Com problemas na transição, equipe de Segurança Nacional de Trump começa devagar

Mark Landler

Em Washington (EUA)

  • REUTERS/Yuri Gripas

    Michael Flynn, assessor de Segurança Nacional de Trump, e Susan Rice, do governo Obama

    Michael Flynn, assessor de Segurança Nacional de Trump, e Susan Rice, do governo Obama

O governo Obama escreveu 275 documentos informativos para o futuro governo Trump: quase mil páginas de material secreto sobre o programa nuclear da Coreia do Norte, a campanha militar contra o Estado Islâmico, as tensões no mar do Sul da China e todos os outros tipos de ameaça que a nova equipe poderá encontrar em suas primeiras semanas no poder.

Ninguém no atual governo sabe se alguém do próximo leu alguma coisa.

Menos de três dias antes de o presidente Barack Obama entregar as chaves da Casa Branca, e os códigos das armas nucleares, ao presidente-eleito Donald Trump, a equipe de transição deste quase não se comunicou com o Conselho Nacional de Segurança (CNS), a não ser nos níveis mais elevados. Seu assessor de Segurança Nacional nomeado, tenente-general Michael Flynn, reuniu-se pelo menos quatro vezes com sua homóloga no governo Obama, Susan Rice.

Mas o problema crônico na transição de Trump, o atraso em indicar os membros mais graduados do CNS e a falta de pessoas com permissões de segurança privaram a equipe de Trump de semanas de trabalho preparatório em algumas das mais complexas questões de segurança que o país enfrenta.

"Nós realmente quisemos garantir que não houvesse nada que uma nova equipe precisasse saber que nós não lhe tivéssemos dito", disse Rice em uma entrevista. "Eles levaram mais tempo do que esperávamos para estarem prontos a se envolver conosco." Agora, acrescentou ela, "estamos correndo para recuperar o tempo perdido".

Rice insistiu que está confiante que o governo Trump terá a informação necessária quando ele tomar posse. O processo se firmou nos últimos dias com a chegada de Keith Kellogg, um general três-estrelas do Exército e aposentado que Trump indicou como chefe de gabinete do CNS no mês passado, que hoje está dirigindo a transição.

Em um comunicado, Flynn disse: "Membros de nossa futura equipe tiveram extensas reuniões com seus colegas do CNS". Ele agradeceu a Rice por sua "cooperação e assistência". Na semana passada, os dois deram uma demonstração pública de harmonia, apertando-se as mãos em uma conferência de transmissão patrocinada pelo Instituto da Paz dos EUA.

Mas autoridades das equipes de Obama e de Trump reconheceram que a transição foi acidentada, principalmente porque a derrota de Hillary Clinton pegou totalmente de surpresa os dois governos, o que sai e o que entra. Se Hillary tivesse vencido, sua equipe planejava colocar uma equipe de transição no CNS em poucos dias.

No caso de Trump, o primeiro contato com o CNS só ocorreu em 22 de novembro, duas semanas depois da eleição. Esse atraso foi causado pelo expurgo da equipe de transição original liderada pelo governador Chris Christie, de Nova Jersey. Entre os removidos estava Matthew Freedman, que tinha sido escolhido para dirigir a transição no CNS, mas rapidamente foi questionado por causa de suas ligações com lobbies estrangeiros. O substituto de Freedman, Marshall Billingslea, um ex-membro do Pentágono e do Departamento de Estado, chegou à Ala Oeste com seis pessoas, das quais somente duas tinham credenciais de segurança.

O governo Obama começou a se reunir com essa equipe depois do Dia de Ação de Graças (24 de novembro), mas devido à falta de credenciais os emissários de Trump não puderam ler o material que o pessoal de Obama havia preparado para eles. O CNS começou a criar versões não sigilosas dos documentos.

Então, em meados de dezembro, houve outra comoção quando Billingslea foi substituído por Kellogg, que começou a se reunir com seus antecessores neste mês.

Segundo alguns relatos, a situação é ainda mais fluida no Departamento de Estado e no Pentágono, onde a equipe de Trump dedicou muita atenção a preparar os secretários de governo e agora terá de conquistar a confirmação do Senado para dezenas de outras autoridades graduadas. Membros do escritório de transição do Departamento de Estado disseram que só tiveram contatos esporádicos com representantes de Trump, e que essas pessoas mudavam com frequência.

Mas os empecilhos na transição no CNS poderão ser mais problemáticos, segundo autoridades atuais e passadas, porque essa é a organização que assessora o presidente sobre as questões mais urgentes de política externa, reunindo recomendações do Departamento de Estado, do Pentágono, da CIA e de outras agências.

"Este é o centro nervoso da Casa Branca", disse David Rothkopf, o executivo-chefe e editor do FP Group, que escreveu uma história do CNS, "Running the World: The Inside Story of the National Security Council and the Architects of American Power" ("Comandando o Mundo: Os Bastidores do Conselho Nacional de Segurança e os Arquitetos do Poder Americano"). "Se seu cérebro não estiver funcionando, seus braços e pernas não vão funcionar."

Rice disse que garantir uma transição suave foi uma de suas maiores prioridades em 2016, e que ela havia estabelecido uma meta de "igualar ou superar o que o governo Bush fez por nós".

Autoridades do CNS começaram a preparar os papéis para o próximo governo no último verão. Alguns se concentram em questões práticas: como se marcam reuniões? Como circular informação para as agências? Outros discutem a evolução das políticas do governo ou planos de contingência para crises. A maioria tinha de três a cinco páginas, para que fossem fáceis de digerir.

Um membro do governo Trump disse que os membros da equipe leram alguns memorandos e elogiaram sua qualidade. Mas há uma tensão inerente em transições, particularmente entre dois governos com visões políticas marcadamente diferentes. Autoridades do governo Bush disseram duvidar que o pessoal do governo Obama tenha lido todos os papéis de informação que eles prepararam.

"É difícil, porque você fez campanha sobre como aqueles sujeitos levaram o carro para o buraco", disse Peter Feaver, que fez parte do CNS de Bush e hoje é professor na Universidade Duke. "Agora aqui estão memorandos feitos pelos caras que dirigiam o carro."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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