Opinião: Interferência russa já maculou a presidência de Trump

Charles M. Blow

  • Don Emmert and Natalia Kolesnikova/AFP

Quanto mais descobrimos sobre o hackeamento feito pela Rússia e a divulgação de sua pilhagem eletrônica durante nossa eleição presidencial, mais claro fica que a vitória de Donald Trump e sua iminente presidência já estão corrompidas de forma irrecuperável.

Embora os hackeamentos russos "não estivessem envolvidos na contagem dos votos", a publicação de e-mails roubados e a difusão de notícias falsas alteraram o zeitgeist, envenenaram o ambiente político e fizeram a opinião pública mudar, e tudo isso teve consequências em benefício de Trump.

Trump é tanto uma nomeação da Rússia quanto nosso executivo eleito. O legado de sua ascensão política será escrito em cirílico e cercado de dúvidas.

Não deixem que isso seja enterrado pelo blá-blá-blá dos comentaristas políticos: uma potência estrangeira hostil roubou correspondência confidencial dos cidadãos americanos—não há diferença entre isso e arrombar fisicamente um escritório americano e sair levando caixas de cartas—e encaminhou esse material roubado para um conspirador voluntário, Julian Assange. A potência estrangeira conquistou então seu resultado desejado no dia de nossas eleições.

Esse foi um ato de guerra e nossa presidência foi o espólio.

Isso não quer dizer que parte do que foi revelado sobre os democratas nos e-mails hackeados não fosse perturbador. Foi, embora a maior parte dos e-mails simplesmente mostrasse detalhes insossos dos bastidores. O que tornou os vazamentos suspeitos foi a absoluta assimetria dos alvos: só democratas.

Putin ajudou a derrotar uma mulher, Hillary Clinton, que prometia ser uma firme adversária e ajudou a subir, em seu lugar, um troglodita grosseiro que de alguma forma acredita que a cobra que se enrola em volta de você só está lhe dando um abraço, e que soava tão pró-Vladimir Putin que só faltou mandar beijos para o Kremlin.

Na sexta-feira, agentes da inteligência divulgaram um relatório condenatório sobre o hackeamento russo que dizia: "Avaliamos que o presidente russo Vladimir Putin ordenou uma campanha de influência em 2016 voltada para a eleição presidencial dos Estados Unidos. Os objetivos da Rússia eram minar a confiança do público no processo democrático americano, denegrir a secretária Clinton e prejudicar sua elegibilidade e potencial presidência. Avaliamos também que Putin e o governo russo desenvolveram uma clara preferência pelo presidente eleito Trump."

No mesmo dia, Trump foi informado sobre o hackeamento por agentes da inteligência, e depois disso divulgou uma declaração incrédula alegando que "não houve absolutamente nenhum efeito sobre o resultado da eleição."

(Ironicamente, calhou de isso ser no mesmo dia em que uma sessão conjunta do Congresso realizou de forma indiferente seu dever de contar os votos dos Colégios Eleitorais e verificar a vitória de Trump.)

Não, senhor. Trump, como de costume, suas declarações vão bem além do que você pode provar. Um impacto que não pode ser medido não é o mesmo que um impacto que não existe. A questão não é "se", mas "quanto"; não a existência do impacto, mas até que ponto esse impacto foi determinante.

A comunidade da inteligência não disse que o hackeamento russo "não teve efeitos sobre o resultado da eleição", mas declarou bem claramente: "Não fizemos uma avaliação do impacto que as atividades russas tiveram sobre o resultado da eleição de 2016. A Comunidade da Inteligência dos EUA é encarregada de monitorar e avaliar as intenções, capacidades e ações de atores estrangeiros; ela não analisa os processos políticos dos EUA ou a opinião pública dos EUA."

Você distorce a verdade como um fio de lã preso em um ventilador. Mas, em algum momento, você e cada cidadão deste país precisarão enfrentar o fato de que você não foi só eleito, mas também colocado, e que sua vitória estará para sempre envolvida pela fita amarela da cena de um crime internacional.

Então não é de se espantar que você tenha sistematicamente tentado denegrir qualquer investigação sobre esse ato de guerra cibernética que o relatório da inteligência chamou de "sem precedentes". Você desdenhou das nossas agências de inteligência—você tuíta "inteligência" entre aspas da mesma forma que deveríamos usar aspas em torno da palavra "presidente" antes de seu nome—e você continuou com seu ataque à imprensa.

Na sexta-feira, Trump disse a meu colega Michael Shear que o foco no hackeamento era o mesmo que "uma caça às bruxas política". Errado de novo. É uma caça à verdade. Além disso, a única pessoa que foi alvo de uma caça às bruxas nesta eleição se chamava Hillary.

Sim, como você repetidamente exclamou antes da votação, a eleição foi armada, não por uma fraude generalizada de eleitores, como você falsamente sugeriu, mas sim por uma disseminação generalizada de informações obtidas de forma fraudulenta. Não é coincidência o fato de que o WikiLeaks tenha começado a divulgar os e-mails de John Podesta somente uma hora depois que veio à tona a nojenta fita de Trump no programa "Access Hollywood" dizendo "pegue-as pela xoxota".

Sr. Trump, sua vitória foi corrompida; sua legitimidade está sendo questionada, com razão. O povo americano depositou seus votos sob a névoa de notícias falsas e influenciado por propriedades roubadas transformadas em ferramenta de propaganda.

Algumas pessoas podem hesitar em dizer que a presidência dos Estados Unidos foi roubada, mas é irrefutável que a integridade de nosso processo democrático foi danificada, quando a santidade do que considerávamos uma autodeterminação imaculada foi atacada.

Donald Trump é o "presidente" americano de Vladimir Putin, sendo claramente sua preferência e possivelmente um produto seu.

Tradutor: UOL

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