Análise: Trump e sua estratégia no Twitter

Amanda Hess

  • Damon Winter/The New York Times

    15.jan.2017 - O presidente eleito Donald Trump na festa de eleição no New York Hilton Midtown, em Manhattan

    15.jan.2017 - O presidente eleito Donald Trump na festa de eleição no New York Hilton Midtown, em Manhattan

Poucas semanas após a eleição de Donald Trump, estudiosos com seus olhos colados no Twitter acreditavam ter finalmente decifrado o plano mestre por trás do tuítes do presidente eleito. Toda vez que ele detonava uma bomba na guerra cultural pelo Twitter, eles suspeitavam, tratava-se de uma tentativa astuta de desviar a atenção do público de notícias mais sérias sobre seu governo iminente.

Assim, quando certa manhã Trump reiniciou o debate dormente sobre a queima de bandeiras, tuitando que aqueles que incendeiam a bandeira deveriam sofrer "perda de cidadania ou passar um ano na cadeia!", Jonathan Chait, da revista "New York", produziu rapidamente uma coluna decodificando a mensagem. Ele a chamou de uma "luta estranha" e uma "distração nacionalista clássica de direita", que prova que a "política perigosa e autoritária [de Trump] é calculada, não apenas loucura".

Mas logo uma teoria concorrente surgiu: minutos antes do tuíte de Trump , o "Fox & Friends", um dos programas favoritos do presidente eleito, exibiu um segmento mencionando a queima de uma bandeira americana em um campus universitário, em protesto contra sua vitória. Ele não estava executando uma estratégia. Ele estava tuitando ao vivo o que via em sua TV.

O Twitter é um meio impulsivo. Assim que você faz o login você é recebido imediatamente com uma caixa de texto perguntando "O que está acontecendo?", como que exatamente neste instante. Trump, que está prestes a se tornar o 45º presidente do país na próxima sexta-feira, é um mestre do Twitter, mas também é seu escravo.

As teorias sobre alguma grande trama de Trump no Twitter se esquecem de que tuitar de forma impetuosa e agressiva é um hábito de Trump há anos. Ele é famoso por se abster de álcool; o Twitter é o seu vício. E após oito anos de postagens diretas como uma seta de @BarackObama, jornalistas igualmente obcecados pelo Twitter também estão transfixados pelo cronograma de Trump.

Trump sempre foi fixado em reconhecimento. Ele é obcecado por sua audiência na televisão. O escritório dele é repleto de décadas de capas de revistas o exibindo. Até mesmo atenção negativa é vista como vitória. Ele ficou empolgado por ter sido nomeado a "Pessoa do Ano" da "Time", apesar da capa ter evocado imagens de Hitler e Satã.

Mas as capas de revistas atuais e sucessos na TV carecem do domínio cultural que já tiveram. (Como Trump tuitou em 2013, a "Time" "realmente parece banal, como algo distribuído gratuitamente em um estacionamento!") Agora ele encontrou um meio onde o reconhecimento chega a cada fração de segundo, e seu alcance é quantificado em tempo real, uma medição de audiência para cada sentença que você escreve.

Cheque a lista de contas que Trump segue e você encontrará uma seleção rígida de parentes de Trump (como Ivanka), propriedades da marca Trump (Trump Waikiki), celebridades ligadas a Trump (Roma Downey, esposa de Mark Burnett, o produtor do programa "O Aprendiz") e programas amistosos em relação a Trump ("Fox & Friends", naturalmente).

É um quadro notável de restrição na rede social para o astro mais desinibido do Twitter, e permite um vislumbre da imagem que Trump pretende projetar: homem de família dedicado, tremendo magnata dos negócios, amigo de Gary Player.

Mas a atitude predominante de Trump é reativa e seu verdadeiro foco é em quem o acompanha. Ele retuíta quase exclusivamente elogio de seus fãs. Ele tuíta sobre todo crédito que merece ("Obrigado, tantas pessoas me deram crédito por vencer o debate da noite passada"), depois aguarda para que suba mais crédito virtual. Ele se gaba para jornalistas sobre a quantidade de "curti" e textos retuitados que recebe. Ele se inebria com o que ele mesmo oferece.

Parte da peculiaridade dos tuítes de Trump é que ele tuíta como uma celebridade, não como um político ou empresário. Até mesmo seu endereço, @realdonaldtrump, sugere sua imersão plena no mais básico de nossa cultura de celebridades. Apesar de estar se preparando para assumir a presidência, ele tuíta como um alpinista social de Hollywood. Ele alimenta brigas com celebridades com Graydon Carter ("sem talento") e Meryl Streep ("superestimada") e posta endossos a produtos ("Compre L.L. Bean.").

O cargo mais elevado do planeta concedeu a Trump sua sacada de celebridade mais proeminente. Sua conta cresceu de poucos milhões de seguidores para quase 20 milhões no ano passado. Houve um tempo em que alguns presumiam que a personalidade pública de Trump evoluiria à medida que ascendesse nas fileiras políticas. Mas só há um Trump e isso tem sido fundamental para seu sucesso.

Como já disse Kim Kardashian, o segredo para o domínio nas redes sociais é autenticidade e consistência. A projeção de realidade de Trump depende dele ser de modo confiável alguém que se autoengrandece e se comporta de modo altamente impróprio. Isso poderia ser visto como um problema para o líder do mundo livre, mas é um trunfo nos papéis de celebridade da baixa cultura o que o trouxeram a este momento: líder de reality show, convidado de Howard Stern, vilão na luta livre profissional.

Há oito anos, Barack Obama era o garoto prodígio das redes sociais que seguia para a Casa Branca, e seu entendimento de tecnologia era saudado como um farol para a democracia. Os tuítes que ele posta em @POTUS nunca parecem impulsivos, mas sim feitos para a posteridade. Até mesmo suas piadas são calculadas para ser minimamente ofensivas e altamente educativas. Quando o veículo Curiosity da Nasa (a agência espacial americana) levou a assinatura de Obama até a superfície de Marte, Obama respondeu na forma de uma velha brincadeira: "Isso é coisa de outro mundo".

Se Obama chegou ao poder em um momento de grande otimismo para o Twitter, Trump domina uma plataforma que está perdendo força. O que antes era um local esperançoso para conexão global e resistência se transformou em um site para campanhas coordenadas de perseguição, conectando supremacistas brancos e acelerando rumores não verificados e às vezes perigosos. Seu crescimento caiu e o preço de suas ações estagnou.

Mas ainda atende aos propósitos de Trump muito bem. Para o sujeito que se importa com aparências, o Twitter fornece o verniz de conexão populista sem o incômodo de prestação de contas. Sean Spicer, o futuro secretário de imprensa de Trump, sugeriu que reuniões pelo Twitter e fóruns pelo Reddit poderiam substituir algumas das típicas interações do presidente com a imprensa, onde ele pode facilmente se mostrar disponível para fãs anônimos em vez de se submeter ao escrutínio dos jornalistas. Plataformas de redes sociais, que antes eram saudadas como ferramentas democráticas, também podem ser usadas para minar as normas democráticas.

Tudo isso funciona porque um grupo está tão intoxicado pelo Twitter quanto Trump: os jornalistas. É difícil explicar para uma pessoa normal (um dos 79% de adultos americanos que não usam o Twitter) por que a plataforma hipnotiza a mídia de notícias. Sua poderosa função de busca permite que você conjure material sobre qualquer tópico de notícias, ou apenas perca tempo procurando por seu próprio nome.

Os jornalistas ainda anseiam pela massagem de ego de ter seu nome publicado, mas isso empalidece em comparação ao loop de feedback animado que o Twitter oferece. Quanto mais tempo passa lá, quanto mais tuítes envia, maior se torna seu número de seguidores. Mas o Twitter fornece pouca busca de fato. Em comparação ao Facebook e Google, ele dificilmente gera tráfego para artigos. É como se fosse um videogame para validação profissional.

Trump explora habilmente a atenção dos jornalistas às suas postagens pelo Twitter, o espírito competitivo deles e suas convenções jornalísticas arraigadas, principalmente a de que aquilo que o presidente diz é inerentemente digno de nota. Como desenvolvedor e astro de um reality show, ele fez lobby junto à mídia de notícias por cobertura.

Agora os jornalistas se sentem obrigados a prestar atenção nele. Trump sobrecarrega a mídia com uma enxurrada do que antes era uma mercadoria rara: acesso. Ele cria impressões mais rápido do que os jornalistas são capazes de checar. Quando eles apresentam os fatos, o ciclo de notícias já passou para a próxima postagem dele, deixando menos tempo (e atenção dos leitores) para as histórias que Trump não destaca em suas postagens.

O presidente eleito pode não seguir uma estratégia deliberada de distração, mas ele não precisa de uma. Ele o faz de forma instintiva. Basta para ele um telefone, a imprensa e qualquer pensamento que lhe passe pela mente.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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