Presos aprendem a degustar vinho e ganham segunda chance na Itália

Gaia Pianigiani

Em Lecce (Itália)

  • Gianni Cipriano/The New York Times

    Sommelier Roberto Giannone serve vinho para presas durante aula em penitenciária na região de Lecce, Itália

    Sommelier Roberto Giannone serve vinho para presas durante aula em penitenciária na região de Lecce, Itália

Um de seus primeiros alunos foi um jovem que ele havia prendido quatro anos antes. Outros haviam sido condenados por assalto à mão armada, tráfico de drogas e associação criminosa com a máfia. As salas de aula são frugalmente equipadas, com janelas protegidas por grades verticais e horizontais, embora uma delas tenha pinturas de cores vivas cobrindo as paredes.

Mas nada disso dissuadiu Marco Albanese, policial há 19 anos e sommelier formado há 5, de ensinar a uma classe de alunos encantados os detalhes sobre como se analisar o buquê de um chardonnay ou como servir uma safra rara.

Albanese, 43, é instrutor em uma iniciativa inovadora na Penitenciária de Lecce para ensinar detentos a serem sommeliers ou garçons especializados em vinho. Os cursos são parte de um programa com o intuito de ensinar novas habilidades profissionais aos presos, bem como de ajudá-los a desenvolver uma ligação com a região, que é conhecida por suas variedades de uva Negroamaro.

O programa foi recebido com entusiasmo pelos alunos prisioneiros, que em uma tarde dessas estavam degustando vinhos brancos. E também abriu os olhos de Albanese.

"Eu consegui ver o lado humano deles, uma vez que eles estavam fora de seu contexto", disse Albanese, que trocou seu uniforme de polícia pelo paletó azul e gravata de sommelier para a aula. "E eu não precisava manter a mesma distância, agora que eu era o 'professor' deles."

Ele acrescentou: "Eles também merecem uma segunda chance, e é importante que eles saibam que as instituições acreditam que eles possam instruídos para uma vida diferente."

Em oito aulas, o grupo de 30 homens e mulheres, que são instruídos em classes separadas, aprendem como degustar, escolher e servir vinhos locais.

"Esperamos conseguir ensinar a eles o valor social do trabalho e como é precioso seu próprio território, de forma que eles possam mais tarde escolher trabalhar aqui, já tendo as habilidades certas", disse Rita Russo, diretora da Penitenciária de Lecce, que é a maior da região de Puglia. Os detentos também podem estudar para se formarem no colegial, cultivar tomates, ter aulas de teatro e aprenderem a ser pintores ou alfaiates.

Gianni Cipriano/The New York Times
Tonéis de vinho que pertencem à vinícola Feudi di Guagnano, em Guaganano, Itália

A aula começa com uma apresentação de slides sobre a história do vinho, explicando como ele era bebido pelos gregos antigos e apresentando aos alunos os ancestrais romanos dos sommeliers modernos na Itália. Em uma mesa coberta por uma toalha cáqui, taças de vinho prontas para usar. Em outra mesa, três garrafas de chardonnay, um primitivo tinto e um Negroamaro.

Depois Albanese se dirigiu aos presos, sentados à sua frente em banquinhos, listando as temperaturas nas quais os diferentes vinhos deveriam ser servidos e como armazená-los em adegas. Para finalizar, ele ofereceu uma dica que costuma fazer sucesso:

"Lembrem-se: mesmo que você receba o Trump para jantar, o papa ainda deve ser servido primeiro. O clero vem primeiro, mesmo antes de chefes de Estado", ele disse, provocando gargalhadas. Os presos, cujas identidades estão sendo protegidas pelo presídio, não tiveram a permissão de serem entrevistados ou fotografados para este artigo.

Depois, Roberto Giannone, que trabalha para a associação local de sommeliers, demonstrou como abrir uma garrafa, retirando com precisão o invólucro que cobre a boca da garrafa em três cortes, inserindo o saca-rolhas e puxando suavemente a rolha para fora.

"Uma vez retirada a rolha", ele disse, "usem um guardanapo para mostrá-la aos clientes. É uma forma fácil de ser educado e evitar objeções."

Desde os anos 1970, o sistema penal italiano tem focado na reeducação para prisioneiros. No entanto, a falta de verba para reabilitação, bem como uma superlotação crônica, significa que milhares de homens e mulheres encarcerados não têm muito o que fazer o dia inteiro.

Isso inspirou alguns programas inovadores de reabilitação, incluindo um restaurante dentro de uma prisão de segurança média perto de Milão na qual os garçons e cozinheiros são detentos. Mas o curso de sommelier no presídio de Lecce aparentemente é único na Itália.

"É claro que cursos de sommelier não podem ser considerados como um tratamento", disse Georgia Zara, chefe de um programa na Universidade de Turim que oferece um mestrado em psicologia criminológica e forense. "Mas eles instruem os detentos e criam uma interação social, que é muito importante."

As aulas também oferecem uma "ponte entre o contexto carcerário e o mundo lá fora, então é um pequeno investimento para se reduzir o risco da reincidência", disse Zara.

Gianvito Rizzo, 53, é CEO da Feudi di Guagnano, uma vinícola local que fornece os vinhos para as aulas, como o Negroamaro. Ele também foi o criador do curso de sommelier na prisão.

Rizzo propôs que os detentos começassem a trabalhar em seus quase 30 hectares de vinhas no próximo ano; em determinadas circunstâncias, alguns detentos na Itália podem trabalhar fora dos presídios.

"Eu vejo o vinho de uma forma democrática", disse Rizzo enquanto atravessava seu vinhedo recentemente. "O campo é o contrário de uma cela. Você é livre. Você sente o cheiro da natureza e aprende a se importar com ela. Acho que também seria bom para os detentos experimentarem isso."

Rizzo disse que quando ele concluiu o mestrado pela faculdade de administração da Universidade de Bocconi em Milão três anos atrás, ele ficou "obcecado" em fazer algo por sua região natal de Salento, na Puglia, no calcanhar da bota italiana.

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Gianvito Rizzo, executivo-chefe da Feudi di Guagnano, uma vinícola que fornece os vinhos para as aulas no presídio

Ele decidiu entrar no mercado de vinhos, que vinha enfrentando dificuldades para converter agricultores que cultivavam para uso pessoal ou local em produtores maiores.

Hoje ele produz 16 vinhos diferentes de uvas cultivadas em vinhedos que ele e dois amigos e sócios herdaram de seus pais, além daquelas que outros amigos lhes pedem para cultivar para eles. Ele chama essa iniciativa colaborativa de seu "primeiro experimento social".

Quando Rizzo ouviu falar sobre as atividades para os presos, ele propôs os cursos de sommelier para Russo.

Embora não esteja claro se algum dos alunos algum dia se tornará um sommelier profissional, foi muito bem-vinda à exposição ao mundo dos vinhos oferecida pelas aulas.

"Eu nem bebo, mas aprendi como sorver, sentir o aroma e degustar", disse um detento, que está cumprindo uma pena de 10 anos e para quem foi aberta uma exceção para falar de forma anônima. "Você pode pensar que é algo pequeno, mas significa muito para nós."

Tradutor: UOL

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