Em um ano selvagem na Venezuela, mesmo quem deveria combater o crime é assassino

Nicholas Casey

Em Caracas (Venezuela)

  • Meridith Kohut/The New York Times

    Policial patrulha favela em Carrizal, na Venezuela

    Policial patrulha favela em Carrizal, na Venezuela

Os soldados invadiram a casa de Rafael González enquanto sua mãe e namorada assistiam. Seria um interrogatório de rotina, eles asseguraram a ele e outros detidos naquela noite, antes de levá-los para um quartel militar escuro.

O que aconteceu em seguida foi tudo menos normal, lembrou González.

Ele foi deixado nu, chutado e atingido com a coronha de um fuzil, ele disse. Soldados o penduraram pelos braços no teto com uma corda, exigindo saber se ele pertencia a uma das gangues que estavam aterrorizando o bairro dele em Barlovento, uma área rural da Venezuela, com assaltos e sequestros.

"Eles me disseram: 'Vamos jogar um jogo, Rafaelzinho. Chama-se eletrocussão'", disse González, que tem 17 anos. "Eles me deram um choque no abdome, no pescoço, pênis, traseiro, costas e nas minhas mãos, em toda parte. Parecia que meus tímpanos iriam explodir."

Em 21 de outubro, cinco dias depois de ter sido detido, González, machucado e apavorado, foi solto, ele disse.

Ele logo percebeu que estava entre os felizardos. Semanas depois, os corpos de 13 outros detidos em operações semelhantes foram encontrados, a maioria no fundo de uma vala comum. Muitos foram torturados, segundo as autoridades.

"Imagina como me senti como mãe", disse Petra Pérez, cujo filho de 18 anos, Anthony Vargas, foi encontrado morto, com o corpo parcialmente decomposto. "Eu nutria uma pequena esperança de que meu filho ainda estivesse vivo, que meu filho não estivesse entre os encontrados."

Meridith Kohut/The New York Times
Curiosos observam o trabalho da polícia numa cena de crime em Plan de Manzano


As mortes em Barlovento, que investigadores do governo condenaram como um massacre de inocentes, apontam para um culpado problemático na crescente violência do país: suas próprias forças de segurança.

A Venezuela há muito sofre com um dos maiores índices de criminalidade do mundo. Mas a crise econômica, que provocou o colapso de tudo, de seus hospitais à oferta de alimentos, aprofundou a miséria e a criminalidade.

Os assassinatos subiram para 28.479 neste ano, o maior número já registrado no país, segundo o Observatório Venezuelano da Violência, um grupo independente que monitora a violência.

Gangues armadas estabeleceram um controle rígido dos bairros, com muitos venezuelanos recorrendo ao crime à medida que a inflação faz seus salários minguarem e empregos são cada vez mais difíceis de encontrar.

Alguns desses grupos armados já foram âncoras de apoio ao governo nos bairros. Esses chamados "colectivos" começaram como grupos comunitários e foram posteriormente armados por membros do movimento do presidente Hugo Chávez, para que se tornassem milícias defensoras do governo.

Mas após a morte de Chávez em 2013 e a economia venezuelana começar a mergulhar em parafuso, alguns de seus leais defensores de rua passaram cada vez mais a se voltar para o crime, rompendo com o governo e se juntando à constelação de grupos armados que sequestram, roubam e matam.

Em uma tentativa de restaurar a ordem, o governo recorreu à instituição em que mais confia: as Forças Armadas. Por todo o país, as Forças Armadas se tornaram as mantenedoras da lei na Venezuela, realizando operações ao estilo comando que às vezes ganham o perfil de guerra urbana.

Meridith Kohut/The New York Times
Policiais revistam jovens em favela em Carrizal


"Tornou-se mais militarista e mais repressor", disse Margarita López Maya, uma cientista política venezuelana. "Qualquer um pode ser pego."

López disse que as vítimas das batidas com frequência são os civis pobres que mais precisam de proteção e que a violência é um reflexo da gravidade do declínio da Venezuela.

"Estamos no caminho de um Estado fracassado", ela disse. "Chegará a um ponto onde ninguém estará no controle."

Tarek William Saab, o ombudsman do governo que investiga o caso em Barlovento, disse que as vítimas eram homens e mulheres inocentes submetidos "aos mais terríveis casos de crueldade e degradações inumanas de tortura".

As autoridades disseram que 18 soldados, incluindo um tenente-coronel e um capitão, foram presos por ligação com as mortes. Todos serão levados à Justiça na Venezuela, disse Saab, mas ele argumentou que o massacre não faz parte de um padrão maior de abuso.

Grupos de direitos humanos e sobreviventes de outras ações militares contestam isso com vigor, dizendo que os militares mataram centenas de pessoas, muitas delas inocentes.

Representantes das Forças Armadas e da guarda nacional da Venezuela não responderam aos pedidos de entrevista. Mas uma organização, a Provea, que monitora as mortes em ações militares por meio das estatísticas oficiais e pelos noticiários locais, disse que mais de 600 pessoas foram mortas neste ano em episódios como o de Barlovento, em comparação a cerca de 245 em 2015.

O "New York Times" entrevistou 10 vítimas de operações militares e seus familiares, que detalharam um padrão semelhante de abuso. Eles descreveram detenções arbitrárias, interrogatórios violentos e mortes pelas forças de segurança.

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Moradores participam de processão pelo funeral de quatro homens que foram torturados e mortos pelo Exército da Venezuela, na cidade de Capaya

Rosinis Morales, 39 anos, lembrou uma operação em 6 de outubro em seu bairro na capital, Caracas, dizendo que as forças de segurança invadiram sua casa e ordenaram que todos os homens presentes fossem com eles.

Ela disse que eles atiraram e mataram seu marido, José Alberto Gordillo, 32 anos; o irmão dela, Heller Morales, 34 anos; e um amigo da família, Johnary Cardozo, 23 anos. O governo posteriormente disse que nove pessoas, que descreveu como criminosos, foram mortas na operação.

Asdrubal Granados, 51 anos, disse que seu filho de 25 anos, Yanderson, foi preso durante outra operação naquele dia em uma parte diferente de Caracas.

Granados disse que a família tentou encontrar o filho, que já tinha sido condenado anteriormente por roubo, telefonando para as delegacias de polícia, sem resultado. Ele foi posteriormente encontrado no necrotério, morto a tiros, disse Granados.

Em 17 de agosto de 2015, as forças de segurança invadiram a casa de Joel Antonio Torrealba e de seu filho, Ángel Joel, 15 anos, por volta das 2 horas da madrugada na Ilha de Margarita, na costa central do país, segundo o pai. Ele disse que eles mataram seu filho a tiros enquanto ele ainda estava na cama. "Ele estava apenas dormindo", disse Torrealba.

Torrealba disse que ele, sua esposa e sua filha, de 21 anos, foram detidos, apenas para serem soltos em um terreno abandonado longe da casa deles, sem nenhuma explicação.

Mas nenhuma dessas operações resultou no mesmo tipo de acusações públicas como no caso de Barlovento, no qual tanto as vítimas quanto as autoridades citaram espancamentos, tortura e homicídio.

Meridith Kohut/The New York Times
Soldados da guarda nacional destroem centenas de armas confiscadas pela polícia, em Caracas


Tudo começou na televisão. Em 10 de outubro, Néstor Reverol, o poderoso ministro do interior do país, divulgou um vídeo no qual estava diante de soldados e de veículos blindados, anunciando que enviaria cerca de 1.400 membros das forças de segurança para seis municipalidades.

"É um posicionamento importante que controlará todo o eixo de Barlovento", disse Reverol, um general militar que é procurado nos Estados Unidos por acusações de auxílio a narcotraficantes.

Barlovento, um trecho de planícies costeiras ao leste de Caracas, é um amontoado de cidades e vilarejos onde as áreas urbanas da capital dão lugar a fazendas de cultivo de cacau.

Mas o aumento da criminalidade destruiu o idílio do interior. Os moradores disseram que eram aterrorizados por gangues armadas que roubavam regularmente as fazendas, roubavam carros e os sequestravam.

Poucos suspeitavam que havia algo a temer com a chegada dos soldados, que acreditavam terem sido enviados para ajudá-los.

"É a primeira vez que algo assim acontece conosco", disse Pérez.

González, o jovem de 17 anos que disse ter sido submetido a choques elétricos, esteve entre os primeiros detidos em 16 de outubro. Ele tinha passado a noite queimando o lixo da família nas proximidades e tinha acabado de chegar em casa quando, disseram ele e sua mãe, dois soldados entraram na sala de estar e o forçaram a embarcar em um jipe.

Uma provação de cinco dias teve início, ele disse. No quartel militar, ele disse, ele foi despido e fotografado. Por volta das 22h, ele disse, ele e cinco outros foram levados para uma cadeia onde os soldados amarraram seus braços juntos, o jogaram no chão e pisaram em sua cabeça. "Se você gritar, só vai piorar", ele contou que um deles alertou.

Eles o deixaram nu de novo e o vendaram, ele disse, então despejaram baldes de água em seu rosto, perguntando a ele se tinha algo a confessar.

"Eu não sabia de nada", ele disse. "Eu era apenas um garoto tranquilo e que não ficava perambulando por aí com outros."

Em outra sala, com os olhos cobertos, ele recebeu choques elétricos por cerca de 40 minutos enquanto os soldados continuavam a pressioná-lo a respeito das gangues de Barlovento, ele disse.

"Se vocês vão nos matar, façam isso agora, mas não continuem nos fazendo sofrer dessa forma. Nem mesmo cães fariam isso", ele lembrou ter implorado.

Por volta da mesma hora, as forças de segurança estavam prendendo outros em Barlovento.

Em 15 de outubro, Carlos Marchena, um jovem de 20 anos que trabalhava na empresa de caminhões de sua família, estava dando uma pequena festa quando soldados entraram e forçaram os homens a ficarem de joelhos, segundo sua viúva, Mayerlin Pita.

Eles pegaram os documentos de identidade dos homens e os colocaram em caminhões. Foi a última vez que ela viu seu marido vivo, ela disse.

No dia seguinte, Luis Sanz, um mecânico de 30 anos, foi preso pelos soldados, disseram membros de sua família. Sete ou oito soldados usando máscaras de esqui invadiram a casa, disse a irmã dele, Alimirely Sanz, empurrando todos de lado exceto Sanz. Lucía Espinoza, a mãe dele, disse que ela foi jogada ao chão na confusão.

As famílias Sanz e Marchena, juntamente com as de muitas outras pessoas que foram detidas, começaram a se reunir em um quartel militar conhecido como El Café, onde acreditavam que seus entes queridos estavam sendo mantidos. Por três dias, eles trouxeram comida, água e roupas, as entregando para os soldados na esperança de que entregariam os itens para os detidos.

Mas no terceiro dia, disse Pita, ela percebeu que algo tinha acontecido.

Os soldados que vinham aceitando a comida começaram a dizer aos parentes que não tinham registro de seus entes queridos ou que eles tinham sido levados para uma instalação diferente, disseram os parentes.

Um mês se passou com poucas notícias. Então os corpos apareceram.

Meridith Kohut/The New York Times
Preso usa cateter improvisado com saco plástico e fita adesiva em prisão em Guarenas

Em 25 de novembro, disseram as autoridades, uma dica as levou a dois cadáveres enterrados ao lado de uma estrada. Dez mais foram encontrados em uma vala comum perto de uma cidade na área.

As famílias dos desaparecidos foram imediatamente para o necrotério. O cheiro de morte pairava no ar enquanto os membros da guarda nacional mantinham a ordem, permitindo a entrada das famílias, uma de cada vez.

Sanz disse que identificou seu irmão por fotos de seus dentes e roupas, porque as autoridades lhe disseram que o corpo dele estava decomposto demais para ser visto. Pita disse que um exame de DNA confirmou que seu marido, Marchena, também estava morto.

Pérez identificou seu filho, Vargas, por meio de várias tatuagens, uma em seu peito. "Não há dúvida", ela disse.

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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