Tortura a deficiente transmitida ao vivo escancara conflito racial nos EUA

Mitch Smith

Em Chicago (EUA)

  • Reprodução

Um adolescente branco se encolhe em um canto, com suas mãos atadas com cordas cor de laranja e com sua boca coberta com fita adesiva. Quatro garotos afro-americanos chutam e espancam ele, então cortam seu escalpo. Enquanto uma câmera de celular registra em imagens borradas e transmite a agressão pelo Facebook, os agressores fazem insultos raciais e criticam o presidente eleito Donald Trump. 

Na quinta-feira, enquanto o ultraje online em torno do incidente expunha as tensões raciais antes da transição presidencial, quatro pessoas que a polícia disse terem participado da agressão foram indiciadas por crimes de ódio. 

A polícia disse que a vítima, um garoto de 18 anos dos subúrbios com deficiência mental, passou horas amarrada e apavorada no setor West Side de Chicago antes dos policiais o encontrarem vagando pelas ruas aturdido. 

"Eles reconheceram que bateram e chutaram ele", disse o comandante Kevin Duffin, do Departamento de Polícia de Chicago, sobre os quatro réus. "Eles o fizeram beber água do vaso sanitário." 

Os policiais disseram que a vítima conhecia um dos suspeitos e que vários deles pareciam intoxicados. 

Apesar de ter sido um caso de violência em uma cidade onde jovens são mortos quase diariamente, o incidente, particularmente nas redes sociais e nos veículos de notícias conservadores, se transformou em um teste sobre como o país vê a questão racial. 

Ele também pareceu explorar as mesmas questões que se tornaram mais intensas no país ultimamente: um clima político divisor, uma dolorosa cisão racial e um universo de mídia social cada vez mais polarizado. 

"Se isso tivesse sido feito por quatro brancos contra um afro-americano, todos os liberais do país teriam ficado ultrajados e não haveria dúvida de que ser um crime de ódio", disse Newt Gingrich, um republicano e ex-presidente da Câmara, no programa "Fox and Friends". 

Um hashtag ligando o incidente ao movimento Black Lives Matter ["Vidas Negras Importam"] explodiu nas redes , levando o líder do movimento, DeRay Mckesson, a responder pelo Twitter: "Não é preciso dizer que as ações sendo rotuladas pela extrema direita como 'Sequestro pelo Black Lives Matter' não têm nada a ver com o movimento". 

Pat Brady, um ex-presidente do Partido Republicano de Illinois e ex-promotor, disse que o ataque não deve ser visto como tendo maior significado. 

"Para ser justo, podemos reconhecer que houve um discurso político muito ruim nesta eleição, mas isto envolve quatro garotos doentes que provavelmente nem mesmo conseguem soletrar Trump, muito menos saber algo sobre a eleição", disse Brady. 

O reverendo Jesse Jackson disse que tentou urgentemente entrar em contato com a família da vítima. "Queremos fazer o que for possível para ajudar, para demonstrar nosso amor pelo garoto", ele disse. 

Quanto ao ataque em si, ele disse: "Isso é um colapso étnico, não uma afirmação étnica". 

Em Washington, o secretário de imprensa da Casa Branca, Josh Earnest, disse que a agressão demonstrou "um nível de depravação que representa um ultraje para muitos americanos". 

Os policiais disseram que pediram o indiciamento por crime de ódio devido aos comentários sobre a raça da vítima e sua capacidade mental reduzida. Duffin disse que a polícia não sabe se a vítima votou em novembro ou se isso teve alguma influência no ataque. Mas a citação do nome de Trump e as elevadas tensões raciais após a campanha eleitoral contenciosa convenceram muitos nas redes sociais de que se tratava de um ato de ódio racial com tons políticos. 

Em Chicago, as autoridades municipais e líderes negros condenaram o ataque e ofereceram apoio à vítima. O prefeito Rahm Emanuel chamou o incidente de "doentio", acrescentando que "nossa cidade é mais do que isso". 

O superintendente de polícia, Eddie Johnson, chamou a agressão de "deplorável" e elogiou os policiais que encontraram a vítima perambulando pela rua e chamaram uma ambulância. 

Shari Runner, a presidente da Liga Urbana de Chicago, descreveu o que se desenrolou nas redes sociais como inquietante em vários níveis: os próprios atos profundamente perturbadores, exibidos ao vivo com aparente indiferença, seguidos por sugestões do que o Black Lives Matter seria o responsável. 

Pessoas de todas as raças, disse Runner, estão "muito ultrajadas aqui em Chicago com o fato de alguém fazer uma coisa dessas". 

A vítima, que não foi identificada pela polícia de Chicago, foi informada como desaparecida pelos pais dias antes. A polícia disse que ela se encontrou com Jordan Hill, a quem considerava um amigo, em um McDonald's suburbano na Véspera de Ano Novo. Hill, 18 anos, da próxima Carpentersville, Illinois, roubou um carro, segundo a polícia, e dirigiu até o oeste de Chicago com a vítima e visitou amigos por dois dias antes da agressão. 

Mas o que começou na terça-feira como uma briga de brincadeira entre a vítima e Hill, disse a polícia, acabou se transformando em uma agressão que durou horas. 

Hill foi indiciado juntamente com três outros moradores de Chicago: Tesfaye Cooper, 18 anos; Brittany Covington, 18; e Tanishia Covington, 24. Todos os quatro foram acusados de sequestro com agravante, crimes de ódio, constrangimento com agravante e agressão com arma mortal. Eles devem comparecer perante o tribunal de fiança na sexta-feira em Chicago. 

Hill também foi acusado de furto e posse de veículo automotor roubado e furto a residência. Cooper e Brittany Covington também foram acusados de furto a residência. 

Um videoclipe de cerca de 30 minutos amplamente compartilhado online parecia mostrar uma transmissão ao vivo da agressão pelo Facebook. Um grupo pode ser visto provocando e agredindo fisicamente um jovem, enquanto praguejam e riem. Grande parte do vídeo se concentra em uma jovem enquanto ela divaga, às vezes de forma incoerente. As garotas, disseram os policiais, estavam ambas fumando o que descreveram como maconha. 

O vídeo começa com a imagem de uma jovem antes de se voltar à vítima, que está sentada em um canto de uma sala com sua boca coberta. A jovem ri enquanto os dois homens cortam a manga da camisa da vítima. Um dos garotos começa a xingar Trump e os "brancos". Posteriormente, um jovem é visto cortando um pedaço de cabelo da cabeça da vítima, aparentemente provocando sangramento. 

Os policiais encontraram a vítima perambulando ensanguentada e perturbada com Hill na terça-feira, em uma área perigosa do West Side. A polícia posteriormente conseguiu associar a vítima a uma denúncia recebida de agressão. A vítima foi tratada em um hospital e liberada na noite de quarta-feira. 

Em um subúrbio de Chicago, o cunhado da vítima, que se identificou como David, falou brevemente com os repórteres na noite de quinta-feira. Ele expressou gratidão pelo imenso apoio recebido. "Estamos felizes com a preocupação de todos", ele disse. "Isso nunca deveria ter acontecido." 

A agressão registrada em vídeo ocorre em um momento de crescente violência em Chicago. A cidade teve 762 homicídios em 2016, o maior número já registrado desde os anos 90, um marco sombrio que chamou a atenção de Trump nesta semana.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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