Prisão de líder rebelde eleito para o Senado agita o Haiti

Frances Robles

Em Miami (EUA)

  • Meridith Kohut/The New York Times

    Guy Philippe em seu vilarejo natal, Pestel, no Haiti

    Guy Philippe em seu vilarejo natal, Pestel, no Haiti

Até mesmo segundo os padrões dos rebeldes haitianos, Guy Philippe agia de forma bastante confiante para um homem na lista de narcotraficantes procurados da Agência de Combate às Drogas (DEA, na sigla em inglês) americana.

Ele circulou publicamente por uma repartição pública na semana passada para pegar seu certificado confirmando sua eleição ao Senado haitiano, um documento que ele achou que lhe ofereceria a imunidade legal que tanto ansiava. Mais tarde no mesmo dia, ele apareceu sem ser anunciado na emissora de rádio Scoop FM fora da capital, Porto Príncipe.

"Nós interrompemos o programa, o cumprimentamos e permitimos que falasse por 47 minutos", disse Gary Pierre Paul Charles, o presidente-executivo da emissora.

Então, após o término da entrevista, um investigador disfarçado fingiu oferecer a Philippe um abraço amistoso, mas então apontou seu revólver contra sua barriga e o algemou. Uma falange de policiais cercou a emissora fazendo disparos de advertência, que puderam ser ouvidos no ar.

Antes que o avião que o levaria aos Estados Unidos decolasse, membros da Polícia Nacional Haitiana e agentes da DEA pararam para posar para fotos alegres.

Após fracassarem repetidas vezes em trazer Philippe sob custódia ao longo de anos, as autoridades americanas finalmente conseguiram trazer um de seus suspeitos haitianos mais procurados.

Mas apesar de Philippe já ter sido um dos líderes rebeldes mais temidos na história haitiana recente, ele também é uma espécie de herói populista, particularmente em sua região natal no sudoeste do país.

Assim, a prisão histórica rapidamente provocou caos nas ruas do Haiti e está complicando ainda mais a relação já tensa do país com os Estados Unidos.

Quase imediatamente, muitos membros do Parlamento haitiano questionaram a legalidade de extradição de um homem de seu próprio país sem ao menos a realização de uma audiência.

Então a violência teve início. Na cidade de Jérémie, no sudoeste, multidões enfurecidas começaram a atirar pedras, quebrar janelas e a prometer matar estrangeiros.

Missionários americanos foram forçados a fugir de seus postos avançados e buscar abrigo em uma instalação da ONU. O Serviço Aéreo Humanitário das Nações Unidas removeu duas dúzias de pessoas da região, enquanto grupos religiosos contrataram aviões particulares para evacuação de voluntários. A Cruz Vermelha seguiu o conselho da embaixada americana e buscou abrigo.

Meridith Kohut/The New York Times
Pôsteres eleitorais de Guy Philippe em seu vilarejo natal, Pestel

Philippe, 48 anos, é um ex-policial e oficial militar com histórico ruim de direitos humanos. Em 2004, ele promoveu uma invasão ao seu país em uma tentativa bem-sucedida de forçar a saída do presidente na época, Jean-Bertrand Aristide.

Um ano após a rebelião, ele foi indiciado secretamente por um grande júri federal nos Estados Unidos, que o acusou de traficar drogas da Colômbia pelo Haiti e de lavagem de dinheiro. Toda vez que as autoridades americanas estavam perto de prendê-lo, alguém alertava Philippe. Uma missão em 2007, que partiu de Guantánamo e envolvia helicópteros Black Hawk, também fracassou.

Apesar de ser um fugitivo cujo rosto estava postado no site da DEA, Philippe foi recentemente eleito para o Senado haitiano. Em uma entrevista em outubro para o "New York Times", ele disse que os americanos poderiam encontrá-lo se quisessem, pois ele estava à plena vista.

Em sua cidade natal, Pestel, dezenas de pessoas vinham cumprimentá-lo quando ele caminhava pelas ruas. A cidade é isolada, a horas de distância de qualquer cidade por uma estrada cercada de rochas e de difícil acesso pelas autoridades, particularmente se vigias tentassem impedi-las.

"Não estou escondido. Apenas quero justiça", ele disse dias após um furacão ter atingido a cidade. "O fato é que eles não têm evidências contra mim. E eles sabem que não têm nenhuma evidência contra mim. E eles sabem que eu sei que eles não têm nenhuma evidência contra mim."

Gary Desrosiers, vice-porta-voz da Polícia Nacional Haitiana, disse que a operação da prisão envolveu ampla vigilância por parte da polícia. Ele insistiu que nenhum agente americano esteve presente na prisão.

"Esta foi uma operação liderada pela polícia haitiana", ele disse.

Philippe ainda não tinha sido empossado no Senado, o que deu às autoridades uma pequena janela de oportunidade para prendê-lo antes de contar com imunidade parlamentar.

"Ele vinha dando dezenas de entrevistas, mas sempre as fazia por telefone", disse Brian Concannon, diretor-executivo do Instituto pela Justiça e Democracia no Haiti, uma organização estreitamente ligada a Aristide. "Essa ele deu ao vivo. Ele contava com seguranças, mas não é possível levar 20 guardas para uma emissora de rádio."

Meridith Kohut/The New York Times
Guy Philippe (centro) conversa com moradores de seu vilarejo natal, Pestel, uma semana após a passagem do furacão Matthew


Philippe, ele disse, alegava ter transformado seu exército em um partido político. Concannon disse que ele era financiado por empreendimentos ilegais, o que lhe permitia ser generoso com uma comunidade carente de serviços públicos básicos, que era vulnerável à influência de um personagem grandioso, que compartilhava seus espólios.

"Era como uma máfia, em seu sentido bom e ruim, onde ele controlava a área ao redor da cidade de Pestel", ele disse.

"Com parte do dinheiro que conseguiu, ele fornecia serviços públicos ou vantagens em seu bairro. Ele também recebia muito dinheiro do governo por meio de sua máquina e, aparentemente, conseguia um bom dinheiro por meio do tráfico e, talvez, outras atividades como jogos de azar."

A DEA encaminhou as perguntas sobre o caso ao gabinete do promotor federal em Miami, que se recusou a comentar, exceto dizer que Philippe estava sendo detido sem fiança e que sua audiência ocorreria na sexta-feira.

Philippe disse: "Fui sequestrado por causa de minhas crenças políticas", em uma declaração ao "New York Times" divulgada nesta semana por meio de seu advogado em Miami.

"Tudo o que posso dizer é que ele é inocente", disse o advogado, Richard Dansoh. "Ele aguarda ansiosamente por seu dia no tribunal. Ele me perguntou se o julgamento dele seria aberto e eu respondi que sim. Ele deseja sair com sua dignidade intacta."

Os membros do Parlamento haitiano ficaram furiosos com a prisão, que, apesar de não incomum, ocorreu sem uma audiência perante um juiz. Entre as perguntas de alguns legisladores está se a expulsão viola a Constituição haitiana.

Apesar de a Constituição proibir a extradição de cidadãos haitianos, o governo "entrega voluntariamente" haitianos e outros suspeitos indiciados aos Estados Unidos, segundo um relatório de 2015 do Departamento de Estado.

O relatório disse que os dois países acertaram um tratado bilateral de extradição em 1905. Em 1997, a ex-secretária de Estado, Madeleine Albright, negociou um acordo a respeito do narcotráfico com o ex-presidente do Haiti, René Préval, e desde então suspeitos são entregues aos Estados Unidos.

Os críticos dizem que o acordo permite que os Estados Unidos operem apenas no espaço aéreo e águas haitianas, não em solo.

"Como congressista, teremos que falar a respeito disso, discutir e ver o que podemos fazer", disse Sorel Jacinthe, um senador por Grand'Anse, a região que também seria representada por Philippe.

O prefeito de Pestel, Evil Lavilette, disse que os apoiadores de Philippe planejavam marchar na quinta-feira no vilarejo e protestar em Miami na sexta-feira. Philippe, ele disse, é muito popular porque sempre fez do desenvolvimento da região sua prioridade.

"Guy Philippe é um líder, e na condição de líder, ele levará as reivindicações das pessoas para um nível mais alto", ele disse. "A população fez a campanha dele por ele."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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