Duas aposentadas entram no negócio de embalagens de maconha no Colorado

Julie Weed

  • Matt Nager/The New York Times

O mercado da maconha legalizada criou uma indústria multibilionária, incluindo alguns derivados e negócios paralelos interessantes, e até mesmo empresários improváveis descobriram nichos lucrativos.

Entre eles estão Deb Baker, uma professora do ensino secundário aposentada, e Barb Diner, uma ex-executiva de marketing, que vivem em Denver e são amigas há 27 anos. As duas achavam a vida de aposentadas um tanto entediante, então elas trocavam com frequência ideias que pudessem ser interessantes de colocar em prática e que poderiam complementar suas rendas.

Em 2014, as empresárias emergentes viram que havia um nicho a ser explorado —embalagens de maconha à prova de crianças que se enquadrariam na regulamentação recém-exigida do Colorado.

Em uma visita de pesquisa de mercado que fizeram a um dispensário, Diner e Baker notaram que algumas das embalagens usadas ali eram feitas de químicos que soltavam um cheiro desagradável. Elas acreditaram ter uma ideia melhor.

"Pensamos que os consumidores iriam querer guardar seus itens comestíveis ou remédios em embalagens que fossem aprovadas pela FDA para armazenar alimentos", disse Diner, "então procuramos fazê-las a partir de garrafas plásticas de leite recicladas".

Elas decidiram criar a Higher Standard Packaging na primavera daquele ano, e desde então venderam quase 7 milhões de unidades de embalagem para dispensários de cannabis do Colorado e outros lugares.

O conjunto inicial de produtos consistia de frascos brancos comuns em diferentes tamanhos com tampas à prova de crianças, feitos por fabricantes parceiros na Califórnia. Para encontrar clientes, elas ligaram para mais de 100 empresas, principalmente na região de Denver, e as visitaram levando amostras e listas de preços.

Dentro dos seis primeiros meses, a empresa começou a vender outros tipos de recipientes: tubos, tampas à prova de crianças e, mais recentemente, saquinhos de doses individuais à prova de crianças (feitos de plástico resistente que precisam de tesouras para serem abertos). Seu produto principal continua sendo o recipiente de plástico para a "berlota"—o termo para a maconha seca pronta para fumar.

Seus filhos adultos achavam no começo que a empreitada era um passatempo "divertido". Agora eles têm orgulho do sucesso de suas mães, disse Diner, e até ajudaram com pesquisas em tecnologia e mercado.

A Higher Standard Packaging atualmente tem cerca de 50 clientes, incluindo dispensários de cannabis e fabricantes de comestíveis, concentrados e outros produtos feitos com cannabis. A maior parte deles se encontra no Colorado, mas há planos de expansão pelos Estados Unidos e no Canadá, à medida que a legalização da maconha for se expandindo.

A indústria da cannabis está crescendo rapidamente. O mercado para a maconha legal recreativa e medicinal atingiu um total de US$ 6,9 bilhões (R$ 22 bilhões) em 2016, um aumento de 34% em relação a 2015, de acordo com o Arcview Group, uma organização baseada na Califórnia que pesquisa e investe na indústria.

Em uma indústria dominada por homens jovens, Baker, 62, e Diner, 56, disseram que vendedores de cannabis costumavam olhar meio desconfiados quando as duas mulheres entravam na loja, mas "A gente soltava uns palavrões e as pessoas relaxavam", disse Diner.

Agora que já são rostos conhecidos, elas dizem que os budtenders (vendedores de maconha no varejo) costumam gritar, "As senhoras estão aqui!" quando as duas visitam seus clientes.

As "senhoras", que trabalham de suas casas, tocam um negócio enxuto, comprando produtos à medida que vão vendendo, para assumirem um risco mínimo. Elas não contrataram nenhum funcionário e não aceitaram financiamentos de fora.

Ao fazerem isso, elas já tiveram lucro em seu primeiro ano e puderam tirar salários para si. A empresa usa um furgão de entrega que o sogro de Baker, de 90 anos de idade, lhes deu de presente.

"Isso torna a vida muito mais fácil", disse Baker.

Cerca de metade do crescimento do negócio vem de indicações e outra grande porcentagem vem do crescimento de clientes existentes.

"Dei aula em escolas durante 30 anos, e existe um elemento educativo nisso também", disse Baker.

As conexões pessoais também abrem as portas para colaborações. Produtos feitos de maconha estão vindo em novas embalagens, incluindo cápsulas de café descartáveis, latas, conta-gotas e outros, uma vez que a Higher Packaging está indo além de seus frascos brancos básicos para fazer parcerias com empresas que customizam as embalagens.

A indústria da maconha pode ser uma montanha-russa de boas e más notícias.

"Nossos telefones não paravam de tocar quando a Califórnia legalizou o uso recreativo da maconha em novembro", disse Diner. Contudo, algumas semanas depois, quando o presidente eleito Donald Trump disse que iria nomear como procurador-geral Jeff Sessions, um opositor linha-dura da maconha, isso causou temor entre toda a indústria e seus investidores.

Mais da metade dos Estados no país possuem alguma forma de maconha legalizada. Mas, à medida que a indústria vai evoluindo, suas leis mudam também.  As regulamentações estão em constante mudança, o que significa que empresas como a High Standard precisam mudar seus produtos e ficar espertas.

Em outubro de 2016, uma nova lei no Colorado exigia que a embalagem de todos os produtos comestíveis de cannabis —como os chocolates e os brownies com maconha— viesse com um símbolo indicando que eles continham THC, o princípio psicoativo da maconha. Essa era uma medida de segurança pública com o intuito de garantir que as pessoas pudessem distinguir os produtos de seus alimentos não canábicos.

Como os fabricantes de comestíveis de maconha tiveram de criar novos moldes de produção para que seus produtos incluíssem o símbolo, seus custos aumentaram. Como resultado, eles procuraram por áreas onde pudessem reduzir os gastos, como com as embalagens. Isso significa que Baker e Diner tiveram de investir um tempo extra para encontrar maneiras de se adaptar às mudanças requeridas pelas novas leis, mas continuar oferecendo produtos que fossem esteticamente agradáveis e econômicos.

Os métodos de pagamento também estão mudando na indústria da maconha legal. Embora muitos clientes da Higher Standard hoje tenham contas bancárias, Baker e Diner costumavam receber pagamentos totalmente em dinheiro. O primeiro pagamento feito por um dispensário de cannabis de Denver foi típico: US$ 5.400 (R$ 17 mil) todos em notas pequenas fedendo a maconha.

As empresárias, preocupadas com a possibilidade de seu banco não aceitar o depósito ou até fechar a conta delas, colocaram o dinheiro na secadora de roupas de Baker com alguns lencinhos de aromatizador de ambientes para remover o cheiro.

Baker não tinha um cofre em casa, então a dupla escondeu o dinheiro no freezer até que elas pudessem levá-lo até o banco. Hoje elas brincam que faziam "lavagem de dinheiro" e lidavam com "dinheiro frio", mas na época, carregar por aí quantias tão grandes de dinheiro era desconcertante, segundo Diner.

Baker acha incrível como fornecedores e revendedores de produtos de maconha estão abraçando tão rápido ideias inovadoras com profissionalismo. Na Convenção de Negócios de Maconha da qual ela participou recentemente em Los Angeles, Baker viu novos produtos de mecanização como podadores automáticos de plantas e enchedores de garrafas, além de fertilizantes e iluminação de baixo consumo de energia projetados especificamente para plantas de maconha.

"Na minha época, uma convenção de maconha eram seis pessoas curtindo no quarto de um dormitório de faculdade", ela brincou.

Tradutor: UOL

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