Site Backpage.com oferece meninas para sexo

Nicholas Kristof

  • Reprodução/YouTube

    Asia Graves foi vítima de tráfico sexual

    Asia Graves foi vítima de tráfico sexual

Uma estudante da sétima série, de 16 anos e moradora de Boston (EUA), Asia Graves foi vendida na internet "como uma pizza", recorda, entregue diariamente para ser violentada por homens desconhecidos.

Juntamente com milhares de outras meninas, ela era vendida pelo que vem a ser um bordel online chamado Backpage.com. Ele domina o comércio sexual online e está envolvido em quase 75% das denúncias de tráfico de crianças nos EUA.

Mas esta semana representa um momento para se comemorar. Sob pressão política e jurídica, o Backpage fechou na última segunda-feira (9) sua seção de anúncios "adultos", usada para oferecer mulheres e crianças para sexo. Também há um esforço retardado para responsabilizar civil e criminalmente seus executivos.

"Houve um grande progresso", comenta Graves, que conseguiu escapar de seu cafetão, mas só depois de ele marcar seu rosto com um descascador de batatas e pisar nele, quebrando sua mandíbula. Ela estava feliz nesta semana, quando uma subcomissão do Senado realizou audiências sobre o Backpage e discutiu o endurecimento da lei contra sites da web semelhantes.

Venho escrevendo sobre o tráfico sexual desde os anos 1990, porque é um terrível eco da escravidão. É também um tema cheio de hipocrisia. Nós denunciamos a Igreja Católica e a Universidade Estadual da Pensilvânia por tolerarem o abuso sexual de crianças, mas coletivamente toleramos sites como Backpage, que vendem crianças para sexo.

Isso vem mudando constantemente. As empresas de cartão de crédito pararam de processar pagamentos de anúncios no Backpage, minando seu modelo empresarial. Kamala Harris, então secretário de Justiça da Califórnia e hoje seu novo senador, apresentou uma acusação criminal em dezembro contra executivos do Backpage, com audiência marcada para esta semana.

Processos civis no Estado de Washington contra o Backpage estão avançando. Um filme sobre o tráfico, "I Am Jane Doe", que estreará nos cinemas no mês que vem, projeta uma luz sobre o Backpage como "o Walmart do tráfico humano".

Mais importante, uma subcomissão do Senado liderada por Rob Portman, um republicano, e Claire McCaskill, uma democrata, fez um trabalho exemplar que investigou o Backpage e mostrou como ele alcançou uma avaliação de mais de US$ 500 milhões trabalhando com traficantes de pessoas.

Um relatório devastador da nova subcomissão mostra que a empresa protege os cafetões de seu descuido, deletando sugestões de que uma menina é menor de idade. Por exemplo, se um cafetão tenta postar um anúncio de uma "Lolita", "menininha", "escolar" ou "alerta amarelo", esses termos são automaticamente removidos do anúncio. Mas ele será publicado, e assim a garota ainda será vendida para fins sexuais.

Um documento do Backpage indicava que até 2010 mais de 70% de seus anúncios na seção adulta eram editados dessa forma, o que sugere que a companhia estava muito mais envolvida na manipulação do conteúdo do que ela reconhecia.

Claro, algumas pessoas que vendem sexo são adultos agindo por conta própria para ganhar dinheiro, e isso não me diz respeito. Se o Backpage verificasse cuidadosamente os nomes e as idades, eu ficaria satisfeito. Mas o site tem regras mais rígidas para vender um cachorro do que para vender uma criança.

Escrevi diversas vezes sobre o Backpage ao longo dos anos porque as histórias me assombram. Minha primeira coluna sobre esse site envolvia uma menina de 13 anos que eu chamei de Baby Face. Seu cafetão a havia chutado por uma escada por tentar fugir. Ela estava ferida e sangrando, e não podia suportar mais um estupro, mas seu cafetão a vendeu no Backpage de qualquer maneira. Ele a levou a um prédio de apartamentos e esperou na rua depois de lhe dizer a que apartamento devia ir.

Aterrorizada e desesperada, Baby Face bateu na porta de outro apartamento. Quando uma mulher surpresa atendeu, a menina lhe pediu um telefone e ligou para sua mãe e para a emergência. Seu cafetão foi preso, mas o Backpage simplesmente lucrou com a venda, como sempre.

Veja, o tráfico humano é uma questão complicada. Se o Backpage for fechado, outros sites poderão preencher o vazio, e de fato, quando o Backpage fechou sua seção adulta os anúncios de sexo imediatamente se mudaram para a seção de encontros do site.

Precisamos que o Congresso emende a Lei de Decência nas Comunicações para esclarecer que empresas como Backpage não terão proteções quando permitirem que cafetões vendam crianças em seus sites. Há um esforço bipartidário cada vez maior para aprovar tal emenda, e espero que o presidente eleito Donald Trump mostre liderança nisto também. Precisamos também que os departamentos de polícia e promotores locais persigam os cafetões, em vez de às vezes voltar-se contra as crianças, que são as vítimas.

Uma mãe, Nacole (ela não quis que seu sobrenome fosse publicado), disse-me que sua filha de 15 anos foi vendida durante mais de três meses no Backpage.

"Como um modelo de negócios tão terrível, moralmente falido, tem sucesso nos EUA?", perguntou ela na audiência do Senado. Ela contou que sua filha tinha sido anunciada no site como um "especial de fim de semana".

É tarde demais para proteger aquela menina, que ainda luta para se recuperar. Mas quando crianças são vendidas online para sexo como promoção especial não são elas que devem se envergonhar. Todos nós devemos.
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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