Opinião: Sim, o governo de Obama persistirá

David Leonhardt

  • Reprodução/Shepard Fairey

Quando Barack Obama concorreu à presidência em 2008, ele entendeu, sem necessariamente dizê-lo, que fazia décadas que não se via um presidente democrata altamente bem-sucedido.

Bill Clinton tornou o país um lugar melhor, mas seus maiores planos legislativos fracassaram e ele foi tomado por escândalos. John F. Kennedy, embora fosse popular em restrospecto, estava com sua pauta emperrada no Congresso quando foi assassinado. Harry Truman deixou o cargo extremamente impopular. Jimmy Carter não conseguiu se reeleger.

E Lyndon Johnson, apesar de grandes conquistas domésticas, foi levado a deixar o poder. As palavras de ordem "Hey, hey, LBJ, quantas crianças você matou hoje?" não sugerem exatamente um heroísmo progressista.

Esse histórico de decepção com os liberais estava nas entrelinhas de um revelador comentário feito por Obama há algum tempo: "Reagan mudou a trajetória dos Estados Unidos de uma forma que Richard Nixon não conseguiu, e Bill Clinton também não".

A História também levou Obama a rejeitar os conselhos de seu primeiro secretário do Tesouro de que o legado deles deveria evitar outra depressão. "Isso não é suficiente", respondeu Obama.

Não era o suficiente por causa da profundidade dos problemas do país, que incluíam uma desigualdade galopante, uma Wall Street desregulada, escolas com baixo desempenho, milhões de pessoas sem seguro de saúde e as mudanças climáticas.

Não foram poucas as vezes durante o mandato de Obama que ele pareceu estar seguindo o padrão da decepção com os liberais. A esquerda ficava desesperada por ele ser brando demais, ao passo que a direita o tachava de mau ou infeliz. Justo quando ele parecia ter conquistado seus críticos, veio a ameaça mais chocante: a eleição de Donald Trump.

Daqui a três dias, Trump e parlamentares republicanos terão o poder de começar a desfazer a presidência de Obama. Contudo, eles terão mais dificuldades do que muitos imaginam.

Uma explicação clara do porquê aparece em um novo livro chamado "Audacity", escrito por Jonathan Chait da "New York Magazine", um dos jornalistas de política mais lidos de hoje. Ele documenta a escala da política interna de Obama para a saúde, a tributação, as finanças, o clima, os direitos civis e a educação. Chait também explica por que ela não irá simplesmente desaparecer.

Embora Trump obviamente seja capaz de reverter algumas políticas, ele também enfrentará obstáculos. Em primeiro lugar, algumas das mudanças de Obama são populares, ainda que tenha sido difícil aprová-las. Veja o Obamacare. Os republicanos prometem anulá-lo, mas aceitaram os termos de Obama para o debate: eles alegam que não vão tirar o seguro de saúde. O ponto de partida já será outro.

Em segundo lugar, o governo de Obama desencadeou mudanças sobre as quais Washington não tem controle. Muitos Estados se tornaram menos tolerantes em relação a escolas de baixo desempenho. A política climática por si só ajudou a tornar a energia limpa cada vez mais competitiva em termos de custo.

Em terceiro lugar, os senadores democratas ainda terão a capacidade de obstruir alguns desejos republicanos, inclusive a revogação da regulação financeira.

"A conclusão fatalista de que Trump pode obliterar as conquistas de Obama é exagerada, talvez até mesmo completamente falsa", escreveu Chait.

O livro é corajoso, porque jornalistas em geral relutam em dizer que um político foi bem-sucedido, por medo de serem tachados de ingênuos ou partidaristas. Não temos problemas em chamar os erros de erros, mas preferimos criticar os acertos como imperfeitos. (E todos os acertos, assim como todos os políticos, de fato são imperfeitos.)

Como resultado, com frequência temos uma visão exageradamente negativa de acontecimentos atuais mas olhamos de forma nostálgica para esses mesmos acontecimentos décadas depois.

Na verdade, Obama foi bem-sucedido ao adotar uma abordagem rigorosa, baseada em evidências, em seu governo. Ele começou tentando intermediar acordos bipartidários e, quando isso não deu certo, governou como um democrata durão, com a ajuda crucial de Nancy Pelosi e Harry Reid. Os erros de Obama, como o caso da Síria, foram graves, mas nenhum presidente até hoje evitou erros graves.

Obama está deixando seu cargo como o mais bem-sucedido democrata desde Franklin Roosevelt. Seu efeito sobre a "trajetória dos Estados Unidos", para usar sua referência, certamente foi menor do que o de Roosevelt, mas está no mesmo nível que o de Reagan.

Obama fez mais em seu governo, ao passo que Reagan protegeu melhor suas mudanças de políticas, graças às conquistas republicanas em eleições estaduais e parlamentares e à vitória de sua escolha como sucessor.

O fracasso evidente de Obama nesse último aspecto fará com que seus aliados precisem lutar muito para defender suas conquistas, ao invés de obter mais avanços em problemas que tanto necessitam, como a questão climática e a desigualdade. Mas foi graças a esses oito anos que os progressistas têm tanto o que defender.

"Qualquer reordenamento de poder e de recursos em grande escala na vida dos americanos inevitavelmente enfrentará resistência, às vezes por décadas", escreveu Chait.

Isso aconteceu após a Reconstrução, o New Deal e o movimento dos direitos civis. Mas ao continuarem a lutar, através de vitórias e reveses, os defensores de um país mais livre e próspero ganharam muito mais do que perderam.

Quando os historiadores do futuro olharem para os dias de hoje, eles provavelmente chegarão a uma conclusão parecida. Eles provavelmente também acreditarão que a visão de Obama sobre os Estados Unidos era muito superior à de Trump. Afinal, uma vasta maioria de americanos nascidos nas últimas décadas compartilha da visão de Obama. E a História, afinal, é escrita pelos jovens.

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos