Polícia britânica cria programa para aumentar diversidade da corporação

Prashant S. Rao

Em Burnley (Inglaterra)

  • Andrew Testa/The New York Times

    A policial Francesca Wheatley espera para falar com testemunha de um crime, em Burnley (Inglaterra)

    A policial Francesca Wheatley espera para falar com testemunha de um crime, em Burnley (Inglaterra)

Francesca Wheatley não parece uma policial, pelo menos não para os que a rodeiam.

"As pessoas acham que sou bonita demais", disse a oficial de polícia Wheatley, 21, um tanto tímida. Elas esperam, segundo a jovem, "um homem de meia-idade".

Mas Wheatley, de corpo miúdo e um sorriso fácil, é exatamente o tipo de policial que seus superiores querem recrutar.

Há meses ela vem patrulhando um bairro de Burnley, no norte da Inglaterra, cidade com um histórico de tensão racial (tumultos em 2001 deixaram casas e empresas em chamas). Como a maioria dos policiais britânicos, ela não anda armada, mas vestida com um colete à prova de balas, carregando pouco mais que um rádio, um cassetete e um par de algemas.

Wheatley, que estudou política social na Universidade de Birmingham, entrou para a polícia no último verão, com mais de 150 oficiais escolhidos por toda a Inglaterra como parte de uma iniciativa do Ministério do Interior britânico que começou em 2015.

O programa, chamado Police Now [Polícia Agora], recruta pessoas formadas em universidades e as destaca para servir durante dois anos nas áreas mais problemáticas do país, onde andam pelas ruas e dão uma face pública à polícia.

Com as forças policiais dos EUA enfrentando acusações de preconceito racial por causa de tiroteios envolvendo policiais e homens negros desarmados, a iniciativa britânica se concentra especialmente no recrutamento de mulheres e membros de minorias, buscando diversificar um órgão muitas vezes chamado de "masculino, pálido e insosso" [em inglês "male, pale, stale"].

Em Burnley, a supervisora de Wheatley, Catherine Platt, viu em primeira mão as mudanças na composição da polícia.

Quando entrou para a força, em 1993, Platt tinha de usar saia e meias e recebeu uma bolsa de um modelo criado pela polícia. (Seu cassetete era menor que o dos colegas homens, para caber na bolsa.) Seu único par de calças era para ser usado em plantões noturnos.

"Sete homens e eu", disse Platt, 45, sobre seu grupo de policiais na época.

"Ainda temos um bom caminho a andar", disse ela. "Mas já estamos fazendo progresso."

Andrew Testa/The New York Times
As policiais Nagine Ahmed (esq) e Francesca Wheatley examinam maconha que morador diz que é para uso pessoal

A iniciativa pró-diversidade --anunciada pela primeira-ministra Theresa May quando era secretária do Interior-- é explicitamente modelada no Teach First [Ensinar Primeiro], uma versão britânica de um programa da polícia dos EUA, em que os participantes têm a opção de ficar ou sair depois de dois anos.

O programa visa abordar denúncias constantes de violência excessiva e queixas de que os esforços para diversificar não foram longe o suficiente.

Cerca de 28% das forças policiais da Inglaterra e do País de Gales são formadas por mulheres, enquanto cerca de 6% dos policiais são membros de grupos minoritários, segundo números divulgados em março de 2016. Em 1998, havia 16% de mulheres e 2% de membros de minorias.

Os formandos no Polícia Agora, embora sejam uma porcentagem pequena das forças em geral, refletem mais as estatísticas populacionais. Até agora, 176 policiais foram contratados desde que o programa começou, no verão de 2015, e cerca de 250 mais deverão entrar neste ano. Dos que já estão em serviço, 49% são mulheres e 18% de minorias.

A violência mortal nas mãos da polícia continua rara em comparação com outros grandes países ocidentais, particularmente os EUA. Os formandos no Polícia Agora são encorajados a resolver problemas sem prisões ou violência.

Ainda há muitos desafios, porém, para as forças policiais e o Polícia Agora.

Enquanto o Reino Unido tentava conter os gastos do governo nos últimos anos, a verba de 5,3 milhões de libras (aproximadamente R$ 20,6 milhões) concedida ao programa Polícia Agora para os próximos dois anos foi criticada por sindicatos da classe.

Especialistas também comentam que o policiamento se tornou mais complexo nos últimos anos, pois os policiais utilizam dados e evidências de um leque muito maior de fontes. É muita coisa para uma pessoa aprender em dois anos, denunciam os críticos do programa.

Andrew Testa/The New York Times
As policiais Nagine Ahmed (esq) e Francesca Wheatley descobrem plantação de maconha em Burnley

Os organizadores do Polícia Agora dizem que ele atraiu um grupo diversificado de policiais e que muitos seguirão carreira na polícia, embora não haja metas de retenção definidas. David Spencer, um fundador e diretor do programa, acrescentou que os que saíram se tornarão "embaixadores" das forças policiais britânicas em qualquer campo que escolherem.

Tendo crescido na região, Wheatley queria patrulhar Burnley. A cidade, com 87 mil habitantes, há muito se concentrava na produção de algodão, mas declinou em tempos difíceis. Um relatório do governo de 2015 disse que era uma das áreas mais deprimidas do Reino Unido.

Essa sensação se percebe na própria cidade. Enquanto caminhava pelo escritório, um dos colegas de Wheatley perguntou brincando quando Burnley era mais bonita. "Quando você está indo embora."

Em uma patrulha recente, Wheatley foi acompanhada do policial Mark Bewley, seu "mentor" --um oficial experiente escolhido para fazer dupla com ela nas primeiras semanas de trabalho. Os dois dirigiram pelas áreas sob sua responsabilidade, e Wheatley serviu como representante da polícia em uma reunião de autoridades que discutiu episódios recentes em um lar de idosos local.

Mais tarde, eles caminharam por uma rua próxima onde três janelas tinham sido quebradas por tijolos. Virando a esquina, a dupla passou pela casa de um morador que era suspeito de ter quebrado as janelas e parou rapidamente para falar com ele.

"É sempre bom conhecer não só as pessoas boas do bairro, mas também as que poderiam cometer crimes", disse Bewley.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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