Opinião: Populistas de Trump e republicanos tradicionais duelarão para ditar política externa

David Brooks

  • Robyn Beck/AFP

    19.jul.2016 - Placa com os dizeres "Torne a América segura de novo" durante a convenção republicana em Cleveland que oficializou Trump como candidato

    19.jul.2016 - Placa com os dizeres "Torne a América segura de novo" durante a convenção republicana em Cleveland que oficializou Trump como candidato

Está ficando claro que nos próximos anos a política externa dos EUA será moldada pela luta entre os republicanos habituais, os etno-nacionalistas populistas e as forças do caos perpétuo desencadeadas pelo deficit de atenção do presidente-eleito Donald Trump.

Os republicanos habituais constroem suas grandes estratégias sobre a ordem internacional pós-Segunda Guerra Mundial --as alianças, normas e organizações lideradas pelos EUA que unem as democracias e preservam a paz global. Os habituais buscam preservar e ampliar essa ordem, e veem o presidente Vladimir Putin, da Rússia, como um lobo que a ataca.

Os etno-nacionalistas populistas na Casa Branca de Trump não acreditam nessa ordem. Sua crítica --que é ao mesmo tempo moral, religiosa, econômica, política e racial-- é bem resumida nos comentários que Steve Bannon, o futuro conselheiro-mor de Trump, fez em uma conferência do Vaticano em 2014.

Um dia, houve uma série de Estados-nações judaico-cristãs, afirmou Bannon, que praticavam uma forma humana de capitalismo bíblico e promoviam comunidades culturais coerentes. Mas nas últimas décadas a festa de Davos --com seu globalismo, relativismo, pluralismo e diversidade-- desgastou as fundações desse modo de vida judaico-cristão.

O capitalismo humano foi substituído pelo capitalismo selvagem que nos trouxe a crise financeira. A democracia nacional foi substituída por uma rede de elites globais pró-capitalistas. A virtude tradicional foi substituída pelo aborto e o casamento gay. Estados-nações soberanas estão sendo substituídas por organizações multilaterais ineficazes como a UE.

Decadente e nervoso, o Ocidente se vê vulnerável diante de um islamo-fascismo confiante e convicto, que é a ameaça cósmica do nosso tempo.

Nessa visão, Putin é um aliado valioso exatamente porque também busca substituir a ordem global multirracial e multilíngue por Estados-nações fortes. Putin defende com ardor os valores tradicionais. Ele sabe liderar a luta contra o islamismo radical.

Na verdade, é interessante ler o ideólogo de Trump, Bannon, ao lado do ideólogo de Putin, Alexander Dugin. É como voltar ao século 20 e ler duas versões do marxismo.

AFP PHOTO / GETTY IMAGES / Drew Angerer
Steve Bannon, que será estrategista-chefe e conselheiro sênior de Trump

Uma é americano-cristã e a outra russo-ortodoxa, mas ambas têm teorias grandiosas e abrangentes da história mundial, ambas acreditam que estamos em um choque de civilizações apocalíptico, ambas combinam de forma inconsútil análises econômicas, morais e políticas.

Ambas se consideram parte de um movimento internacional populista de frouxa afiliação, que inclui a Frente Nacional na França, Nigel Farage no Reino Unido e muitos outros. Dugin escreveu de modo positivo sobre Trump no último inverno, e Bannon referiu-se a Dugin em seus comentários no Vaticano.

"Devemos criar alianças estratégicas para derrubar a atual ordem das coisas", escreveu Dugin, "cujo núcleo pode ser descrito como direitos humanos, anti-hierarquia e correção política --tudo o que é a face da Besta, o Anticristo".

"Nós, o Ocidente judaico-cristão, realmente temos de ver o que (Putin) está falando sobre até onde vai o tradicionalismo", disse Bannon, "especialmente o sentido de onde ele reforça os esteios do nacionalismo."

O relatório da inteligência da semana passada sobre os hackers russos levou os republicanos habituais, como os senadores John McCain, do Arizona e Lindsey Graham da Carolina do Sul, a um conflito direto com os etno-nacionalistas populistas. Trump se plantou firmemente no último lado e arrastou consigo a Fox News e um número surpreendente de congressistas republicanos.

Se Trump fosse tão eficaz quanto Putin, provavelmente veríamos uma mudança radical na grande estratégia dos EUA, um afastamento do consenso global do pós-guerra na direção de uma aliança com vários movimentos populistas de direita que fervilham em todo o mundo.

Mas Trump não é Putin. Putin é teológico e cínico, disciplinado e calculista, experiente e informado. Quando Bannon, Michael Flynn e outros tentam transformar Trump em um presidente revolucionário em política externa, estão colocando todo o establishment de política externa sob um líder que pode simpatizar com eles, mas é desatento, imprevisível e basicamente desinteressado de qualquer coisa além de sua própria situação no momento.

Pessoalmente, aposto que o aparelho de política externa, incluindo os secretários de Estado e da Defesa, vai moer os populistas que cercam Trump. Atritos vão explodir dentro das linhas de autoridade insanamente confusas na Casa Branca. Trump descobrirá que gosta de estar com o establishment global do mesmo modo que gostou de ter os Clinton em seu casamento. No cargo, ele não conseguirá se fixar no grupo Estado Islâmico, mas enfrentará uma tempestade de problemas, e assim ficará dependente das instituições estabelecidas.

O resultado poderá ser um milhão de tuítes surpreendentes, mas substancialmente nenhuma mudança estratégica fundamental --uma elaboração de políticas que não será péssima, mas também não será boa.

A batalha maior é sobre ideias, se o Partido Republicano como um todo se tornará um partido etno-populista como a Frente Nacional ou o Ukip. Nessa luta, os populistas poderão se sair melhor. Há algo malignamente forçoso em sua ideologia, que lembra o marxismo em seus primeiros tempos. Há algo flácido no globalismo, que está desespiritualizado e que realmente não tem uma resposta para nossos problemas culturais e econômicos.

Em suma, desconfio que Steve Bannon não conseguirá conter o cérebro peripatético de Trump. Mas ele poderá ter mais influência na próxima geração. 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos