Opinião: O reality show da política estrelado por Donald Trump

Gail Collins

  • Amanda Edwards/Getty Images/AFP

Houve dois grandes acontecimentos políticos esta semana: um novo Congresso deu início aos seus trabalhos, e estreou na TV o "Aprendiz Celebridades".

O "Celebrity Apprentice" agora é apresentado por Arnold Schwarzenegger, um ex-astro de filmes de ação que se tornou governador e agora está voltando para a indústria do entretenimento. Ele substitui Donald Trump, um ex-astro de reality shows que agora se prepara para entrar na Casa Branca. As escolhas de Trump para seu gabinete incluem um ex-governador que passou pelo "Dançando Com as Estrelas" e agora está tentando se tornar secretário de Energia.

Na quarta-feira ficamos sabendo que Omarosa Manigault, uma ex-participante do "Aprendiz" que disse ter participado de "mais de 20 reality shows", entrará para a nova equipe da Casa Branca.

Creio que estamos vendo um padrão aqui. Temos duas grandes questões:

Uma delas é se a próxima geração de líderes políticos acabará saindo desses programas. Se houvesse dois caminhos para se tornar um futuro candidato à presidência, você preferiria coletar milhares de assinaturas para concorrer a uma assembleia legislativa ou simplesmente passar um mês trancado em uma casa junto com uma dezena de estranhos e cem câmeras?

Certo, você é um cidadão sério e acredito que você escolheria as assinaturas. Mas, acredite em mim, o futuro não está do seu lado.

A outra questão é se a mecânica real do governo parecerá um longo reality show.

Republicanos do Senado começaram o ano com o sistema de saúde. O plano deles exige que legisladores corajosos votem a favor de que o Obamacare seja substituído por algo diferente. Ninguém sabe exatamente com o quê este algo diferente se parece. Os republicanos só têm certeza de que ele existe —algo como o ídolo da imunidade escondido do "Survivor."

"A resposta aqui é uma ação audaciosa", disse o presidente da Câmara dos Deputados Paul Ryan. Pense que seria algo do tipo: a revogação é na 1ª Temporada. Para descobrir o que acontece depois, você terá de assistir a 2ª temporada, quando Ryan e sua turma vão para uma ilha no Pacífico, onde eles competirão para encontrar o plano do sistema de saúde escondido embaixo de uma pedra na floresta.

Mas, a respeito da primeira semana do Congresso: os republicanos da Câmara dos Deputados deram início a seus trabalhos votando a favor da castração do departamento que supervisiona a ética dos legisladores. Esse foi um início tão terrível, que é impossível não pensar que ele pode ter sido encenado para criar um pouco de frisson e fazer com que Trump, que tuitou sua posição contrária, pareça corajoso. É como um desses programas do tipo "Real Housewives", onde as pessoas entram na sala e imediatamente começam a contar a X o que Y disse sobre ela lá embaixo.

O importante era que Trump expressasse seu desagrado através do Twitter, que provavelmente será o principal método de comunicação no reality show da política.

E como impedir isso? Se os norte-coreanos dizem que estão construindo uma arma nuclear que poderia destruir os Estados Unidos, você tuíta "Não vai acontecer." Missão cumprida.

Se existe uma profunda confusão a respeito do hackeamento russo na última eleição, você anuncia que esclarecerá tudo até terça-feira. Quando chega a terça-feira, você pode tuitar que uma reunião crítica do departamento de inteligência havia sido adiada para sexta-feira. E só para deixar claro o que você pensa sobre gente como a CIA, você escreve "inteligência" entre aspas e acrescenta "Muito estranho!".

Esse é o futuro, pessoal. Pequenas mensagens que terminam com uma frase minúscula e um ponto de exclamação. Em breve vamos enxergar o e-mail como um método incrivelmente trabalhoso de comunicação, da mesma forma que nossos pais viam cartas de 20 páginas escritas a bico de pena. Trump viu o futuro há muito tempo. "Metade de nossos amigos foram indiciados por terem enviado e-mails uns para os outros contando como estavam ferrando as pessoas", ele confidenciou a Howard Stern em 2005. "Eles te escrevem uma mensagem contando que estão fazendo sexo com 15 mulheres casadas diferentes. É inacreditável. E-mail é inacreditável."

Tão inacreditável.

Na verdade Trump chegou a ter um endereço de e-mail um dia, MrTrump@GoTrump.com, que foi anunciado como um lugar onde você poderia tanto fazer suas reservas de viagem quanto receber "dicas e conselhos de viagem" do próprio Trump. Esse negócio não existe mais, assim como os bifes Trump.

No entanto, o presidente eleito ainda tem uma ligação com o "Aprendiz Celebridades", onde ele é listado como produtor executivo. É claro, qualquer um pode ser um produtor executivo —você está lendo isto, então você pode se chamar de produtor executivo de leitura. Mas por que o futuro presidente dos Estados Unidos iria querer crédito por fazer um reality show brega, que atualmente é apresentado por um cara que apoiou John Kasich nas primárias?

Se você pensar em uma resposta, pode tuitar.

A suposta supervisão de Trump não impediu o "Aprendiz Celebridades" de ser uma tentativa bem patética de entretenimento. Esta semana ele perdeu em audiência para "The Bachelor". O novo candidato do programa é um cara chamado Nick que já participou de três reality shows de namoro antes. Ele não encontrou o amor, então de fato parece que sua vida precisa de uma nova direção. Penso que a próxima parada possam ser as convenções partidárias do Estado de Iowa.

Tradutor: UOL

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