de serem pegos em fogo cruzado, e tem aumentado o número de feridos e mortos entre os civis.

Quando forças do governo liberam uma área, a maior parte dos civis age rápido para tentar evacuar. Contudo, o Estado Islâmico parece ávido por manter o maior número possível de civis no centro urbano, usando-os como escudos contra campanhas de bombardeio agressivas por parte do governo e das forças de coalizão. Qualquer um que seja visto fugindo corre o risco de ser atingido por um atirador de elite.

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Familiares se emocionam em reencontro após dois anos separados por causa da ocupação do Estado Islâmico em Mossul

Uma vez que os civis alcançam uma zona segura, existe um sistema mais organizado operante para transportá-los em ônibus e na caçamba de caminhões até acampamentos para deslocados. No caminho, eles recebem doações de água e alimentos.

As forças iraquianas receberam ordens de destruir rastros do Estado Islâmico depois de retomar uma área, mas às vezes pode ser difícil apagar sinais de seu controle. Os bombardeios da Coalizão F-16 destruíram uma base de treinamento do Estado Islâmico em uma antiga faculdade de agronomia na cidade de Hamam Alil. Mas ainda se veem escritas jihadistas nas paredes, apontando o nome de uma unidade.

Alguns residentes, como mulheres na cidade de Bashiqa, estão começando a voltar para áreas recém-libertadas do Estado Islâmico para saber que fim levaram suas casas e coletar seus poucos pertences que não tenham sido saqueados ou destruídos. A batalha por Mossul expulsou dezenas de milhares de pessoas de suas casas, e é comum ver deslocados ao longo das estradas que atravessam a cidade.

Bem no começo da minha cobertura, acompanhei o Exército iraquiano até um bairro ao leste de Mossul, onde civis se atreviam a sair de suas casas durante as patrulhas das tropas governamentais.

Mas, poucas horas depois, combatentes do Estado Islâmico atacaram uma base militar iraquiana nas proximidades, matando soldados, destruindo seus veículos blindados e quase que imediatamente postando um vídeo no YouTube mostrando seu feito de forma triunfante. Depois disso, o acesso para fotógrafos foi rigorosamente restringido, e os jornalistas logo perderam seu lugar privilegiado para essa batalha tão crítica, passando a encontrar dificuldades para obter qualquer informação que seja.

As ambulâncias que carregam feridos vítimas de tiros de snipers, artilharia, morteiros e minas são levados de Mossul para hospitais na vizinha Irbil. Quando os combates são pesados, dezenas de feridos chegam aos hospitais a cada hora. Hospitais de campanha dentro de Mossul possuem poucos suprimentos, então as vítimas precisam ser evacuadas até onde elas possam ser atendidas. Algumas delas não sobrevivem à viagem.

Os veículos de emergência me ofereceram uma das indicações mais confiáveis de como a batalha estava prosseguindo, e uma oportunidade de documentar os resultados.

O governo tem tentado consolidar suas conquistas, primeiro nos vilarejos provinciais externos, e agora nos subúrbios e distritos da cidade cada vez mais próximos do centro.

Mas o Estado Islâmico teve muito tempo para se preparar para essa batalha, e seus combatentes estão capacitados e firmes em suas posições, aproveitando-se totalmente de sua rede subterrânea de túneis em toda a região. As forças iraquianas que estão tentando libertar Mossul têm uma luta longa e difícil pela frente.

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Tradutor: UOL

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