Adolescente revela o horror que viveu enquanto fugiu de casa nos EUA

Michael Wilson

Em Nova York

  • Joshua Bright/The New York Times

Quase dois anos atrás, um jovem parou em uma calçada na South Street Seaport e pregou um cartaz em um poste com fita adesiva. "Desaparecida", dizia o cartaz, logo acima do retrato de sua sorridente irmã, Joannie, que tinha 17 anos de idade. "Possivelmente tingiu o cabelo (vermelho)".

Pôsteres como esse são criados pela polícia quase que diariamente, mas este, em abril de 2015, fora feito de forma caseira. Liguei para o número indicado e fui conhecer a mãe e o irmão de Joannie, que estavam preocupados. Ouvi as histórias sobre as três vezes que ela fugiu de casa por breves períodos, e li um relatório médico que descrevia seus problemas com raiva e descontrole, além do remédio que ela tomava para administrá-los, mas que ela deixou para trás.

Nenhum de nós sabia então que ao mesmo tempo outra pessoa estava postando fotos muito diferentes de Joannie, onde seu rosto não aparecia. O objetivo das fotos não era que alguém a reconhecesse, mas sim atrair a atenção de estranhos.

"Mestiça sexy de branca e latina", dizia um dos vários anúncios no site Backpage.com. "Mente aberta e pronta para diversão. Só para homens generosos".

Joannie voltou para casa em maio de 2015 depois de ficar desaparecida por um mês, e a princípio disse pouco sobre o tempo que passou fora. Mas promotores do Bronx receberam uma pista que deu início a uma investigação, e Joannie acabou contando sobre esse período misterioso.

Joannie, hoje com 18 anos, concordou na semana passada em compartilhar sua história, na esperança de que isso ajude outras garotas na mesma situação. "Permaneçam focadas nos estudos", ela disse. "Olhando para trás, penso comigo, 'Por que fui fazer aquilo?'"

Joannie e sua mãe, Laura Van Antwerp, 48, têm uma relação próxima que às vezes resulta em brigas, com Joannie como agressora, segundo ambas as mulheres. (O sobrenome de Joannie, diferente do de sua mãe, não é revelado neste artigo porque ela foi vítima de um crime.)

A briga que levou a garota a fugir de casa em 2015 foi típica. "Hora para voltar, exigência para estar em casa, para fazer as tarefas domésticas", disse Joannie. "Coisas normais de adolescentes". Mas ela não queria tomar seu remédio. "Eu não tinha controle sobre mim mesma", ela disse. No passado, esse estado também levou a encontros sexuais impulsivos, segundo ela e sua mãe.

Ela saiu escondido do apartamento da família perto de Seaport no dia 5 de abril de 2015, e foi até seu novo amigo no Bronx, Raymond Johnson. Eles haviam se conhecido através do Kik, um aplicativo de mensagens, e ele contou a ela que tinha 23 anos e que a ajudaria se ela precisasse de alguma coisa.

Ela chegou ao seu apartamento em Fordham Heights e ali encontrou Johnson, sua namorada e seus dois filhos pequenos. Eles deram comida a Joannie, e Johnson, que na verdade tinha 27 anos, logo colocou as regras na mesa.

"Ele disse, 'Se você quiser ficar aqui, precisa se prostituir", disse Joannie. "Eu disse: 'Tudo bem, eu topo'. Eu não queria ir para casa. Eu não tinha outra opção".

Esse raciocínio pode ser comum em casos como esse, disse Lauren Di Chiara, uma vice-promotora de Justiça do Bronx que processou Johnson.

"Estas mulheres se sentem cúmplices no que vem a acontecer com elas", ela disse. "Elas não se veem como vítimas. É diferente de quando alguém diz: 'Fui assaltado a mão armada ontem'. Elas fugiram".

Johnson comprou lingerie para Joannie e a fez posar para fotos que ele postou no Backpage, com um número de telefone para mais informações, disse Joannie. O primeiro anúncio entrou no ar em seu segundo ou terceiro dia no apartamento, e as ligações começaram a chegar imediatamente.

"O primeiro cara tinha a pele escura", disse Joannie. "O segundo era indiano. Ele disse, 'Por que você está fazendo isso?'" Era uma pergunta que ela ouviu diversas vezes nos dias e semanas que se seguiram sempre que os homens, respondendo ao anúncio de uma mulher de 20 ou 22 anos, encontravam uma adolescente que parecia até mais jovem.

"Eles diziam, 'Você parece uma criança. Você não parece feliz de estar fazendo isso. Por que está fazendo isso?' Eles diziam ao Raymond, 'Ela parece brava', e ele vinha e me dizia, 'Você precisa parecer feliz'. Eu precisava recebê-los de uma forma agradável. 'Quer uma rapidinha, uma meia hora ou uma hora?'"

Ela disse que Johnson quebrou seu telefone e a ameaçou com uma faca e uma arma. Havia alguns machucados visíveis em algumas das fotos nos anúncios, disse Di Chiara.

Joannie disse que ela não se lembrava de quantos homens foram.

Um dia, depois de mais ou menos quatro semanas, ela acordou e encontrou Johnson dormindo, de tanto beber. Ela fugiu.

Alguns dias depois, ela se viu em uma delegacia do Brooklyn depois de uma briga com um amigo. Os policiais ligaram para sua mãe.

"Ela estava muito calada", disse Van Antwerp. "Ela tinha dor no olhar. Uma mãe sabe".

Meses depois, em novembro de 2015, o gabinete do promotor de Justiça do Bronx recebeu uma pista e entrou em contato com a família, e investigadores se encontraram várias vezes com Joannie até que ela lhes contou o que havia acontecido. Johnson foi preso em fevereiro de 2016. Em outubro, com a aproximação do julgamento, ele se declarou culpado de tráfico sexual e foi condenado a uma pena de quatro a 12 anos de prisão.

Joannie pensou sobre o que deveria dizer a outras garotas em apartamentos como esse no Bronx. Ela descartou palavras de esperança e optou por conselhos que soavam empedernidos, para uma garota que ainda tem o cronograma escolar pregado na geladeira.

"Se você notar que ele não está por perto e não tiver ninguém por perto, fuja", ela disse. "Deixe ele bêbado. Faça alguma coisa".

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos