Sonhos de art déco se esvanescem no coração do Brasil

Simon Romero

Em Goiânia

  • Simon Romero/The New York Times

    O Grande Hotel é um dos sobreviventes da arquitetura art déco em Goiânia

    O Grande Hotel é um dos sobreviventes da arquitetura art déco em Goiânia

Em uma visita recente a Goiânia, agitada cidade conhecida por sua influência no cinturão agrícola do Brasil, eu não esperava me deparar com joias do art déco. Mas lá estavam, entre amplos parques, praças e avenidas arborizadas: uma estação de trem, um teatro, um palácio e alguns prédios do governo.

No entanto, essa grandiosidade dos anos 1930—quando Goiânia foi fundada como um exemplo de cosmopolitismo vanguardista no interior do Brasil—se esvaneceu. Prédios históricos foram demolidos para abrir caminho para torres genéricas, e muitas estruturas foram tomadas por pichações.

Alguns brasileiros desprezam Goiânia, distante de São Paulo e do Rio de Janeiro, da mesma forma que os americanos consideram inexpressivos seus Estados do meio-oeste. Mas a agricultura e a pecuária geram boa parte da riqueza do país e têm influenciado a cultura brasileira nos últimos tempos, ainda que a região às vezes negligencie sua própria história, complexa e sofisticada.

Simon Romero/The New York Times
Motoristas passam por gazebo em Goiânia

Os criadores de Goiânia idealizaram a cidade como um posto avançado de civilização antecedendo a chamada Marcha para o Oeste, que começou em 1940 e priorizou a colonização do vasto interior do Brasil. Brasília, a capital federal futurista inaugurada em 1960, talvez tenha sido o exemplo máximo dessa investida.

Goiânia parece ter sido idealizada pelo arquiteto pioneiro Attilio Corrêa Lima para ter um ar mais convidativo do que o modernismo austero de Brasília. A cidade mantém o mesmo coreto do início dos anos 1940, quando Goiânia era planejada para somente 50 mil habitantes.

Mais de 1,4 milhão de pessoas vivem hoje em Goiânia, que vem emergindo como um bastião das visões conservadoras que estão remodelando a política brasileira. Com suas churrascarias cavernosas e casas de sertanejo universitário, Goiânia exemplifica as aspirações pecuaristas de boa parte do coração do Brasil.

Alguns marcos históricos resistem, ainda que abandonados e cobertos de pichações, como o Grande Hotel.

A Fotografica/Casa Abalcoada/The New York Times
Foto sem data do gazebo em Goiânia

O antropólogo francês Claude Lévi-Strauss ficou hospedado no hotel em 1937, descrevendo-o como "um paralelepípedo de cimento, que lembra um terminal de aeroporto ou um pequeno forte; ele poderia ter sido chamado de bastião da civilização".

Em sua celebrada obra "Tristes Trópicos", Lévi-Strauss questiona por que os líderes do Brasil estavam "agarrando o deserto" para construir a cidade em vez de se adequarem à charmosa antiga capital do Estado, Goiás Velho, fundada em 1727.

O que ele pensaria hoje de Goiânia, com as incorporadoras demolindo edifícios em art déco, e substituindo-os pelos espigões genéricos que têm ocupado cidades de todo o Brasil?

À sombra dessas torres em Goiânia, tive um vislumbre de como o Brasil está mudando. Antigamente os brasileiros iam buscar inspiração na França, o berço do art déco.

Mas enquanto eu caminhava por Goiânia, deparei-me com estabelecimentos como o China Construction Bank, algo que reflete os laços comerciais que conectam o cinturão agrícola do Brasil com a economia global.

Simon Romero/The New York Times
A estátua do bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva foi inaugurada em Goiânia em 1942

Na mesma rua, não paravam de chegar clientes à espalhafatosa Churrascaria Detroit. O restaurante não parecia estar se esforçando para ser associado à cidade americana conhecida por sua decadência (e, sim, por seu renascimento), mas sim à aura positiva e dinâmica que os Estados Unidos ainda guardam para muitas pessoas no centro-oeste do Brasil.

Ainda assim, eu não conseguia deixar de imaginar como seria a cara de Goiânia se ela tivesse preservado mais de suas primeiras criações arquitetônicas. Talvez ela lembrasse Asmara, capital da fechada Eritreia no Chifre da África, conhecida por seus bem preservados tesouros em art déco construídos por colonizadores italianos nos anos 1930? Ou seria como uma Miami Beach nas savanas do Brasil?

Seja como for, Goiânia, com seus somente 80 anos de idade, ainda tenta agarrar um pouco de história. O nome oficial da praça principal no centro da cidade é Corrêa Lima, em homenagem ao arquiteto. Mas a maioria das pessoas a chamam de Praça do Bandeirante, referência aos exploradores de São Paulo que se embrenhavam pelo sertão caçando escravos.

O Brasil estava buscando por mitos em 1942 quando as autoridades inauguraram a estátua de Bartolomeu Bueno da Silva, um bandeirante do século 18. Até hoje ele é mais conhecido como Anhanguera, ou "Diabo Velho" em tupi, um nome que evoca os métodos brutais que os conquistadores usavam para se apossar de terras sobre as quais Goiânia foi construída.

Tradutor: UOL

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