Presidente chinês investe milhões em crianças por sonho de ter seleção campeã na Copa

Chris Buckley

Em Qingyuan (China)

  • Gilles Sabrie/The New York Times

Os 48 campos de futebol na vasta Escola de Futebol Evergrande, no sul da China, parecem insuficientes para seus 2.800 alunos. Tendo como fundo torres escolares que parecem inspiradas em Hogwarts, os jovens atletas tomam os campos quase todo dia, chutando, driblando e passando na esperança das riquezas e glórias do futebol.

"O futebol será minha carreira quando eu crescer", disse Wang Kai, um jovem desengonçado de 13 anos que estudou no internato por mais de três anos, após um treino matinal sob supervisão de um treinador espanhol. "Quero ser o Cristiano Ronaldo chinês", ele disse, referindo-se ao superastro português.

Cultivar o próximo Cristiano Ronaldo ou Lionel Messi se transformou em um projeto nacional na China, onde o fã número 1 no país, o presidente Xi Jinping, deseja transformar o país em uma grande potência do futebol.

É um empreendimento ambicioso para a China, cujas equipes apresentaram desempenho fraco em recentes competições internacionais. Mas o esforço já provoca um aumento nos gastos e apoio ao esporte que tem atordoado torcedores e jogadores de todo o mundo.

Nas duas últimas semanas, o principal campeonato chinês trouxe astros estrangeiros da Europa e da América do Sul com contratos que chegam a US$ 40 milhões por ano, os salários mais altos entre jogadores de futebol no mundo. Um clube chinês ofereceu ao verdadeiro Cristiano Ronaldo US$ 105 milhões por ano, mas ele recusou, disse o empresário dele na semana passada.

Essas somas inebriantes estão sacudindo o cenário do futebol profissional. Antonio Conte, o treinador do Chelsea, da Inglaterra, condenou a gastança chinesa no mês passado como sendo "um risco para todas as equipes do mundo".

O esforço para equiparar a ascensão econômica da China com sucesso no campo de futebol se tornou emblemático na ambição de Xi de transformar a China em uma grande potência confiante. "Minha maior esperança para o futebol chinês é que suas equipes estejam entre as melhores do mundo", ele anunciou no ano passado.

Nos dois últimos anos, o governo dedicou ao futebol o tipo de esforço concentrado empregado anteriormente na conquista de medalhas olímpicas em esportes individuais, como saltos ornamentais e ginástica.

Ele prometeu limpar e reorganizar o futebol profissional e formar uma nova geração de jogadores, por meio da criação de dezenas de milhares de campos de futebol e adição de programas de futebol a dezenas de milhares de escolas. A meta é gerar um fluxo constante de jogadores de alto nível que possam vir a ser capazes de conquistar a cobiçada Copa do Mundo masculina e devolver a seleção feminina à sua antiga glória.

Esse esforço tem encorajado os clubes chineses a gastar prodigamente. Além de pagar dezenas de milhões a jogadores estrangeiros, os donos das equipes chinesas têm gasto centenas de milhões de dólares na compra de clubes europeus, na esperança de explorar sua perícia em treinamento e marketing.

"Os gastos atuais geram expectativas imensas", disse Simon Chadwick, um professor de empreendimentos esportivos da Universidade de Salford, no Reino Unido. "Gastar em peso em jogadores também significa adquirir heróis e ícones."

Mas se o futebol contribui para as ambições nacionais de Xi, também ilustra como seus planos podem fracassar, como ocorreram em outras áreas, em uma confusão de execução às pressas e distorcida, especialmente na esfera local. Há resistência por pais, preocupados com seus filhos desviando tempo precioso dos estudos, assim como o temor de que a gastança em astros estrangeiros desvia dinheiro e atenção da geração de talentos locais.

Os riscos na tentativa de firmar o futebol são um pouco como os de firmar a economia, com o desejo de sucesso rápido e chamativo colocando em risco as metas de longo prazo.

O "Diário do Povo", o principal jornal do Partido Comunista, alertou no mês passado que a "bolha" de gastos imprudentes no futebol profissional chinês poderia estourar e prejudicar seriamente o esporte. Investidores exibem expectativas delirantes, enquanto alguns clubes, autoridades e escolas não estão se esforçando no desenvolvimento de jogadores jovens, disse o jornal.

"Um dos maiores problemas é o desejo por resultados de curto prazo", disse Cameron Wilson, um escocês que mora em Xangai e edita o "Wild East Football", um site que acompanha o esporte na China. "Há grandes planos e ideias. Mas quando se chega às categorias de base nas províncias, cada um se vira sozinho."

Os torcedores passionais de futebol na China ficariam empolgados em ter seleções nacionais competitivas em vez das fracas que possuem no momento. A seleção nacional masculina recentemente figurou em 83º lugar no ranking da Fifa, à frente das Ilhas Faroë, um território autônomo da Dinamarca com menos de 50 mil habitantes, e é improvável que consiga se classificar para a Copa do Mundo de 2018.

A seleção feminina, o orgulho do futebol chinês nas últimas décadas, despencou. Ela foi vice-campeã da Copa do Mundo feminina em 1999, mas caiu para 13º lugar no ranking mais recente.

"A seleção nacional é uma piada", disse Xu Yun, 16 anos, que veio ao Estádio dos Trabalhadores em Pequim para assistir sua equipe favorita de Pequim arrasar um adversário apático da província de Henan. "Acho que precisaremos de décadas para acertar. Não é apenas uma questão de gastar dinheiro, mas sim de atitude."

Por anos, o esporte profissional doméstico esteve tomado por corrupção, despudorado até mesmo para os padrões da China. Desde que a revelação de resultados manipulados se transformou em um escândalo nacional em 2009, o pior da corrupção foi saneado. "Ela ainda existe", disse Wilson. "Mas não é tão descarada."

Para Xi, o futebol é uma paixão desde a infância. Suas viagens para o exterior incluem fotos com David Beckham e outras celebridades do futebol. Na Irlanda em 2012, ele famosamente chutou a bola com entusiasmo, mas um tanto enferrujado.

Em setembro, ele visitou sua antiga escola em Pequim, onde aprendeu a jogar e se tornou um fã do esporte, segundo as lembranças de seu ex-professor.

"Vejam quão saudável estou", Xi disse aos jovens jogadores de futebol na escola. "Eu estabeleci a base para isso por meio dos esportes quando era jovem."

Investidores privados correram de forma desordenada para o futebol profissional, encorajados pelo apoio de Xi ao esporte e aparentemente ávidos em bajular seu governo.

No período de transações da principal categoria no ano passado, os 16 times da Super Liga Chinesa gastaram US$ 300 milhões na contratação de jogadores estrangeiros promissores, superando o gasto em jogadores do campeonato inglês em quase US$ 120 milhões, segundo o departamento de transferências da Fifa (TMS). Os valores em 2017 provavelmente subirão ainda mais.

Mas o foco de Xi é a longo prazo e na próxima geração de jogadores. O plano dele pede para que 50 mil escolas deem uma maior ênfase no futebol até 2025, um salto em comparação a 5.000 em 2015. O número de campos de futebol por todo o país crescerá para mais de 70 mil até o final de 2020, em comparação aos atuais 11 mil. Até lá, segundo o plano, 50 milhões de chineses, incluindo 30 milhões de estudantes, estarão praticando regularmente futebol.

"Agora, diretores de todas as escolas estão dando mais atenção ao futebol", disse Dai Wei, o diretor atlético da antiga escola de Xi, a Escola Bayi. "Antes isso era impensável."

Porém ainda há uma profunda resistência cultural, até mesmo em Bayi.

Alguns pais desencorajam seus filhos de dedicarem tempo aos esportes, disse Dai, porque eles têm muita lição de casa e enfrentam dura concorrência nas provas acadêmicas.

Apesar da China ter demonstrado excelência em esportes individuais que exigem intensa disciplina desde cedo, o país não tem tido o mesmo sucesso em esportes coletivos, onde habilidades como trabalho em equipe e improviso contam tanto quanto o virtuosismo pessoal.

A escola particular de Evergrande, o maior internato de futebol do mundo, diz que sua fórmula de treinamento intensivo somado à sólida educação pode mostrar o caminho para o desenvolvimento de jovens jogadores.

"Quanto mais escolas de futebol forem construídas, haverá mais e mais crianças jogando e os astros e estrelas também se multiplicarão", disse Liu Jiangnan, o diretor da escola, que abriu em 2012. "Acredito que em sete ou oito anos, metade dos jogadores da seleção nacional terá vindo desta escola."

Atraídos por essas esperanças, os pais pagam cerca de US$ 8.700 (cerca de R$ 28 mil) por ano para enviar seus filhos para cá, onde 24 treinadores espanhóis os supervisionam. Os alunos passam 90 minutos por dia em treinamentos e também jogam nos fins de semana. Os jogadores promissores ganham bolsas de estudos, e os filhos de famílias mais pobres recebem descontos, disseram os diretores da escola.

Mas mesmo aqui, as crianças podem começar a praticar o esporte mais tarde que seus pares europeus e sul-americanos, e com frequência carecem de uma base sólida de trabalho em equipe e tática, disse Sergio Zarco Diaz, o treinador espanhol.

"As crianças estão melhorando, ano a ano", ele disse esperançoso.

Mas a abordagem de Evergrande é cara demais para ser amplamente copiada.

Algumas escolas, diante da escassez de treinadores e espaço para campos, elaboraram seus próprios treinamentos, como ginástica de futebol, na qual as crianças fazem fila jogando uma bola para cima, para baixo e para os lados. Isso pode impressionar as autoridades visitantes, mas é uma fraca preparação para a fluxo livre do esporte, disse Zhang Lu, um comentarista de futebol altamente respeitado.

"O futebol chinês fracassou antes por ter corrido atrás de um sucesso instantâneo", disse Zhang em uma entrevista em Pequim, lembrando esforços anteriores fracassados de desenvolver o esporte nos anos 80 e 90. "O problema é que o pensamento de todos ainda está profundamente enraizado em ideias tradicionais. Todos acham que o futebol se resume apenas a obter resultados, competição, treinamento e criação de astros."

Adam Wu contribuiu com pesquisa

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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