Com manicure e maquiagem, 'sem gênero' do Japão apagam linha entre homem e mulher

Motoko Rich*

Em Tóquio (Japão)

  • Ko Sasaki/The New York Times

    Toman Sasaki, modelo e cantor pop, que se define como 'sem gênero'

    Toman Sasaki, modelo e cantor pop, que se define como 'sem gênero'

Com a precisão de um artesão pintando uma boneca de porcelana, Toman Sasaki passou base em seu rosto de traços finos, sombreou as laterais do nariz e delineou os lábios com um pequeno pincel. Depois de 40 minutos de retoques em seu minúsculo apartamento no bairro de Hatsudai, em Tóquio, ele se olhou num espelho de mão e fez um gesto de aprovação.

Com as unhas pintadas, o cabelo enrolado, sapatos de salto alto e maquiado, Sasaki, 23, parece mais feminino que masculino, uma opção chocante em uma sociedade em que homens e mulheres tendem a seguir estritamente os códigos de vestimenta convencionais de cada gênero.

Sasaki, um modelo e membro de banda pop, que atende simplesmente por Toman, considera seu visual nem tanto feminino, quanto sem gênero definido. Assim como um pequeno mas crescente grupo de "danshi sem gênero" ("danshi" significa rapazes em japonês), ele está desenvolvendo uma identidade pública e uma carreira com seu novo estilo andrógino.

"No fundo, sou um homem", disse o miúdo Sasaki, cujo guarda-roupa de tops justos, blusões largos e jeans apertados lembra a moda de uma garota pré-adolescente. O conceito de gênero, segundo ele, "não é realmente necessário".

"As pessoas deveriam poder escolher o estilo que lhes parece melhor", disse Sasaki, que como "Toman" tem um grande grupo de fãs nas redes sociais e aparece regularmente em programas de rádio e televisão. "Os homens não têm de fazer uma coisa e as mulheres, outra. Não acho isso muito interessante. Somos todos seres humanos."

Ko Sasaki/The New York Times
Toman Sasaki canta com sua banda em uma TV japonesa

Assim como alguns americanos adotaram a maquiagem, os jovens japoneses estão misturando as normas de gênero na moda, tingindo os cabelos, usando lentes de contato coloridas e batom em cores vivas.

Homens como Ryuji Higa, mais conhecido como Ryucheru, com seus cachos louros muitas vezes puxados para trás com uma faixa, e Genki Tanaka, conhecido como Genking, que balança longas tranças platinadas e costuma se apresentar de minissaia, deram um salto das redes sociais para o estrelato como celebridades na TV.

"Tem a ver com apagar os limites que definiam a masculinidade e a feminilidade azul e rosa", disse Jennifer Robertson, professora de antropologia na Universidade de Michigan que pesquisou e escreveu extensamente sobre os gêneros no Japão. "Eles estão tentando aumentar o âmbito do que alguém com anatomia masculina pode vestir."

A cultura japonesa tem há muito tempo uma tradição formal de "cross-dressing" no teatro, desde formas clássicas como o Kabuki e o Noh, em que homens se vestem como homens e como mulheres, ao Takarazuka, em que mulheres interpretam os dois gêneros.

O visual unissex para homens também foi popularizado nos quadrinhos japoneses chamados "anime" e por membros de "boy bands" conhecidas.

A expressão "danshi sem gênero" foi cunhada por um agente de artistas, Takashi Marumoto, que ajudou a promover a carreira de Toman. Marumoto recruta outros jovens andróginos para desfiles de moda e contratos como modelos potenciais, capitalizando seu público nas redes sociais para comercializar aos fãs.

Diferentemente do Ocidente, onde o cross-dressing tende a ser associado à sexualidade, no Japão tem mais a ver com a moda.

"Acho que os japoneses reagem a esses homens que parecem muito femininos de modo diferente das pessoas nas sociedades euro-americanas", disse Masafumi Monden, que pesquisa moda e cultura japonesa na Universidade de Tecnologia de Sydney e está com uma bolsa na Universidade de Tóquio. "No Japão, a aparência das pessoas e sua sexualidade podem ser separadas até certo ponto."

Toman Sasaki disse que quando começou a se vestir na moda danshi sem gênero as pessoas frequentemente lhe perguntavam se era gay. (Ele diz que é heterossexual.)

Sasaki contou que usava maquiagem para esconder seus defeitos. "Há muitas coisas que me deixam inseguro. Realmente não gosto do meu rosto", disse. "Mas também sinto que quem eu sou muda quando uso maquiagem."

Vários homens que se consideram danshi sem gênero disseram em entrevistas que não veem uma conexão entre seu aspecto e sua identidade sexual --ou mesmo suas opiniões sobre os papéis de gênero tradicionais.

"É apenas que você usa maquiagem e se veste como quiser", disse Takuya Kitajima, 18. O rapaz, que atende por Takubo, disse acreditar que homens e mulheres são fundamentalmente diferentes, mesmo que se eliminem as diferenças de estilo. "Acho que os homens devem proteger as mulheres, e esse princípio não vai mudar", afirmou. "Os homens são mais fortes que as mulheres, e um homem deve trabalhar porque as mulheres são mais fracas."

Mas Yasu Suzuki, 22, que organiza eventos para outros danshi sem gênero se reunirem com os fãs das redes sociais, disse que suas explorações na moda ampliaram sua opinião sobre a sexualidade. Quando ele começou a experimentar maquiagem, na adolescência, relatou, às vezes atraía o interesse romântico de outros homens.

"Eu pensei que ia vomitar quando um homem me disse: 'Eu o amo'", disse Suzuki, que usa calças largas apreciadas pelas mulheres japonesas e arranca seus pelos faciais porque ainda não pode pagar pelo tratamento de depilação a laser habitual entre os danshi sem gênero.

"Mas agora que comecei a usar essa moda sem gênero acho que perdi o preconceito", disse ele. "Antes eu não gostava de meninos ou homens que se amam, mas comecei a aceitá-los. As pessoas bonitas são simplesmente bonitas."

No Japão, onde uma caminhada por uma estação de trens na hora do rush deixa clara a conformidade da maioria dos homens aos ternos escuros, os rapazes desiludidos com a estagnação corporativa podem estar usando a moda para contestar a ordem social.

"Na minha geração, as mulheres tinham inveja dos homens porque eles podiam trabalhar e fazer o que quisessem", disse Junko Mitsuhashi, 61, que leciona estudos de gênero na Universidade Chuo e é uma mulher transgênero. "Mas na geração mais jovem os homens têm inveja das mulheres porque elas podem se expressar por meio da moda."

Ela acrescentou: "Os homens sentem que não têm uma esfera em que possam se expressar e invejam as mulheres porque elas podem se expressar pela aparência".

As meninas são as fãs mais ardorosas dos danshi sem gênero, formando o grosso de seus seguidores nas redes sociais e participando de eventos.

Em uma noite no outono, quando Toman se apresentava com sua banda, XOX (Beijo Abraço Beijo), em uma loja de roupas badalada em Harajuku, o centro da moda jovem em Tóquio, o público era formado quase totalmente por meninas adolescentes e algumas mulheres de 20 e poucos anos.

Toman, vestindo um paletó de cetim rosa com estampa de leopardo, jeans pretos rasgados e tênis Converse All-Star preto e branco desbotados, havia colocado lentes de contato cinza que deixavam seus olhos enormes por baixo dos cílios postiços roxos. Quando a banda montou o palco improvisado para tocar algumas canções --todas ligeiramente desafinadas--, o público agitou placas e gritou. Algumas meninas choravam.

Nagisa Fujiwara, 16, uma estudante colegial de Tóquio, era uma das cerca de 200 meninas que fizeram fila depois do rápido show para tirar selfies com a banda.

"Ele parece uma menina", disse ela sobre Toman, seu favorito. "Mas quando você junta isso com sua masculinidade, eu o vejo como um novo tipo de homem."

*Makiko Inoue colaborou na pesquisa.

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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