Enquanto Trump nega a mudança climática, crianças morrem de fome na seca africana

Nicholas Kristof

Em Tsihombe (Madagáscar)

  • Reprodução/Facebook

Ela é apenas uma mãe assustada, temendo pela segurança de seu filho e certamente não dá atenção para a política americana (ela nunca ouviu falar do presidente Barack Obama ou de Donald Trump).

E quanto aos Estados Unidos? Ranomasy, que vive em uma aldeia isolada na ilha de Madagáscar, além da costa no sul da África, balança a cabeça. Ela não sabe nada a respeito.

Mas os americanos podem estar inadvertidamente matando o filho pequeno dela. A mudança climática, causada desproporcionalmente pelas emissões de carbono dos Estados Unidos, parece estar por trás de uma seca severa que fez plantações murcharem em sete países no sul da África. O resultado é uma desnutrição aguda para 1,3 milhão de crianças na região, segundo a Organização das Nações Unidas.

Trump zomba continuamente da mudança climática, até mesmo a chamando certa vez de uma farsa inventada pela China. Mas a mudança climática aqui é tão palpável quanto suas vítimas. Trump deveria vir aqui e sentir as costelas destas crianças e vê-las lutando para sobreviver. É verdade que os elos entre nossas emissões de carbono e uma seca específica não são claros, mas no geral, a mudança climática é tão palpável quanto o olhar vitrificado de uma criança morrendo de fome. Como o filho de 18 meses de Ranomasy, Tsapasoa.

A seca e a crise alimentar no sul da África passaram em grande parte despercebidas por todo o mundo. A situação é particularmente severa em Madagáscar, uma ilha-nação adorável conhecida por praias arenosas desertas e pelos divertidos primatas de rabos longos, os lêmures.

Mas o sul da ilha não se parece nada com o desenho animado "Madagáscar": as famílias estão morrendo lentamente de fome pela falta de chuvas e fracasso das plantações nos últimos dois anos. Elas estão reduzidas a comer cactos e até mesmo pedras e cinzas. A ONU estima que quase 1 milhão de pessoas apenas em Madagáscar necessitam de assistência alimentar emergencial.

Eu conheci Ranomasy em uma estação emergencial de alimentação dirigida por freiras católicas, que estavam tentando salvar o bebê dela. Ranomasy carregou Tsapasoa em uma caminhada de 12 horas pelo deserto para chegar até as freiras, e o fez descalça, porque a maioria dos aldeões já vendeu tudo o que tinha, de calçados a colheres, para sobreviver.

"Eu me sinto impotente como mãe, porque sei o quanto amo meu filho", ela disse. "Mas tudo o que estou fazendo não é suficiente."

A seca também é severa em Lesoto, Maláui, Moçambique, Suazilândia, Zâmbia e Zimbábue, e uma seca relacionada devastou o leste da África e o Chifre da África, que deve continuar neste ano. O Programa Mundial de Alimentação da ONU tem feito apelos urgentes por assistência, mas apenas metade do dinheiro necessário foi doada.

A causa imediata das secas foi um evento El Niño extremamente quente, que se somou a uma tendência maior mais seca nas últimas décadas em partes da África. Nova pesquisa, recém-publicada no boletim da Sociedade Meteorológica Americana, conclui que a mudança climática causada pelo homem exacerbou a intensidade do El Niño e reduziu significativamente as chuvas em partes da Etiópia e do sul da África.

Os pesquisadores concluíram que as contribuições humanas ao aquecimento global reduziram o escoamento de água no sul da África em 48% e concluíram que essas contribuições humanas levaram a "crises alimentares substanciais".

Como americano, me orgulho ao ver a assistência americana salvando vidas aqui. Se não fosse pela Usaid (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) e por grupos sem fins lucrativos, como os Serviços de Auxílio Católicos, que trabalham nessas aldeias, muito mais cadáveres estariam se acumulando. Mas meu orgulho é misturado com culpa: os Estados Unidos sozinhos são responsáveis por mais de um quarto das emissões mundiais de dióxido de carbono ao longo dos últimos 150 anos, mais que o dobro que qualquer outro país.

A injustiça básica é que os países ricos produzem o carbono que está devastando povos pobres de Madagáscar a Bangladesh. Nos Estados Unidos, a mudança climática custa às famílias suas casas de praia; nos países pobres, os pais perdem seus filhos.

Em uma aldeia em Madagáscar que visitei, os aldeões costumavam tirar água de um poço a três horas de caminhada de distância, mas então ele secou. Agora, eles caminham três horas e então compram água de um homem que a traz de caminhão. Mas eles quase não têm dinheiro. Nenhuma das crianças na aldeia jamais tomou um banho.

As famílias nessa região tradicionalmente criam gado, mas muitas venderam seus rebanhos para comprar comida para sobreviver. A pressão das vendas fez o preço de uma vaca cair de US$ 300 para menos de US$ 100. As famílias também estão tirando seus filhos da escola para que saiam à procura de plantas comestíveis. Em uma aldeia que visitei, menos de 15% das crianças estão frequentando o ensino primário neste ano.

Uma das crianças que abandonaram a escola é Fombasoa, que deveria estar na terceira série, mas agora passa seus dias no deserto procurando por pitaias-vermelhas (frutos de cactos) silvestres. A família de Fombasoa também está pronta para casá-la, apesar de ela ter apenas 10 anos, porque assim seu marido é quem seria responsável por alimentá-la.

"Se eu puder encontrar um marido para ela, a casarei", disse o pai dela, Sonjona, que, como muitos aldeões, tem apenas um nome. "Mas atualmente, não há nenhum homem que a queira", porque ninguém pode arcar com o preço de uma noiva, que é de cerca de US$ 32 (cerca de R$ 103).

Sonjona sabe que é errado casar uma menina de 10 anos, mas também sabe que é errado ver sua filha morrer de fome.

"Sinto desespero", ele disse. "Não me sinto mais como um homem. Antes eu tinha músculos; agora, tenho só ossos. Sinto culpa porque meu trabalho era cuidar dos meus filhos, mas agora eles só têm pitaias-vermelhas."

Outras famílias me mostraram como pegam pedras calcárias no solo, as moem em pó e o cozinham em sopa. "Ao menos enche nosso estômago", explicou Limbiaza, uma mulher de 20 anos de uma aldeia remota. À medida que fica mais difícil encontrar pedras calcárias, algumas famílias comem cinzas de velhas fogueiras para cozinhar.

Os cientistas costumavam pensar que o horror da fome era principalmente o da morte de crianças. Agora entendem que há um impacto mais amplo: quando as crianças no útero e nos primeiros anos de vida são desnutridas, seus cérebros não se desenvolvem de modo apropriado. Como resultado, eles podem sofrer permanentemente de problemas cerebrais.

"Se as crianças não recebem a nutrição e atenção necessárias nos primeiros 1.000 dias, é muito difícil recuperarem o atraso", notou Joshua Poole, o diretor para Madagáscar da Serviços de Ajuda Católicos. "Deficiência nutricional nesse período crítico impede a criança de atingir seu potencial mental pleno."

Ao longo do próximo meio século, veremos alunos aprendendo menos na escola e economias enfrentado dificuldades porque, em 2017, permitimos que mais de um milhão de crianças ficassem desnutridas aqui no sul da África, danos colaterais de nosso modo de vida intensivo em carbono.

O povo em dificuldades em Madagáscar está preso entre seu próprio governo corrupto e ineficaz, que nega a escala da crise, e governos estrangeiros que não querem coibir as emissões de carbono.

Independente do que for feito para limitar o aumento do carbono, os problemas climáticos ainda piorarão por décadas. Aqueles de nós no mundo rico que emitiram grande parte do carbono têm uma responsabilidade especial em ajudar pessoas como essas em Madagáscar que são, simultaneamente, as menos responsáveis pela mudança climática e as mais vulneráveis a ela.

Os desafios não são impossíveis de superar e vi programas aqui que funcionam. O Programa Mundial de Alimentação dirige programas de merenda escolar que fazem uso de voluntários e, ao preço de US$ 0,25 por criança por dia, dão às crianças uma refeição diária gratuita que impede a fome e cria um incentivo para manutenção das crianças na escola.

Nós precisamos desses esforços de ajuda emergencial e vigilância constante para intervir cedo, e assim impedir a fome, mas também podemos fazer mais para ajudar a população local a ajudar a si mesma.

A Serviços de Ajuda Católicos fornece ajuda alimentar de emergência, mas também promove sementes de variedades resistentes à seca e mostra aos agricultores próximos da costa como pescar. Também está trabalhando com cientistas americanos em novas tecnologias para fornecimento de água em Madagáscar, usando condensação ou dessalinização em pequena escala.

A tecnologia americana ajudou a criar o problema e seria bacana vê-la sendo usada mais agressivamente para reduzir o fardo sobre as vítimas.

Para mim, a visão mais dolorosa nesta viagem foi a de dois meninos passando fome perto da ponta sul de Madagáscar. Os pais deles são refugiados climáticos que partiram da aldeia para tentar encontrar uma forma de sobreviver, deixando os meninos aos cuidados de uma tia, apesar de ela não ter comida suficiente para suas próprias filhas.

Eu conheci os meninos, Fokondraza, 5 anos, e Voriavy, 3, à noite, e eles disseram que até o momento naquele dia, eles ainda não tinham comido ou bebido nada (o poço mais próximo, produzindo água levemente salgada, fica a várias horas de caminhada, e carregar um balde de água se torna ainda mais difícil quando todos são anêmicos e desnutridos). A tia deles, Fideline, estava começando a preparar a refeição do dia.

Ela fez um cacto em pedaços, arrancou os espinhos e os ferveu brevemente, e os meninos então os comeram, apesar de ser pouco nutritivo.

"Meu coração está partido porque não tenho nada para dar para eles", disse Fideline. "Não tenho escolha."

À noite, os meninos às vezes choram de fome, ela disse. Mas isso é um bom sinal. Quando uma pessoa está próxima de morrer de fome, o corpo desativa qualquer emoção, tornando-se como um zumbi, já que cada caloria é usada para manter o coração e os pulmões funcionando. São as crianças que não choram, quietas e sem expressão, que estão sob maior risco, e os dois meninos estão ficando cada vez mais assim.

Não vou fingir que os elos entre a mudança climática e esta crise alimentar são simples ou que as soluções são claras. Eu voei por meio mundo e então dirigi por dois dias para chegar a essas aldeias, expelindo carbono o caminho todo.

Mas sabemos o que ajudará em longo prazo: cumprirmos o acordo de Paris para limitação do aquecimento global, assim como o Plano de Energia Limpa do presidente Barack Obama. Também devemos estabelecer um preço para o carbono e investir mais em pesquisa em energia renovável.

Em curto e médio prazo, temos que aumentar a assistência aos refugiados do clima e aos sofredores, tanto fornecendo ajuda humanitária quanto auxiliando na adoção de novas formas de ganhar a vida que estejam ajustadas às novas realidades climáticas. (Para os indivíduos que querem ajudar, a organização mais ativa nas áreas que visitei é a Serviços de Ajuda Católicos, que aceita doações em www.crs.org/help-madagascar.)

O ponto de partida mais básico é o presidente eleito dos Estados Unidos reconhecer o que até mesmo aldeões iletrados de Madagáscar entendem: a mudança climática é real.

Ao anoitecer, eu disse a Fideline que havia um homem poderoso chamado Trump a meio mundo de distância, em um país do qual ela nunca ouviu falar, que poderia ter algum impacto, daqui muitos anos, sobre o clima daqui. Eu perguntei a ela o que ela gostaria de dizer a ele.

"Eu pediria que fizesse o que pudesse para que eu possa voltar a cultivar mandioca, milho, feijão-de-corda e sorgo", ela disse. "Estamos desesperados."

Sr. presidente eleito, está ouvindo?

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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