Como os livros ajudaram Obama a sobreviver aos anos de Casa Branca

Michiko Kakutani

  • Damon Winter/The New York Times

    Barack Obama lê em seu iPad no Salão Oval da Casa Branca, em Washington

    Barack Obama lê em seu iPad no Salão Oval da Casa Branca, em Washington

Desde Lincoln não houve um presidente fundamentalmente moldado --em sua vida, suas convicções e sua visão de mundo-- pela leitura e a escrita como Barack Obama.

Na última sexta-feira (13), sete dias antes de sua partida da Casa Branca, Obama sentou-se no Salão Oval e falou sobre o papel indispensável que os livros tiveram durante sua presidência e em toda a sua vida --desde sua infância errante e às vezes solitária, quando "esses mundos que eram portáteis" lhe ofereciam companhia, até sua juventude, quando o ajudaram a entender quem ele era, o que pensava e o que era importante.

Durante seus oito anos na Casa Branca --em uma era ruidosa de excesso de informação, partidarismo extremado e reações quase automáticas--, os livros foram uma fonte constante de ideias e inspiração, e lhe deram um apreço renovado pelas complexidades e ambiguidades da condição humana.

"Em uma época em que os acontecimentos são tão rápidos e tanta informação é transmitida", disse ele, a leitura lhe deu a capacidade de às vezes "desacelerar e ter perspectiva" e "a capacidade de me colocar no lugar de outras pessoas". Essas duas coisas, acrescentou Obama, "foram inestimáveis para mim. Se me fizeram um presidente melhor, não sei. Mas o que sei é que elas me permitiram manter meu equilíbrio durante oito anos, porque este é um lugar que o agarra com força e não dá sossego".

Os textos de Abraham Lincoln, do reverendo Martin Luther King Jr., de Gandhi e Nelson Mandela, para Obama, foram "especialmente úteis" quando "o que você quer é uma sensação de solidariedade", acrescentando que "durante momentos muito difíceis este cargo pode ser muito isolador". "Por isso, às vezes você tem de pular um pouco pela história para encontrar gente que se sentiu isolada do mesmo modo, e isso foi útil". Há um exemplar manuscrito do Discurso de Gettysburg no Quarto de Lincoln, e às vezes, à noite, diz Obama, ele saía de seu escritório doméstico para lê-lo.

Assim como Lincoln, Obama aprendeu a escrever sozinho, e para ele também as palavras se tornaram uma maneira de se definir e de comunicar ideias e ideais ao mundo. Na verdade, há uma clara linha ligando Lincoln a King e Obama. Em discursos como os feitos em Charleston e Selma, ele seguiu os passos desses líderes, colocando seu domínio da linguagem a serviço de uma visão histórica abrangente, que, assim como a deles, situa nossas lutas atuais com a raça e a injustiça em um contínuo histórico que traça até onde chegamos e até onde ainda precisamos ir.

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Contexto nas biografias presidenciais

As biografias presidenciais também oferecem contexto, contrapondo-se à tendência de pensar "que tudo o que está acontecendo agora é especialmente desastroso, incrível ou difícil", disse Obama. "É muito útil pensar em Roosevelt tentando navegar pela Segunda Guerra Mundial."

Até hoje, ler continua sendo uma parte essencial da vida cotidiana de Obama. Ele deu recentemente a sua filha Malia um Kindle cheio de livros que gostaria que ela leia (entre os quais "Cem Anos de Solidão", "O Caderno Dourado" e "The Woman Warrior" [A mulher guerreira]. Em quase todas as noites na Casa Branca, ele leu durante cerca de uma hora, tarde da noite --leitura profunda e ecumênica, variando de ficção literária contemporânea (o último romance que ele leu foi "The Underground Railroad", de Colson Whitehead) a romances clássicos e obras de vanguarda de não ficção como "Thinking, Fast and Slow" [Pensando rápido e devagar], de Daniel Kahneman, e "The Sixth Extinction" [A sexta extinção], de Elizabeth Kolbert.

Tais livros foram uma maneira de o presidente mudar de sintonia dos memorandos e documentos que ele estudava durante o dia, uma maneira de "sair de minha própria cabeça", escapando da bolha da Casa Branca. Algumas novelas ajudaram Obama a "imaginar o que acontece na vida das pessoas" em todo o país --por exemplo, ele descobriu que as novelas de Marilynne Robinson o conectavam emocionalmente às pessoas que ele encontrou em Iowa durante a campanha em 2008 e a seus próprios avós, que eram do centro-oeste, e aos valores interioranos de trabalho duro, honestidade e humildade.

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Um escritor de contos

Obama aprendeu sozinho a escrever quando jovem, mantendo um diário e escrevendo contos quando era organizador comunitário em Chicago. Trabalhava neles depois que voltava para casa do trabalho e se baseava na história das pessoas que conhecia. Muitos desses contos eram sobre idosos, e eram informados por um sentido de decepção e perda. "Não há muito da liberdade errante de Jack Kerouac, de um jovem sobre suas descobertas", disse ele. "É mais melancólico e reflexivo."

Essa experiência salientou o poder da empatia. Ele mesmo um forasteiro --com um pai do Quênia que foi embora quando ele tinha 2 anos, e a mãe de Kansas, que o levou para viver por um tempo na Indonésia--, ele pôde se relacionar com muitas das pessoas que conheceu nas igrejas e ruas de Chicago, que se sentiam deslocadas pela mudança e o isolamento, e levou a sério a observação de seu patrão de que "a coisa que une as pessoas para compartilhar a coragem e agir em prol de suas vidas não é apenas que elas se importam com as mesmas questões, é que elas têm histórias comuns".

Essa lição se tornaria uma pedra angular da visão do presidente de um país onde as preocupações comuns --sonhos simples de um emprego decente, um futuro seguro para seus filhos-- poderiam superar diferenças e divisões. Afinal, muitas pessoas viam sua própria história na dele --uma história americana, como ele disse em seu discurso na Convenção Nacional Democrata em 2004, que não seria possível "em nenhum outro país da terra".

Obama entrou em seu cargo como um escritor, e em breve voltará à vida privada como um escritor. Ele planeja trabalhar em suas memórias, que se basearão nos diários que manteve na Casa Branca ("mas não com o tipo de disciplina que eu gostaria"). Ele tem uma sensibilidade de escritor --uma capacidade de estar no momento enquanto se distancia como observador, um olhar de romancista e um ouvido para os detalhes, e uma voz precisa mas flexível, capaz de se mover com facilidade entre o lírico, o vernacular e o profundo.

Obama almoçou na semana passada com cinco escritores que ele admira --Dave Eggers, Colson Whitehead, Zadie Smith, Junot Diaz e Barbara Kingsolver-- e não conversou com eles apenas sobre o panorama político e da mídia, mas também sobre negócios, perguntando-lhes como iam seus lançamentos de livros e comentando que gosta de escrever rascunhos à mão em blocos de papel amarelo.

Obama disse que espera um dia usar o site do centro presidencial "para ampliar o público de bons livros" --algo que já faz com listas regulares de recomendação de livros-- e então incentivar uma "conversa [pública] sobre livros".

"Em uma época", disse ele, "em que grande parte de nossa política tenta administrar esses choque de culturas causado pela globalização, a tecnologia e a migração, o papel das histórias em unir --em oposição a separar, envolver em vez de marginalizar-- é mais importante que nunca."

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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