Tensão da Guerra Fria ressurge com a chegada de 300 fuzileiros americanos na Noruega

Dan Bilefsky e Henrik Pryser Libell

  • Scanpix/Ned Alley/via Reuters

Para os noruegueses, a visão de dezenas de fuzileiros americanos caminhando em meio à neve em uniformes militares, a primeira vez que forças estrangeiras são posicionadas no território de seu país desde a Segunda Guerra, pode trazer uma sensação de segurança bem-vinda, mas também faz lembrar da era sombria da Guerra Fria que muitos esperavam esquecer.

Um avião militar americano levou na segunda-feira mais de 330 fuzileiros para uma praça-forte em Vaernes, na região central da Noruega, um posicionamento que as autoridades norueguesas disseram estar sendo executado pelos Estados Unidos como parte de um acordo bilateral. Foi o mais recente esforço por parte dos Estados Unidos e seus aliados europeus para reforçar suas defesas contra uma Rússia ressurgente, que condenou a medida.

Apesar de ter sido apreciada por quase todo o espectro político, a chegada dos fuzileiros do Campo Lejeune, Carolina do Norte, exibidos pela televisão norueguesa arrastando suas malas em meio à neve, também provocou alguma tensão na Noruega.

Um país rico em petróleo que é membro da Otan (Organização do Atlântico Norte, uma aliança militar ocidental), mas não da União Europeia, o país nórdico há muito se orgulha de sua independência. Mas o desdobramento lembrou uma época da Guerra Fria em que a tensão russa ocupava as manchetes e os noruegueses viviam com temor de uma hegemonia soviética.

As neuroses em relação à Rússia continuam exercendo influência na cultura popular norueguesa. O thriller político de televisão "Okkupert" descreve um futuro no qual a Noruega é ocupada pela Rússia que, com apoio da UE, toma a produção de petróleo do país.

Esses temores foram amplificados nos últimos anos com avistamentos de submarinos por toda a região, que incitaram a preocupação com espionagem russa e intervenção militar.

Em outubro de 2014, uma embarcação não identificada vista além do arquipélago de Estocolmo provocou a maior mobilização da Suécia desde a Guerra Fria e acusações de que a Rússia estava espionando o país. O episódio, chamado de "Caçada aos Vermelhos em Outubro" na mídia de notícias sueca, incluiu relatos não confirmados de um homem vestido de preto avistado no mar perto da embarcação. Isso incomodou profundamente o país, apesar de o Kremlin ter emitido negações enérgicas e acusado Estocolmo de incitar o medo.

Então, em abril de 2015, o aparecimento repentino de uma embarcação submarina na Finlândia, que compartilha uma longa fronteira com a Rússia, levou a marinha a disparar cargas de profundidade, o primeiro alerta do gênero em mais de 10 anos.

A Lituânia disse na segunda-feira que planeja usar fundos da UE para construir uma cerca na fronteira com o enclave russo altamente militarizado de Kaliningrado, para aumentar a segurança e impedir contrabando, segundo a agência de notícias "AFP". A construção da cerca de 130 quilômetros, ao preço de US$ 32 milhões, terá início nos próximos meses e será concluída até o final do ano, segundo o ministro do Interior, Eimutis Misiunas.

"Os motivos são tanto econômicos, para impedir o contrabando, quanto geopolíticos, para reforçar a fronteira externa da UE", disse Misiunas. "Ela não impediria tanques, mas será difícil de escalar."

Em Moscou, o posicionamento de fuzileiros americanos na Noruega foi recebido com desdém.

Após os planos de envio dos fuzileiros terem sido confirmados em outubro, Frants Klintsevich, o vice-presidente do comitê de defesa e segurança da Rússia na Câmara Alta do Parlamento, foi citado pela mídia de notícias russa como tendo dito que o Kremlin via a presença dos fuzileiros como uma ameaça militar direta. Ele também disse que o posicionamento tornava a Noruega um alvo potencial do poderoso arsenal de Moscou, que inclui armas nucleares.

Na segunda-feira, as autoridades russas reiteraram seu descontentamento.

Maria Zakharova, uma porta-voz do Ministério das Relações Exteriores russo, disse em uma entrevista para a "NRK", a emissora pública norueguesa, que a medida "certamente não melhorará as relações".

"O relacionamento entre a Noruega e a Rússia está sendo colocado em teste no momento", ela disse. "Em vez do desenvolvimento de cooperação econômica, a Noruega está optando pelo posicionamento de tropas americanas em solo norueguês."

O posicionamento dos fuzileiros, que estarão estacionados a centenas de quilômetros da fronteira com a Rússia, ocorre enquanto países por toda a Europa estão reforçando suas defesas por preocupação com uma Rússia cada vez mais assertiva.

Na semana passada, um comboio de uma brigada blindada americana cruzou a fronteira alemã para a Polônia, o primeiro grupo do esperado posicionamento de várias milhares de tropas da Otan por todo o Leste Europeu.

As relações entre o Ocidente e a Rússia na região nórdica e além são tensas desde a anexação da Crimeia pelo país em março de 2014, e o início do conflito entre as forças do governo e rebeldes pró-Rússia no leste da Ucrânia.

Ao mesmo tempo, o presidente eleito Donald Trump tem alimentado alarme na Europa nos meses que antecederam sua vitória eleitoral, quando questionou se os Estados Unidos deveriam defender automaticamente os aliados da Otan caso fossem atacados, além disso condicionando o apoio americano à disposição dos países da aliança de pagarem sua parte justa pela proteção militar.

Na Noruega, alguns lamentaram a chegada dos fuzileiros como algo que vai contra as tradições do país e ameaça torná-lo alvo de sua vizinha muito maior.

Morten Harper, um membro esquerdista da assembleia local que governa a área onde fica a base militar, disse que a chegada dos fuzileiros envolve a Noruega na "disputa de poder" entre os Estados Unidos e a Rússia.

"Estamos vendo uma situação de política externa cada vez mais tensa", ele disse. "Caso ocorra um grande conflito entre as grandes potências no futuro, isso nos torna um alvo mais provável de uma bomba."

Após a Segunda Guerra, a Noruega abandonou sua posição neutra ao se juntar à Otan em 1949 e se comprometer com a doutrina da aliança de defesa coletiva. Mas o país, que compartilha uma fronteira norte com a Rússia de 195 quilômetros, buscou aplacar Moscou prometendo que nenhuma tropa estrangeira seria autorizada a ficar posicionada permanentemente em seu solo.

A ministra da Defesa da Noruega, Ine Eriksen Soreide, disse em uma entrevista no domingo que a Rússia não tinha motivo para ficar alarmada com a presença dos fuzileiros. Ela disse que o posicionamento não acaba com a restrição de tropas em solo porque os fuzileiros estavam ali para um período de treinamento de seis meses, sem data para terminar.

Os fuzileiros participarão de exercícios militares, envolvendo esqui e sobrevivência em temperaturas árticas, para aperfeiçoar a capacidade deles de lutar sob duras condições de inverno. Isso faz parte de um acordo bilateral entre Oslo e Washington, mas as autoridades norueguesas disseram que, em caso de um conflito, as tropas provavelmente ficariam sob comando da Otan.

Hedda B. Langemyr, do Conselho de Paz Norueguês, um grupo composto por várias organizações não governamentais, disse que o posicionamento ameaça agravar a tensão entre a Noruega e a Rússia, além de quebrar a tradição da Noruega de não permitir tropas estrangeiras permanentes em seu solo.

"Isso pode dar aos falcões em Moscou uma desculpa para a continuidade da corrida armamentista", ela disse.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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