Com duras lembranças, imigrantes ilegais temem volta de batidas no governo Trump

Amy Chozick

Em New Haven (Connecticut)

  • Christopher Capozziello/The New York Times

    Teresa Vara Gonzalez, que ficou detida em 2007 pela imigração americana e foi liberada 12 dias depois, teme novas batidas com a chegada de Trump à Casa Branca

    Teresa Vara Gonzalez, que ficou detida em 2007 pela imigração americana e foi liberada 12 dias depois, teme novas batidas com a chegada de Trump à Casa Branca

Anthony Barroso tinha 13 anos e estava se preparando para ir à escola quando vieram buscar seu pai. Assim que Anthony abriu a porta, ele soube que a meia dúzia de homens do lado de fora não eram policiais locais. Eles carregavam armas pesadas, e nos seus coletes à prova de balas se lia "ICE", sigla para Immigration and Customs Enforcement (polícia da imigração).

Eles prenderam e deportaram o pai de Anthony, um equatoriano que vinha trabalhando ilegalmente como empreiteiro em New Haven por mais de uma década. Um agente alertou Anthony, enquanto sua irmã mais nova chorava, que em breve eles voltariam para buscar sua mãe.

"Tudo desmoronou depois disso", disse Anthony, cuja mãe solteira afundou ainda mais na pobreza depois que o provedor da casa foi deportado. Hoje ele é estudante em uma faculdade comunitária e recebeu a permissão de permanecer nos Estados Unidos através de uma ordem de suspensão assinada pelo presidente Barack Obama.

A incursão de 2007 foi uma das centenas de varreduras federais coordenadas tendo como alvo imigrantes que estavam trabalhando ilegalmente, realizadas durante o segundo mandato do presidente George W. Bush. As midiatizadas batidas contra trabalhadores ilegais diminuíram de ritmo durante o governo Obama, que deportou um número recorde de 2,5 milhões de imigrantes desde 2009, em grande parte focando em travessias recentes de fronteiras, empregadores que contratavam trabalhadores ilegais e imigrantes condenados criminalmente.

Mas neste momento em que o presidente eleito Donald Trump se prepara para assumir o cargo e promete deportar sem demora de 2 a 3 milhões de imigrantes indocumentados que tenham cometido crimes, especialistas bipartidários dizem esperar uma volta das incursões que pegaram milhares de trabalhadores em lava-rápidos, fábricas de processamento de carne, fornecedores de frutas e suas casas durante os anos Bush.

"Se Trump realmente quiser aumentar drasticamente o número de prisões, detenções e deportações, acho que ele precisa fazer batidas em locais de trabalho", disse Michael J. Wishnie, professor na Faculdade de Direito de Yale que representa detidos em casos de direitos civis.

Desde as eleições, Trump sugeriu que pretende focar em deportar criminosos. "O que vamos fazer é pegar pessoas que sejam criminosas e tenham ficha na polícia, membros de gangues, traficantes de drogas", ele disse à CBS News em novembro. "Vamos tirá-los de nosso país."

Mas conselheiros de Trump disseram que para atingir prontamente seu número almejado de deportações, a definição de quem é criminoso precisaria ser ampliada. Em julho de 2015, o Migration Policy Institute, um think tank bipartidário, estimou que dos cerca de 11 milhões de imigrantes que vivem nos Estados Unidos ilegalmente, 820 mil tinham passagem pela polícia—uma definição à qual Obama aderiu em grande parte durante seu segundo mandato, deportando cerca de 530 mil imigrantes condenados por crimes desde 2013. 

Trump precisaria expandir a definição para incluir imigrantes que vivem nos Estados Unidos ilegalmente e foram acusados mas não condenados por crimes, aqueles que tiveram seus vistos vencidos, aqueles que cometeram contravenções menores como infrações de trânsito, e aqueles suspeitos de pertencerem a gangues ou de serem traficantes de drogas.

Ter como alvo trabalhadores por crimes relacionados à imigração, tais como o uso de um número de seguridade social ou de carteira de motorista falsificados ou roubados, produziu um aumento significativo nas deportações durante o governo de Bush. Mas a prática foi muito criticada por separar famílias, esvaziar empresas que dependiam de mão de obra imigrante e mirar em pessoas que iam trabalhar todos os dias, e não em criminosos perigosos.

Durante o segundo mandato de Bush, as deportações subiram de 246 mil para 360 mil, enquanto o número de imigrantes condenados por crimes que foram deportados permanecia praticamente estagnado, de acordo com estatísticas do governo. E um relatório de 2007 feito pelo Conselho Nacional de La Raza e pelo Urban Institute que analisou incursões em locais de trabalho em Massachusetts, Colorado e Nebraska disse que uma maioria de filhos afetados pela prisão e pela deportação de seus pais eram cidadãos americanos e bebês, crianças de 1 a 2 anos ou em idade pré-escolar. 

Em 2009, a Suprema Corte decidiu por unanimidade que leis federais de roubo de identidade não poderiam ser usadas contra trabalhadores ilegais que usassem números de seguridade social falsos para conseguir emprego, a menos que esses trabalhadores soubessem que estavam usando números que pertenciam a pessoas reais.

"Esses são os mais fáceis de pegar: imigrantes indocumentados com famílias, que não representam perigo", disse John Sandweg, ex-diretor temporário do ICE durante o mandato de Obama. "Essas pessoas não se escondem. Os criminosos se escondem."

Michael Chertoff, secretário da Segurança Interna durante o governo Bush, defendia incursões em locais de trabalho. Ele diz que essas varreduras provaram ser um jeito contundente de proteger trabalhadores ao reduzir o "ecossistema do contrabando", que encoraja os imigrantes a entrarem no país e os empregadores a contratá-los de forma ilegal, trabalhando sem regras e muitas vezes sob condições desumanas.

"Achamos que era eficiente se feito de forma direcionada", disse Chertoff em uma entrevista. "Não paramos de forma aleatória em um local de trabalho e o revistamos."

Incerteza atinge fronteira México-EUA após eleição de Trump

Trump não disse especificamente como ele planeja deportar milhões de imigrantes indocumentados, ou se ele pretende usar batidas em locais de trabalho. Em uma entrevista para a Fox News durante a campanha, Trump disse que ele iria usar elementos das abordagens de Bush e Obama, mas "com muito mais energia".

Jason Miller, porta-voz do futuro presidente, disse: "Estamos herdando a pior crise de imigração ilegal na história moderna americana, e vamos precisar desenvolver uma abordagem multifacetada para proteger a economia e a segurança nacional dos Estados Unidos."

Sarah Rodriguez, porta-voz da ICE, disse que não poderia especular sobre o que a futura administração faria. 

Batidas em locais de trabalho se tornaram uma marca do segundo mandato de Bush e aumentaram bruscamente depois que seus esforços para uma reforma do sistema de imigração falharam.

Em uma operação coordenada em 2006, oficiais da imigração federal  fizeram uma batida em seis fábricas de processamento de carne da Swift & Co. em vários Estados do meio-oeste, levando à prisão de cerca de 1.300 trabalhadores imigrantes. Dois anos depois, agentes da ICE invadiram uma fábrica de processamento de carne kosher em Postville, no Iowa, prendendo 400 trabalhadores, ou cerca de 20% da população rural da cidade.

Histórias de agentes da ICE invadindo uma fábrica ou a cozinha de um restaurante, ou seguindo trabalhadores até suas casas para prendê-los lá levaram a um medo tão grande da "La Migra", gíria em espanhol para a polícia da imigração americana, que inspiraram um gênero de baladas mexicanas, conhecidas como "migra corridos."

Ativistas dizem que as cenas fortes de agentes da ICE levando trabalhadores indocumentados em massa poderiam ser um apelo para Trump, um ex-astro de reality show que entende de mídia. Em novembro, Trump ganhou ampla cobertura da TV a cabo, além de controvérsia, por pressionar publicamente uma fábrica de ar condicionado da Carrier em Indianápolis a impedir que cerca de mil empregos fossem transferidos para o México.

"Se você quer aplicar a lei criando imagens, isso dá conta do recado", disse Muzaffar Chishti, advogado e diretor do escritório do Migration Policy Institute na Universidade de Nova York.

Mas ele disse ainda que as batidas também poderiam "contrariar a imagem de Trump como um presidente da máquina econômica", porque a prática prejudica empresários.

Chertoff disse que o ideal seria o Congresso conceder a "pessoas trabalhadoras" um caminho legal para preencher temporariamente empregos em indústrias como as de processamento de carne e na agricultura, onde há escassez de mão de obra. "Até que isso aconteça, lei é lei, e se você não aplica a lei, você acaba incentivando as pessoas a infringi-la", ele acrescentou.

Em 2011, as incursões em locais de trabalho haviam caído 70% desde o último ano do governo Bush, e legisladores republicanos imploraram a Obama que voltasse à era das apreensões em massa em locais de trabalho.

Em vez disso, Obama iniciou um aumento drástico em "incursões de documentos", ou investigações sobre empregadores suspeitos de contratarem trabalhadores ilegais. Desde janeiro de 2009, a ICE fez auditoria em mais de 8.900 empregadores e aplicou mais de US$ 100,3 milhões em multas, de acordo com dados do governo. Obama também observou um aumento no número de apreensões em travessias de fronteira, que contribuiu para o número recorde de deportações em sua administração.

"Com Obama, pensamos que ele iria fazer milagres, mas ele nos ferrou", disse Frank Sharry, fundador e diretor-executivo do America's Voice, um grupo pró-imigração.

Batidas em locais de trabalho se tornaram objeto de ações legais alegando que agentes de imigração haviam violado proteções constitucionais contra discriminação racial e revistas injustificadas.

Teresa Vara González, 46, originalmente de Morelos, México, já morava nos Estados Unidos há 26 anos quando agentes da ICE a prenderam em 2007, como parte do esforço nacional conhecido como Operação Return to Sender ("devolva ao remetente").

Vara González e outros imigrantes presos na região de New Haven entraram com uma ação. O ICE ofereceu um acordo, sem admitir o erro, e os imigrantes receberam pagamentos em dinheiro e permissão para permanecer no país temporariamente.

Agora Vara González está preocupada com a possibilidade de voltar a ser visada no governo Trump. "Ele diz que mesmo tendo documentos, ele não gosta de nós", ela disse durante o intervalo em seu trabalho em um caminhão de tacos, pintado com ofertas como tacos al pastor e língua.

Em maio, o xerife Joe Arpaio, do Condado de Maricopa no Arizona, um partidário antigo e conselheiro de Trump durante sua campanha, venceu uma disputa legal quando um tribunal federal de apelação suspendeu uma ordem judicial que bloqueava o uso de batidas em locais de trabalho por parte de Arpaio para aplicar leis do Estado que tornam ilegal o uso de identidades roubadas para se conseguir um trabalho. No entanto, sua abordagem linha-dura para a questão contribuiu para a sua não reeleição em novembro.

Em uma entrevista, Arpaio se negou a dizer se ele havia aconselhado o presidente eleito a respeito de suas políticas sobre fronteiras e imigração, mas ele disse: "Existe uma maneira de conter o problema, mas você precisa ter a vontade do presidente". E acrescentou: "Estou otimista."

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos