Contra depressão, tratamento ilegal com microdose de LSD ganha espaço nos EUA

Alex Williams

  • Justin Kaneps/The New York Times

     Ayelet Waldman, escritora que usou um tratamento ilegal a base de microdoses de LSD

    Ayelet Waldman, escritora que usou um tratamento ilegal a base de microdoses de LSD

Ayelet Waldman, uma romancista e ex-defensora pública federal, lembrou da ensolarada manhã de primavera em que ela saiu da cama em sua casa em Berkeley, na Califórnia (EUA), e experimentou uma curiosa sensação: sentiu-se viva.

Enquanto seu marido, o romancista Michael Chabon, dormia e seus filhos adolescentes tomavam o café da manhã, Waldman não sentiu vestígio da irritação matinal ou da depressão sufocante que a haviam assediado durante meses.

Em vez disso, conta ela, com a animação de uma apresentadora de programa matinal, gorjeou sobre o lindo céu azul e cantarolou músicas alegres enquanto preparava uma vitamina de banana com morango. Até se ofereceu para trançar o cabelo da filha. Tudo era tão estranho que seus filhos se manifestaram.

"Mamãe, você tomou ácido?", perguntou a garota, sarcasticamente.

Waldman congelou. Mas decidiu que ainda não era o momento de dizer "sim".

Waldman tinha descoberto a microdosagem, um regime de drogas ilegal, mas na moda, cujos devotos buscam aumentar a criatividade, o foco e o equilíbrio mental ingerindo doses regulares, quase imperceptíveis, de alucinógenos como LSD ou cogumelos de psilocibina.

Esqueça o "ligue-se, sintonize, caia fora". Para convertidos recentes como Waldman, que narra sua jornada pela microdosagem em um novo livro de memórias, "A Really Good Day: How Microdosing Made a Mega Difference in My Mood, My Marriage, and My Life" ['Um dia realmente bom: como a microdosagem fez uma megadiferença em meu humor, meu casamento e minha vida'], a ser lançado nesta terça-feira (10) pela editora Alfred A. Knopf, é uma nova era psicodélica. Para eles, o LSD é menos um ampliador caleidoscópico da mente que um reforçador de humor, tão sutil e cotidiano quanto o Prozac.

A era da "microdosagem"

Mãe de quatro filhos, com 52 anos, cuja definição habitual de "excesso" é um vinho com água gasosa, Waldman pode parecer uma adepta improvável de uma segunda Era de Aquário. Ultimamente, porém, o tema da microdosagem ganhou força fora dos círculos dos entusiastas por drogas.

Em 2011, James Fadiman, um psicólogo da Área da Baía de San Francisco que foi aluno de Timothy Leary, publicou "The Psychedelic Explorer's Guide: Safe, Therapeutic, and Sacred Journeys" ['O guia do explorador psicodélico: viagens seguras, terapêuticas e sagradas']. Desde então, a microdosagem foi adotada por uma subcultura de pessoas de mentalidade profissional, mas que gostam de forçar os limites do permitido pela lei, como uma espécie de ioga química e ilícita --um regime de saúde alternativo destinado a dar equilíbrio mental, assim como aumentar a produtividade.

Podcasts influentes na internet como "Reply All" e "The Tim Ferriss Show" ajudaram a popularizar o conceito, que pegou no Vale do Silício, onde alguns já eram receptivos à ideia de psicodelismo. Isto pode ser graças a Burning Man, o evento que mistura bacanal com tecnologia realizado anualmente em um deserto em Nevada, assim como às revelações de Steve Jobs sobre suas incursões psicodélicas na juventude.

E a mensagem se espalhou. Um fórum sobre microdosagem em Reddit tem mais de 11 mil inscritos, e a prática foi examinada como uma tendência do dia em publicações tão diferentes quanto "Vice", "Marie Claire" e "Inc.", que tendem a publicar perfis de profissionais anônimos que dizem ter alcançado um "estado de fluxo" intensificado no trabalho por meio dessa prática.

Waldman, entretanto, foi atraída para a microdosagem não tanto como um auxílio profissional, mas como última tentativa de encontrar o equilíbrio mental. Inúmeros remédios vendidos com receita falharam para estabilizar seus transtornos crônicos de humor, incluindo depressão e transtorno bipolar 2, e, mais recentemente, seu transtorno disfórico pré-menstrual, uma forma especialmente perturbadora de síndrome pré-menstrual.

Sua psique tempestuosa, disse ela, estava destruindo seu casamento e despertando ideias de suicídio.

"Eu não fiz isso de repente", disse ela durante uma visita recente a Nova York. "Fiz porque tinha medo de que eu fosse me matar."

Espiral descendente

Vista de fora, tal confissão pode parecer surpreendente, diante da sinceridade de Waldman. Depois de iniciar sua carreira como advogada corporativa em Nova York, e mais tarde trabalhar como defensora pública no sul da Califórnia (ela se formou em direito em Harvard, na mesma classe que Barack Obama, em 1991), Waldman, que nasceu em Israel, assumiu a carreira literária.

Ela publicou sete episódios de sua série "Mommy-Track Mysteries", além de quatro romances, incluindo "Love and Other Impossible Pursuits" [Amor e outras missões impossíveis], que foi adaptada para o filme de Natalie Portman "As Coisas Impossíveis do Amor" (2009).

No entanto, suas mudanças de humor nos últimos anos tinham se tornado tão sérias com as mudanças hormonais da pré-menopausa que ela ficou disposta a tudo, segundo Waldman. Foi então que descobriu o livro de Fadiman. (Ela não quis falar sobre o momento exato de sua incursão na microdosagem, citando preocupações contratuais.)

A ideia por trás da microdosagem é tomar doses regulares "sub-perceptuais" de alucinógenos (no caso do LSD, cerca de 10 microgramas, aproximadamente um décimo de uma dose recreativa normal) a cada quatro dias. Os níveis ingeridos pretendem ser pequenos o suficiente para não provocar alucinações em Technicolor, mas bastante grandes para reforçar a sensação de fluxo mental.

Em uma entrevista, Fadiman disse que centenas de microdosadores que lhe enviaram relatos de suas experiências nesse regime --não se trata de um estudo médico, é claro-- falaram em redução da ansiedade, depressão e até enxaqueca. Outros disseram que tiveram melhoras na criatividade, dieta, sono e sexo.

Uma boa viagem

No primeiro dia do que se tornou um experimento de 30 dias, Waldman colocou duas gotas de cinco microgramas de LSD líquido sob sua língua e esperou.

De início, nada aconteceu. Mas 90 minutos depois ela espiou por uma janela.

"Eu tenho uma árvore de corniso-florido diante da minha janela", disse ela, "que estava florindo, e eu pensei: 'Oh, que árvore linda'." E acrescentou: "Fiquei surpresa, porque não sou do tipo que nota essas coisas. Quando estou na minha própria cabeça, não paro para cheirar as rosas".

Na experiência de Waldman, o dia 2 do ciclo de quatro de Fadiman foi sempre o auge, o dia em que se instalou uma profunda sensação de paz e objetivo.

"O dia 2 é simplesmente suave e incrível", disse ela. "Acho que o dalai lama está em um dia 2 perpétuo."

O bloqueio de criatividade para escrever, que era um antigo problema, parecia ter desaparecido.

"Achei muito mais fácil entrar naquele estado de fluxo criativo que é tão difícil para o escritor", disse Waldman. "A cada ano ou dois acontece de você ter um daqueles dias em que você olha e são 7 da noite e você escreveu o dia inteiro, e parece mágico. Isso me aconteceu diversas vezes naquele mês."

De certa maneira, o efeito foi semelhante ao do Ritalin, o estimulante farmacêutico, mas sem o lado negativo. Com o Ritalin, "eu tinha aquele enfoque de laser com zoom", disse ela. "Fazia meu trabalho, mas também tinha uma dor de cabeça terrível e ficava insuportável."

"A microdosagem", acrescentou ela, "me permitiu trabalhar intensamente com um enfoque descontraído, fazer todas aquelas conexões que eu não faria de outro modo e ter prazer fazendo isso."

Depois de um mês, porém, o vidro secou. Aterrorizada de ser presa, Waldman não comprou ou usou mais a droga.

Às vezes ela se vê pesquisando países que tenham leis mais permissivas sobre drogas, disse ela.

"Quero dizer, veja, eu estou feliz no casamento e não estou morta", disse. "Já me prescreveram muitas medicações ao longo dos anos, e esta funcionou melhor que qualquer uma delas." 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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