Sabatinados, secretários de Trump deixam claro que discordam do novo presidente

Jennifer Steinhauer

Em Washington (EUA)

  • Jonathan Ernst /Reuters

    General James Mattis, escolhido para a secretaria de Defesa, passa por sabatina no Senado

    General James Mattis, escolhido para a secretaria de Defesa, passa por sabatina no Senado

Os EUA não devem praticar tortura. A Rússia é uma ameaça. Um muro na fronteira mexicana não seria eficaz. A proibição geral aos muçulmanos é um erro. A mudança climática é um desafio.

Essas declarações estão em direta oposição a algumas das mais importantes afirmações feitas pelo presidente-eleito Donald Trump antes de sua improvável ascensão à Casa Branca. São também as palavras de seus próprios nomeados para a chefia dos principais órgãos governamentais.

Em sua primeira semana de audiências diante do Congresso, os nomeados para o gabinete ministerial de Trump discordaram dele em quase todas as principais políticas que situaram Trump fora da ortodoxia republicana, particularmente na área de segurança nacional.

James N. Mattis, um general aposentado do Corpo de Fuzileiros Navais que há muito manifestou sua oposição à tortura, disse na quinta-feira (12) que se for confirmado como secretário da Defesa apoiará o acordo nuclear com o Irã, que Trump desdenhou.

"Quando os EUA dão sua palavra, temos de cumpri-la e trabalhar com nossos aliados", disse Mattis em sua audiência, em marcante contraste com a opinião de Trump de que as negociações com o Irã produziram "um dos acordos mais burros de todos os tempos".

Rex Tillerson, que Trump escolheu para ser o secretário de Estado [equivalente a ministro das Relações Exteriores], afastou-se do presidente-eleito em uma série de questões nesta semana, chamando o presidente russo, Vladimir Putin, de uma ameaça regional e internacional que deve ser contida com "uma demonstração de força proporcional".

Jonathan Ernst/Reuters
Rex Tillerson, nomeado por Trump para o cargo de secretário de Estado

Tillerson rejeitou a proibição aos imigrantes muçulmanos, disse que o compromisso dos EUA com a Otan é "inviolável" --novamente contradizendo Trump-- e que ele não concorda com os comentários feitos por Trump de que o Japão talvez devesse ter armas nucleares.

E o escolhido do presidente-eleito para comandar a CIA (Agência Central de Inteligência, o serviço secreto dos EUA), o deputado republicano Mike Pompeo, do Kansas, defendeu vigorosamente as agências de inteligência, que Trump havia menosprezado.

Membros da equipe de transição de governo disseram que não se preocupam com as diferenças. Sean Spicer, que será o secretário de Imprensa da Casa Branca, afirmou que Trump escolheu as pessoas por sua experiência, e não sua capacidade de repetir suas próprias opiniões.

Mas todos os sinais indicam que a última palavra nas políticas será a de Trump. "No fim das contas, cada um deles seguirá uma agenda de Trump e uma visão de Trump", disse Spicer aos repórteres na manhã de quinta-feira.

Mas a senadora republicana Susan Collins, do Maine, disse que o fundo abismo entre Trump e os nomeados é incomum.

"Isso me sugere que Donald Trump quer assessores que lhe tragam opiniões diferentes", disse Collins, que participa do painel de inteligência do Senado que auditou Pompeo. "Isso seria muito saudável. Ou pode levar a mensagens confusas igualmente para nossos aliados e para nossos adversários."

Os democratas adotaram uma visão mais dura. "Vários nomeados tentaram se afastar das posições heterodoxas do presidente-eleito para mostrar ao público que eles são racionais", disse Chuck Schumer, o líder democrata no Senado, de Nova York.

Em muitos casos, os nomeados têm longos históricos no serviço público e afirmam posições assumidas há muito tempo. A equipe de Trump também reconhece que as posições mais inconvencionais e beligerantes do futuro presidente --embora úteis em uma campanha populista pela Casa Branca-- provavelmente não seriam aprovadas por muitos membros do Senado, mesmo entre os republicanos.

"Acho um ponto positivo o presidente-eleito ter nomeado pessoas que têm opiniões diferentes das que ele manifestou anteriormente", disse o senador John Cornyn, do Texas, o segundo republicano mais importante.

Os indicados por Trump para o gabinete estão sendo meticulosamente preparados para suas reuniões com os senadores e para as audiências de confirmação, segundo vários senadores. Nessas sessões preparatórias, os nomeados muitas vezes são questionados sobre temas que poderiam prejudicá-los.

Notadamente, os indicados adotaram posições fortes contra a Rússia nas audiências. Trump, em contraste, passou um ano defendendo seu desejo de ter um forte relacionamento com a Rússia e Putin, e só nesta semana pareceu reconhecer algo em que as agências de inteligência concordam: a Rússia interferiu na eleição.

Tillerson, em particular, foi ouvido sobre suas opiniões pelo senador republicano Marco Rubio, da Flórida, dado o antigo relacionamento de Tillerson com Putin enquanto ele foi o executivo-chefe da Exxon Mobil e sua atuação pela suspensão das sanções contra o país. Na quarta-feira (11), Tillerson disse que a Rússia esteve envolvida na invasão de computadores durante a eleição, embora não tenha chegado tão longe quanto Rubio parecia desejar, declarando a Rússia um país vilão.

Mattis não assumiu uma posição sobre o assunto. "Desde Ialta, temos uma longa lista de vezes que tentamos nos envolver positivamente com a Rússia", disse ele. "Temos uma lista relativamente curta de sucessos nesse sentido. E eu penso que neste momento o mais importante é reconhecermos a realidade do que estamos tratando, com o senhor Putin, e reconhecermos que ele está tentando romper a aliança do Atlântico Norte, e que tomemos medidas, medidas integradas, diplomáticas, econômicas e militares, e as medidas da aliança, trabalhando com nossos aliados para nos defendermos onde for necessário."

Tillerson disse aos legisladores que preferia continuar participando do acordo sobre o clima global feito em Paris em 2015. "É importante que os EUA mantenham seu lugar à mesa nas conversações sobre como enfrentar os desafios da mudança climática", afirmou.

Não está claro se ele terá essa oportunidade. Apesar de Trump ter dito ao "New York Times" no mês passado que tem a "mente aberta" sobre o Acordo de Paris, ele prometeu em um discurso em maio passado: "Vamos cancelar o acordo do clima de Paris e suspender todos os pagamentos de dólares dos impostos americanos para programas de aquecimento global da ONU".

Uma das principais promessas de campanha de Trump --construir um "grande, gordo, lindo muro" entre os EUA e o México-- também caiu ao chão nesta semana.

John Kelly, um general aposentado dos Fuzileiros Navais que é o indicado para liderar o Departamento de Segurança Interna, disse aos membros da comissão do Senado que "uma barreira física por si só não fará o serviço", acrescentando que "tem de ser na verdade uma defesa em camadas".

O senador republicano Jeff Sessions, do Alabama, que foi nomeado por Trump para procurador-geral [ministro da Justiça], não foi tão longe sobre a tortura quanto Pompeo, que, quando indagado se permitiria o uso de "técnicas de interrogatório intensificadas" caso recebesse a ordem de Trump, respondeu: "Absolutamente não". Mas Sessions disse que o "waterboarding" [simulação de afogamento] é ilegal.

Sobre a proposta de Trump de proibir a imigração de muçulmanos, Sessions disse: "Não acredito e não apoio a ideia de que os muçulmanos, como grupo religioso, devem ter negada sua entrada nos EUA".

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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