Inspirados em "Downton Abbey", chineses ricos querem contratar mordomos no estilo inglês

Chris Buckley e Karoline Kan

Em Chengdu (China)

  • Gilles Sabrie/The New York Times

Mao Tsé-Tung disse certa vez que uma revolução não era um jantar de gala. Mas agora, com a revolução comunista se tornando um capitalismo opulento, os ricos da China estão se certificando de que seus jantares de gala saiam impecáveis e o vinho seja servido do jeito certo.

Inspirados em parte pela série de TV "Downton Abbey", os magnatas do país, antes rudes e barulhentos, estão buscando ter um decoro à moda antiga, alimentando a demanda por serviços de mordomos locais treinados como os de uma mansão britânica.

"O que eles querem dizer a seus amigos é, 'Veja, eu tenho um mordomo, um mordomo no estilo inglês em minha casa', para mostrar como são ricos", disse Neal Yeh, um britânico nascido na China e residente em Pequim, que por mais de uma década ajudou a formar e encontrar empregos para mordomos.

"O país hoje com a maior tendência por mordomos é a China", disse Yeh, cujo sotaque inglês se encaixaria perfeitamente em "Downton Abbey", a série de TV sobre uma família de sangue azul na Inglaterra, que foi assistida com entusiasmo na China. "Atrevo-me a dizer que tive um papel no lançamento dessa tendência."

As agências e escolas de formação de mordomos têm atuado na China há mais de uma década, mas o número de contratações cresceu bruscamente nos últimos anos, de acordo com o setor. A maioria é de chineses, e muitos são mulheres. A Academia Internacional de Mordomos da China abriu em 2014 em Chengdu, uma cidade coberta por neblina no sudoeste da China, e oferece um intensivo de seis semanas em serviço de mesa, gerenciamento doméstico e outras minúcias sobre uma vida de alto padrão.

"Os chineses estão saindo de férias como nunca fizeram na história, então estão entrando cada vez mais em contato com o Ocidente", disse Christopher Noble, um instrutor americano na academia que antigamente gerenciava bares em Cleveland. "Mas os chineses vivem essa experiência de um serviço pessoal de primeira lá fora, e eles querem viver isso aqui."

Um boom na procura por mordomos parece incongruente, considerando que o presidente Xi Jinping vem fervorosamente fazendo campanhas contra a corrupção e a extravagância, e que uma desaceleração da economia vem cortando gastos com luxos. Mas os ricos da China continuam a acumular fortunas cada vez maiores e querem aquilo que eles veem como símbolos de bom gosto, de acordo com nomes do setor.

"Você lê que está havendo uma desaceleração econômica, mas a economia da China ainda está crescendo", disse Luo Jinhuan, que trabalhou como mordomo em Xangai e, mais recentemente, em Pequim, depois de aprender sobre o ofício na Holanda. "O dinheiro antigo passou de uma geração para a outra. Mas o dinheiro novo não tem a mesma qualidade. Você precisa ajudá-los a se aprimorar".

Se os mordomos simbolizam o amadurecimento do capitalismo chinês, o status um tanto embaraçoso que eles têm também reflete como os ricos na China precisam seguir regras diferentes das estabelecidas por ricos em muitos outros países.

Muitas vezes isso significa uma falta de confiança. A riqueza na China, onde domina uma cultura de competição acirrada nos negócios, vem junto com um medo de perder sua posição em relação a funcionários ressentidos, rivais e oficiais, especialmente com a contínua repressão contra a corrupção. Essa cautela desencoraja muitos milionários de contratar seus próprios mordomos para administrar suas casas, de acordo com pessoas do setor.

"Alguns deles descobrem que na verdade não podem confiar em alguém de fora para administrar a casa", disse Tang Yang, um diretor de marketing da academia de mordomos. "Eles relutam em ter um mordomo que saiba todas as informações sobre a família".

Relativamente poucos dos que se formaram na academia acabam trabalhando como mordomos tradicionais em casas. Em vez disso, muitos deles trabalham em clubes de luxo, condomínios e andares executivos, servindo a vários clientes ao mesmo tempo, mas não com a mesma intimidade de um mordomo pessoal.

Aqueles que promovem o serviço de mordomos na China costumam apontar para o fato de que o país tem sua própria tradição de serviços de luxo, e o romance clássico chinês "O Sonho da Câmara Vermelha" descreve os mordomos tradicionais, chamados de "guanjia", ou "administrador doméstico", em mandarim. Mas a série "Downton Abbey" ajudou a reacender um novo interesse romantizado em serviços tradicionais na China.

Muitos aprendizes de mordomos disseram ter assistido mais de uma vez a série como um vídeo de instrução sobre a discreta apatia do serviço doméstico.

"Só comecei a entender essa profissão de mordomo depois de assistir 'Downton Abbey", disse Xu Shitao, uma nativa de Pequim de 34 anos que está estudando na academia de Chengdu. "Acho que no futuro essa profissão será bem popular e terá um mercado".

Mas Xu e seus colegas de sala descobriram que, na realidade, ser um mordomo é um trabalho extenuante.

Em uma manhã recente, eles praticaram por horas, aprendendo a servir vinho e água da forma apropriada. Por repetidas vezes a classe de oito alunos segurou uma garrafa de vinho na altura da base e se aproximou em sincronia de uma mesa de jantar para servir vinho até somente a parte mais larga de uma taça de vinho.

Nenhuma gota deveria respingar na toalha de mesa ou, Deus nos livre, em um convidado.

"Estenda, sirva, levante, gire, recolha, limpe. Tente esticar seu braço", comandou Noble, usando seu onipresente intérprete. "Você precisa poder estender seu braço o máximo possível. É como um balé".

Os alunos também fazem aulas de como servir jantares formais, fazer malas, limpar a casa e inúmeros outros detalhes de como se administra a vida dos ricos.

"Você precisa dominar os detalhes para desempenhar bem seu trabalho", disse Yang Linjun, uma aluna de 22 anos. "Seus braços ficam doloridos e suas mãos também, mas isso é um estilo de vida".

Depois que eles se formam, muitos esperam se associar ao número cada vez maior de super-ricos chineses. Em troca, eles podem ganhar salários mensais de US$ 2.800 (R$ 9 mil) ou muito mais como mordomos pessoais, dependendo da experiência e da sorte, mais do que muitos empregos no setor de serviços.

Até o ano de 2015, a China tinha 400 bilionários e famílias bilionárias, 65 a mais que em relação ao ano anterior, de acordo com a lista anual da "Forbes". O 1% mais rico do país detém cerca de um terço do patrimônio familiar, uma porcentagem similar à concentração de riqueza nos Estados Unidos.

Os modos podem ser rudes na China, às vezes de uma forma calorosa, às vezes menos. Mas isso tem mudado à medida que as pessoas vão ficando mais ricas, viajando e vivendo no exterior, e trazendo na bagagem uma demanda por serviços refinados e atenciosos.

"Até uma década atrás, pouquíssimos chineses ficavam em hotéis cinco estrelas", disse Yang Kaojun, um gestor imobiliário para o Summit Group, que emprega equipes de mordomos treinados que ficam à disposição dos residentes. "Mas agora muitas pessoas ficam, e isso lhes deu algum entendimento do que é um bom serviço".

Assim como a academia de Chengdu, a Universidade de Sanda, uma faculdade particular de Xangai, incorporou a formação de mordomos em seu programa de hospitalidade. Muitos chineses também aprendem como ser mordomos na Europa. E Sara Vestin Rahmani, fundadora da Bespoke Burau, uma empresa britânica que encontra funcionários domésticos para empregadores ricos, disse que sua empresa planejava abrir uma escola para mordomos e funcionários domésticos na China este ano.

É difícil de determinar o número de mordomos na China. Pode haver centenas ou milhares, especialmente em Pequim, Xangai e no sul mais próspero. Rahmani disse que em 2007 sua empresa encontrou empregos na China para 20 mordomos; em 2015, esse número já havia subido para 375, incluindo 125 com famílias. Outros relataram um crescimento similar.

"Na verdade estamos exportando para a China uma profissão que no passado era própria dela", disse Rahmani. "Com o comunismo, tudo que era refinado, singular e de alto padrão se tornou uma lembrança distante".

Mas os empregadores chineses muitas vezes tratam os mordomos como criados caros pau-para-toda-obra que deveriam ficar à disposição 24 horas por dia. Isso viola a ideia tradicional de um mordomo como um respeitado administrador da casa e que está acima da maior parte das tarefas servis. Luo disse que seu trabalho de mordomo era muito mais agitado do que ela havia imaginado. Sua rotina diária incluía supervisionar a sauna, o cinema, a pista de boliche e outros quartos em uma casa de quase 3 mil metros quadradros.

"Eu sinto que, quando começo a trabalhar, não tenho tempo nenhum para parar e descansar", ela disse. "É muito mais difícil do que trabalhar em um hotel".

A pressão é agravada pelo temor dos empregadores de que empregados domésticos possam se aproveitar de informações sensíveis. Os mordomos supostamente têm um profundo conhecimento de cada ponto fraco de seus empregadores, que tradicionalmente ficam registrados em um livro. Mas a preocupação de que essa informação possa ser usada para roubar, extorquir ou processá-los desencorajou muitos ricos de se confidenciarem com mordomos.

"Muitos dos nossos ricos são de primeira geração, e eles não têm um longo acúmulo de histórico familiar", disse Yang, o aluno da academia de mordomos de Chengdu, que trabalha para uma imobiliária. "Você precisa de confiança e de um longo período de adaptação para de repente ter outra pessoa ao seu lado".
 

Tradutor: UOL

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