"Não há mais casas": rohingyas falam em estupro, fogo e morte em Mianmar

Ellen Barry*

  • AP

    3.dez.2016 - Mulheres e crianças de etnia rohingya fazem fila para coletar água em campo de refugiado em Teknaf, em Bangladesh

    3.dez.2016 - Mulheres e crianças de etnia rohingya fazem fila para coletar água em campo de refugiado em Teknaf, em Bangladesh

Quando os militares de Mianmar cercaram a aldeia de Pwint Phyu Chaung, todos tiveram alguns segundos para fazer uma escolha.

Noor Ankis, 25, preferiu ficar em sua casa, onde a mandaram ajoelhar-se e a espancaram, até que os soldados a levaram ao lugar onde as mulheres eram violentadas. Rashida Begum, 22, escolheu saltar com seus três filhos em um rio fundo e rápido, onde viu sua filha bebê escapar de seus braços.

Sufayat Ullah, 20, também preferiu o rio. Ele ficou na água durante dois dias e finalmente saiu para descobrir que os soldados tinham incendiado a casa de sua família, deixando sua mãe, seu pai e dois irmãos morrerem asfixiados lá dentro.

Esses e outros relatos, feitos nos últimos dias por refugiados de Mianmar que hoje vivem em Bangladesh, ressaltam a violência que se desenrolou em Mianmar nos últimos meses, quando as forças de segurança locais realizaram uma brutal campanha de contrarrebelião.

Suas histórias, embora impossíveis de se confirmar de forma independente, geralmente se encaixam com relatos de organizações de direitos humanos de que os militares invadiram aldeias no Estado de Rakhine, no norte, atirando aleatoriamente, incendiando casas com lança-foguetes e estuprando sistematicamente meninas e mulheres.

Pelo menos 1.500 casas foram arrasadas, segundo uma análise de imagens de satélite feita pela HRW (Human Rights Watch, uma organização de defesa dos direitos humanos).

A campanha, que se deslocou para o sul nas últimas semanas, parece destinada a continuar até que o governo de Mianmar considere que conseguiu desarmar completamente a militância que surgiu entre os rohingyas, um grupo étnico muçulmano que é perseguido há décadas em Mianmar, país de maioria budista.

"Existe o risco de que o pior ainda esteja por vir", disse Matthew Smith, da ONG Fortify Rights, que se dedica aos direitos humanos no Sudeste Asiático.

"Não temos certeza do que as forças de segurança do Estado farão agora, mas sabemos que os ataques a civis continuam."

Uma comissão indicada pelo governo de Mianmar na semana passada negou acusações de que seus militares estejam cometendo genocídio nas aldeias, que foram isoladas de jornalistas ocidentais e investigadores de direitos humanos. As autoridades disseram que as forças rohingyas estão incendiando suas próprias casas e negaram a maioria das acusações de abusos aos direitos humanos, com exceção de um espancamento que foi captado em vídeo.

Kemal Jufri/The New York Times
31.mai.2016 - Refugiados rohingya recebem comida em campo de refugiados de Aceh

A líder de Mianmar, Aung San Suu Kyi, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, foi criticada por não reagir com mais empenho à violência.

A repressão começou depois de um ataque a três postos de fronteira em Rakhine em outubro, em que nove policiais foram mortos. O ataque teria sido realizado por um grupo insurgente armado rohingya até então desconhecido.

A campanha militar, que o governo descreve como uma operação de "limpeza", visou amplamente os civis, segundo grupos de direitos humanos. Ela fez cerca de 65 mil rohingyas fugirem pela fronteira de Bangladesh, segundo a Organização Internacional para Migração.

"Eles começaram a chegar como uma onda", disse Dudu Miah, um refugiado rohingya que é presidente da comissão administrativa do campo de refugiados de Leda, perto da fronteira de Mianmar. "Comportavam-se como loucos. Foi uma confusão. Eles diziam: 'Mataram meu pai, mataram minha mãe, eles me espancaram'. Estavam arrasados."

Os soldados atacavam as aldeias do outro lado do rio Naf, que separa Mianmar de Bangladesh, tão perto que os bengalis podiam ver colunas de fumaça erguendo-se das aldeias em chamas do outro lado, disse Nazir Ahmed, o imame de uma mesquita que atende aos rohingyas.

Ele disse que é verdade que alguns rohingyas, enfurecidos por anos de maus tratos das forças de Mianmar, tinham se organizado em uma força militar improvisada, mas que Mianmar exagerou drasticamente suas proporções e sua seriedade.

Os rohingyas estão "frustrados e estão pegando paus e fazendo um apelo para defender-se", disse ele. "Agora, se eles encontrarem um agricultor que tenha um machado em casa, eles dizem: 'Você está envolvido em terrorismo'."

Uma análise divulgada no mês passado pelo Grupo de Crises Internacionais deu uma visão séria do novo grupo militante, que segundo ele é financiado e organizado por emigrantes rohingyas na Arábia Saudita. Ele advertiu que mais violência poderá acelerar a radicalização entre os rohingyas, que poderão se tornar instrumentos voluntários de grupos jihadistas transnacionais.

Em entrevistas nos campos de refugiados de Kutupalong e Leda, rohingyas que fugiram de Mianmar nas últimas semanas disseram que militares inicialmente foram de casa em casa procurando homens adultos, e então começaram a estuprar mulheres e queimar casas. Muitos recém-chegados são de Kyet Yoepin, um vilarejo onde 245 construções foram destruídas durante um ataque de dois dias em meados de outubro, segundo a HRW.

Muhammad Shafiq, que tem 20 e poucos anos, disse que estava em casa com sua família quando ouviu os tiros. Soldados em roupas camufladas bateram na porta, depois atiraram contra ela, disse ele. Quando Shafiq os deixou entrar, "eles levaram as mulheres embora e puseram os homens em fila".

Shafiq disse que quando um soldado agarrou a mão de sua irmã ele se atirou contra o militar, temendo que pretendesse violentá-la, e foi espancado tão severamente que os soldados pensaram que estivesse morto. Mais tarde, ele correu com um de seus filhos e foi atingido no cotovelo pela bala de um soldado. Ele rastejou durante uma hora por um arrozal, então viu, de um ponto seguro, as tropas incendiarem o que restava de Kyet Yoepin.

"Não sobraram casas", disse ele. "Tudo foi queimado."

Jannatul Mawa, 25, que é da mesma aldeia, disse que se arrastou até a próxima aldeia durante a noite, passando pelas formas obscuras dos vizinhos mortos e feridos.

"Alguns levaram tiros, outros foram feridos com lâminas", disse ela. "Eles matavam as pessoas onde quer que as encontrassem."

*Maher Sattar colaborou na reportagem

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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