A posse frenética de Andrew Jackson, o antecessor populista de Trump

Jonah Engel Bromwich

  • Casa Branca/Wikimedia Commons

    Andrew Jackson, 7º presidente dos EUA

    Andrew Jackson, 7º presidente dos EUA

Tentando retratar Donald Trump como um homem do povo, alguns de seus mais próximos assessores disseram que ele é o sucessor natural do presidente Andrew Jackson, o arquiteto do populismo político americano.

Com multidões fluindo a Washington para a posse na sexta-feira (20), comentaristas e historiadores lembraram a posse do sétimo presidente, em 4 de março de 1829, quando milhares de pessoas invadiram o prédio do Capitólio e a Casa Branca, representando para muitos na época o perigo de a turba enlouquecer.

Biógrafos, historiadores e os próprios confidentes do presidente não se intimidaram em traçar paralelos. Rudy Giuliani, Newt Gingrich e Stephen Bannon compararam de perto o ainda presidente eleito com Jackson.

É uma comparação de que o próprio Trump parece gostar.

Falando em um jantar na quarta-feira (18) em homenagem a seu companheiro de chapa, Mike Pence, Trump disse que admiradores lhe haviam dito: "Não houve nada parecido desde Andrew Jackson".

Por meio de uma porta-voz no início desta semana, Trump manifestou admiração por Jackson --"uma figura incrível na história americana... única sob muitos aspectos"-- e disse que admirava em seu antecessor "a capacidade de não desistir".

Steve Inskeep, um apresentador da Rádio Pública Nacional e autor de "Jacksonland: President Andrew Jackson, Cherokee Chief John Ross, and a Great American Land Grab" [Jacksonlândia: o presidente Andrew Jackson, o chefe cherokee John Ross e uma grande invasão de terras americana], disse que, apesar de algumas diferenças óbvias entre os dois, incluindo a riqueza significativa de Trump e a origem modesta de Jackson, a comparação era em geral válida.

"Ambos são vistos como lutadores obstinados, que assumiram o lado do povo a que eram leais", disse ele. "Eles lutaram por aquelas pessoas e por si mesmos, também, e não se importaram com quem mais ficaria ferido."

"Trump entra em lutas no Twitter, mas Jackson fazia duelos de verdade", acrescentou ele. "Lutas armadas com tiros ao vivo."

Veja a íntegra do discurso de Trump

A primeira posse de Jackson, em 1829, ocorreu em março, como todas as cerimônias do tipo até 1937. A primeira cerimônia a ser realizada no Pórtico Leste do prédio do Capitólio atraiu mais de 10 mil pessoas, a maioria das quais ficou relativamente silenciosa quando Jackson fez um rápido discurso.

Segundo relatos históricos, porém, uma febre instigada pela excitação do novo comandante-em-chefe célebre --na época possivelmente o mais famoso americano vivo-- logo levou a multidão ao frenesi, e ela correu na direção de seu herói.

Jackson recuou para o Capitólio e afinal, montado em um cavalo, foi até a Casa Branca, onde membros do público já tinham sido admitidos e causavam uma confusão. (Mas alguns historiadores afirmaram que os danos causados ao edifício foram exagerados.) O amontoado de gente na Casa Branca era tão denso que Jackson teve de sair, segundo alguns, por uma janela, e passou a noite em um hotel.

Jon Meacham, autor da biografia de Jackson "American Lion" [Leão americano], de 2008, disse que as comparações diretas entre Jackson e Trump são "imprecisas". Mas segundo ele o momento em que o 45º presidente está assumindo o cargo é "inquestionavelmente jacksoniano".

"Jackson foi o primeiro presidente que não era um plantador da Virgínia ou um Adams de Massachusetts", explicou ele sobre o comandante-em-chefe, um ex-senador do Tennessee. "O establishment da época considerou sua eleição um momento democrático potencialmente desestabilizador no que era, de modo geral, uma cultura republicana."

Outros detalhes sobre a campanha presidencial de Jackson em 1828 lembraram a corrida de Trump em 2016. Seu adversário, o presidente John Quincy Adams, era um ex-secretário de Estado e membro de uma dinastia presidencial.

A campanha foi uma luta acirrada, com a oposição chamando a mulher de Jackson de "bígama" e de uma "jezebel". Ela achou esses insultos revoltantes, e algumas pessoas, inclusive Jackson, acreditaram que eles provocaram a morte repentina dela, pouco antes do Natal.

Jackson havia prometido varrer a corrupção de Washington, comparando-a à tarefa hercúlea de limpar um "gigantesco estábulo do Egeu". A promessa tinha um paralelo direto nas promessas de Trump de "secar o pântano", segundo John Dickerson, o apresentador de "Face the Nation" e do podcast de história presidencial "Whistlestop", da rede CBS, que teve um episódio recente dedicado à posse de Jackson.

Dickerson disse que para o establishment de Washington na época Jackson representava uma dupla versão de um velho medo. O establishment "passava muito tempo preocupado com o rei, e Jackson lhes deu a oportunidade pela primeira vez de se preocupar com alguém que estava sendo elevado pela multidão".

A maioria dos presidentes pode esperar que sua posse lhe permita definir a agenda presidencial, mas os historiadores sabem que não. Jackson serviu dois mandatos de quatro anos, durante os quais expandiu os poderes presidenciais e frequentemente lutou com o Congresso.

Apesar de Jackson ter dado um golpe no establishment contra o qual fizera campanha, esse poder reconstituído na coalizão das novas elites poderosas do norte e os plantadores do sul que ele representava prevaleceria nas batalhas políticas durante décadas.

Inskeep e Meacham eram céticos de que a história se dobraria aos caprichos de Trump, ou que sua posse poderia definir o tom dos próximos acontecimentos.

"Nenhum presidente sabe de fato o que acontecerá depois" de sua posse, disse Inskeep. "Os acontecimentos superam os melhores deles."

Meacham foi ainda mais conciso.

Para um presidente, afirmou, a posse "realmente é o último momento em que ele consegue controlar a realidade".

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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