Imigrantes seguem para Washington para protestar enquanto Obama ainda está lá

Liz Robbins

  • Joshua Bright/The New York Times

    Ninaj Raoul, diretora-executiva do grupo Haitian Women for Haitian Refugees, em seu escritório no Brooklyn

    Ninaj Raoul, diretora-executiva do grupo Haitian Women for Haitian Refugees, em seu escritório no Brooklyn

Nove ônibus cheios de ativistas imigrantes do Brooklyn, Queens e Long Island partirão antes do amanhecer para uma viagem a Washington, com a intenção de que suas vozes sejam ouvidas. Eles tocarão músicas de protesto e carregarão cartazes e bandeiras, do arco-íris às cores desbotadas do Haiti.

Mas não participarão da mais conhecida Marcha das Mulheres a Washington, planejada para 21 de janeiro, um dia após a posse de Donald Trump.

Em vez disso, eles seguirão para a capital do país neste sábado (14), para uma manifestação mais modesta focada nos direitos dos imigrantes, chamada Estamos Aqui para Ficar, com previsão de início às 11h da manhã na Igreja Episcopal Metodista Africana Metropolitana.

Para esses grupos, há um motivo prático, se não urgente, para a realização da manifestação em 14 de janeiro. Barack Obama ainda será o presidente.

"Como organizadora, o dia 14 é uma data ainda considerada segura para mobilização de pessoas em Washington", disse Natalia Aristizabal, da Make the Road New York (Crie a Estrada Nova York), uma das patrocinadoras do evento. "Não sabemos o que acontecerá depois da posse."

Organizadores nacionais e locais disseram estar preocupados com a possibilidade de manifestantes sem documentos serem presos durante o novo governo, especialmente considerando que Trump disse que planeja deportar entre 2 milhões a 3 milhões de imigrantes ilegais, que segundo ele possuem antecedentes criminais.

Cristina Jiménez, a diretora executiva da United We Dream (Unidos Sonhamos), a organização nacional que está promovendo os interesses dos jovens sem documentos conhecidos como sonhadores, chamou a ameaça às comunidades imigrantes de "iminente" e acrescentou: "Para ser franca. tememos pelo pior".

Isso não quer dizer que os imigrantes evitarão a marcha das mulheres. Algumas organizações, como a United We Dream e a New York Immigration Coalition (Coalizão pela Imigração de Nova York), são parceiras em ambas, assim como há outras intersecções.

A Associação Árabe-Americana de Nova York, que é liderada por Linda Sarsour, também é patrocinadora da Marcha das Mulheres, da qual Sarsour é uma das principais organizadoras.

Demetrius Freeman/The New York Times
Membros da New York Immigration Coalition preparam cartazes e pôsteres para protesto em Washington

Parte da declaração de missão da Marcha das Mulheres pede pela presença de "imigrantes de todos os status", mas aquele evento tem uma plataforma maior que inclui questões de igualdade salarial, direitos reprodutivos e segurança contra violência doméstica.

Os organizadores da manifestação de imigrantes disseram que seus protestos visam acentuar os grupos díspares que compõem seu movimento, e que representam os estimados 11 milhões de imigrantes ilegais que vivem nos Estados Unidos.

"É da comunidade imigrante, das pessoas de cor, envolve mais do que pessoas que são de primeira geração", disse Muzna Ansari, 28 anos, gerente de políticas de imigração da New York Immigration Coalition.

Filha de imigrantes indianos, ela é muçulmana. "Também é um momento de conexão. Há imigrantes negros sobre os quais não falamos."

Ninaj Raoul, fundadora e diretora executiva da Mulheres Haitianas por Refugiados Haitianos, disse que viu o movimento dos direitos dos imigrantes se concentrar na ultraorganizada comunidade latina desde a eleição de 2012.

Mas os imigrantes negros, que apresentam menor probabilidade de serem ilegais, também possuem suas próprias questões urgentes, ela disse.

"Agora, mais do que nunca, é importante que a voz haitiana seja ouvida neste movimento", disse Raoul. "Não apenas pelo novo governo, com o qual temos muitas razões para nos preocuparmos, mas também pelo atual governo, devido às ações que tomou em relação aos imigrantes haitianos."

Ao longo dos últimos meses, mais de 80 imigrantes haitianos procuraram o escritório dela no Brooklyn à procura de ajuda, ela disse, angustiados com a mudança da política americana, que os deixou separados de seus familiares. E aqueles que vivem na cidade devido à proteção temporária concedida após o terremoto de 2010 em seu país, que não sabem por quanto tempo ela durará.

Imigrantes do Haiti têm seguido em grande número para a fronteira sul do México desde o primeiro semestre do ano passado, muitos fazendo jornadas perigosas por nove países após fugirem da América do Sul.

Em setembro, o governo Obama deteve haitianos na fronteira americano-mexicana que chegavam sem vistos e ordenava deportações. Algumas mulheres grávidas e mães com filhos recebiam uma autorização temporária humanitária, mas seus maridos eram deportados.

Após a passagem do furacão Matthew no início de outubro, o governo adiou a deportação dos haitianos, mas então a retomou em novembro.

Demetrius Freeman/The New York Times
Membros da New York Immigration Coalition preparam cartazes e pôsteres para protesto em Washington


Para os haitianos que vivem nos Estados Unidos com proteção temporária concedida após o terremoto, esse status deverá expirar em julho. Raoul disse que devido ao furacão Matthew ter causado perdas nos estoques de alimentos, esses haitianos não sabem se podem retornar.

Assim, os imigrantes haitianos estão seguindo para Washington para apelar para Obama enquanto ainda podem.

Eles desejam que ele faça uso de uma ação executiva (algo semelhante a uma medida provisória no Brasil) para conceder aos imigrantes haitianos na fronteira sul a permissão para entrada temporária nos Estados Unidos em caráter humanitário, e estender as proteções temporárias por mais 18 meses.

Raoul planeja levar 10 imigrantes haitianos e a bandeira do país deles a Washington. Eles tomarão o ônibus no Sunset Park juntamente com 55 jovens representando a Atlas: DIY, que atende os jovens imigrantes sem documentos no bairro.

Michelina Ferrara, a vice-diretora da Atlas, planeja tocar seu "playlist revolucionário", com artistas de rhythm and blues e hip hop, tanto nos alto-falantes dos ônibus quanto em seu som portátil.

Para aqueles que não viajarão a Washington em 14 de junho, ações em prol dos imigrantes também são planejadas em 50 outras cidades. A New York Immigration Coalition dará início a uma campanha por todo o Estado chamada Esta é Nossa Nova York, com eventos na Union Square; em Hempstead, Long Island; e no Hudson Valley.

Kathia Gutierrez, 48 anos, e sua filha, Kathya, 29, estarão em Washington. Elas chegaram há 16 anos da Bolívia. Kathya trabalha como babá, economizando dinheiro para a faculdade; ela pode trabalhar legalmente, devido ao programa de Obama que dá certos direitos a imigrantes ilegais que foram trazidos ainda crianças ao país por seus pais.

Kathia, sua mãe, é uma ativista da Make the Road New York e irá para Washington para transmitir uma mensagem ao presidente eleito Trump: "Dê atenção a nossos jovens".

Elas estarão acompanhadas de outros que lutam por seus próprios subconjuntos de direitos dos imigrantes, incluindo Alexis Pampillón, 44 anos, um imigrante argentino que se identifica como não conformista de gênero. Ele e outros 20 membros do grupo de direitos LGBTQ da Make the Road sairão do Queens.

Os membros da Make the Road, provenientes de lugares que incluem Bridgeport, Connecticut; Elizabeth, Nova Jersey; e Pensilvânia, lotarão oito ônibus. Nem todos caberão na igreja em Washington, que tem capacidade de cerca de 2.500 pessoas. Mais de 3.000 manifestantes são esperados, disseram os organizadores.

Alguns, disse Aristizabal, da Make the Road, permanecerão do lado de fora com cartazes em espanhol e em inglês: "Estamos aqui para ficar".

Esse slogan é familiar, ela disse, acrescentando: "Mas nunca foi tanto uma declaração de desafio".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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