Invasão hacker nos EUA une uma dupla improvável: Trump e Assange

Scott Shane

  • Dominic Lipinski/PA Wire/ Xinhua

    Assange, do WikiLeaks, diz que não foi o governo russo que hackeou os democratas

    Assange, do WikiLeaks, diz que não foi o governo russo que hackeou os democratas

Apenas um ano atrás, eles poderiam parecer a dupla mais bizarra. Mas hoje o presidente-eleito Donald Trump e Julian Assange, o fundador do WikiLeaks, formaram uma frente única contra a conclusão das agências de inteligência dos EUA de que a inteligência russa usou e-mails pirateados para interferir na eleição presidencial americana.

Assange, há muito tempo criticado por vários republicanos como um vilão anarquista decidido a prejudicar os EUA, agora conquistou o respeito de conservadores que apreciaram a divulgação por seu site de e-mails democratas amplamente considerados responsáveis por prejudicar a campanha de Hillary Clinton. E Trump foi rápido para negar a conclusão do FBI, da CIA e outros órgãos de que esses e-mails foram fornecidos ao WikiLeaks por hackers a serviço do governo russo.

Em uma longa entrevista a Sean Hannity, da Fox News, que foi ao ar na terça-feira (3) à noite, Assange repetiu suas negações de que o WikiLeaks recebeu os e-mails pirateados da inteligência russa. "Nossa fonte não é o governo russo", afirmou Assange. "E não é alguém do Estado."

Trump reforçou a afirmação de Assange no Twitter na manhã de quarta-feira (4), referindo-se aos principais alvos da invasão cibernética, o Comitê Nacional Democrata e o presidente da campanha de Hillary, John Podesta: "Julian Assange disse que 'um menino de 14 anos poderia ter pirateado Podesta' --por que o comitê democrata foi tão descuidado? Também disse que os russos não lhe deram a informação!"

Mas Assange disse no passado que, em princípio, o WikiLeaks não se preocupa em investigar o fornecedor de documentos vazados e às vezes não sabe a identidade de uma fonte. Nesse caso, é altamente improvável que alguém que procurasse o WikiLeaks com os e-mails obtidos por hackers do governo russo admitisse a fonte, por isso parece que Assange não pode ter certeza da origem definitiva dos e-mails.

Assange também não mencionou dois sites misteriosos da internet que, como o WikiLeaks, distribuíram os e-mails pirateados. As autoridades americanas acreditam que esses sites, DCLeaks.com e um blog chamado "Guccifer 2.0", foram criados por agentes russos.

Depois de seu primeiro post no Twitter, Trump também pareceu se ligar a Assange no desprezo pela mídia. Ele comentou que Assange tinha chamado a cobertura na mídia americana de "muito desonesta", e acrescentou: "Mais desonesta do que as pessoas pensam".

Embora o empresário-celebridade e o campeão dos vazadores sejam ambos homens de espetáculo às vezes criticados como narcisistas, eles poderiam parecer ter pouco mais em comum. Neste caso, porém, seus interesses podem coincidir.

Assange gostaria de revidar a impressão de que o WikiLeaks se transformou em uma ferramenta passiva para as maquinações geopolíticas do presidente Vladimir Putin, da Rússia. Trump gostaria de apagar a impressão de que ele teve ajuda russa para derrotar Hillary.

Mas a constante rejeição pública de Trump da conclusão dos órgãos de inteligência sobre a invasão de computadores relacionada à eleição aumentou as apostas sobre uma reunião a respeito que ele terá na sexta-feira (6) em Nova York com o diretor do FBI, James Comey, e o diretor da inteligência nacional, James Clapper Jr.

Os democratas agarraram a oportunidade de salientar a negação pública pelo presidente-eleito das agências de inteligência que ele comandará em breve.

"A cada tuíte carregado de conspiração e cada comentário errático e improvisado, o presidente-eleito causa danos à nossa segurança nacional, enquanto levanta novas preocupações sobre sua capacidade de ficar no cargo", disse em um comunicado o deputado pela Califórnia Adam Schiff, o principal democrata na Comissão de Inteligência da Câmara. "Quando ele diminui a reputação dos corajosos e empenhados profissionais na comunidade de inteligência, prejudica nossa segurança nacional e as perspectivas de sucesso de seu próprio governo."

O vice-presidente-eleito Mike Pence, que participará da reunião na sexta-feira, afirmou que diante de falhas de inteligência já ocorridas a abordagem de Trump se justifica. "Eu acho que o presidente-eleito manifestou seu sincero e muito saudável ceticismo americano sobre conclusões da inteligência", disse Pence em uma entrevista coletiva com líderes da Casa Branca no capitólio.

Apesar da resistência de Trump e de Assange, há muitos motivos para se aceitar a ideia de que a inteligência russa esteve por trás das invasões e vazamentos que afetaram a eleição, mesmo que o caso público não seja totalmente sólido, dizem especialistas.

Investigadores de todos os órgãos de inteligência acreditam que a agência de inteligência militar da Rússia, GRU, esteja por trás do grupo culpado pela invasão dos e-mails, conhecido como Fancy Bear ou Advanced Persistent Threat 28. Suas opiniões se baseiam supostamente não apenas na análise de programas invasores ou outras características das invasões, mas em trabalho de espionagem, incluindo grampo de comunicações, agentes humanos e implantes de software nos sistemas de computadores russos. A maioria, mas não todos, os pesquisadores na indústria privada concorda com essa conclusão.

O grupo russo APT 28 é acusado não apenas de tirar e-mails do CND, do Comitê de Campanha Democrata no Congresso e de Podesta, mas também de divulgá-los. Foi esse segundo passo, que transformou uma operação de espionagem tradicional em uma tentativa de influenciar a eleição, que levou o presidente Barack Obama a expulsar 35 supostos agentes da inteligência russa e a fechar instalações diplomáticas russas em Nova York e em Maryland.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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