Militância armada surge como resistência da minoria rohingya em Mianmar

Richard C. Paddock, Ellen Barry e Mike Ives

Em Bangcoc

  • REUTERS/Mohammad Ponir Hossain

    18.dez.2016 - Muçulmanos em Bangladesh protestam contra repressão à minoria rohingya no Estado de Rakhine, em Mianmar, país vizinho no Sudeste Asiático

    18.dez.2016 - Muçulmanos em Bangladesh protestam contra repressão à minoria rohingya no Estado de Rakhine, em Mianmar, país vizinho no Sudeste Asiático

O grupo insurgente anunciou sua existência com um ataque antes do amanhecer contra três postos da polícia de fronteira de Mianmar. Centenas de militantes rohingya, armados basicamente com facas e estilingues, mataram nove policiais e se apossaram de armas e munições. Já não era sem tempo, disse Naing Lin, 28, sobre o ataque de outubro perto de seu vilarejo de Kyee Kan Pyin.

"O governo está nos torturando", ele disse pelo telefone esta semana. "O objetivo do grupo é proteger nossos direitos. Só isso. Eles estão fazendo o que deveriam fazer."

O começo de uma resistência armada é só mais um dos vários desdobramentos que estão mudando o cenário para os rohingya, a minoria muçulmana perseguida de Mianmar, com consequências potencialmente significativas.

Acredita-se que o grupo que atacou os postos fronteiriços, Harakah al-Yaqin, tenha centenas de recrutas, um apoio popular substancial e ligações com a Arábia Saudita e o Paquistão, de acordo com um relatório do International Crisis Group. Paralelamente, houve uma onda de apoio humanitário e político internacional à causa dos rohingya, principalmente de países muçulmanos que consideram os rohingya como os palestinos do Sudeste Asiático.

Essa combinação ameaça internacionalizar e escalar um conflito há muito tempo latente. O governo de Mianmar respondeu aos ataques com uma ampla campanha de contrainsurgência que, segundo testemunhas e grupos de direitos humanos, tem incluído o assassinato de centenas de civis, a queima de vilarejos e o estupro sistemático de mulheres e meninas.

Além disso, alguns analistas temem que transformar os rohingya em uma causa muçulmana transnacional possa atrair jihadistas de tipos diversos para Mianmar, acrescentando mais terrorismo a uma mistura já explosiva e dando às forças armadas de Mianmar uma conveniente desculpa para uma resposta draconiana.

Mas após décadas de perseguição e violência, amplamente ignoradas pelo resto do mundo, alguns rohingya dizem que uma resposta armada já deveria ter sido dada há muito tempo.

"Eles estão fazendo coisas boas", disse Naing Lin sobre os insurgentes. "Eles estão protegendo nossos direitos. Se for necessário, talvez eu me junte a eles."

O ataque contra os postos fronteiriços no Estado de Rakhine foi "decisivo", de acordo com o relatório do International Crisis Group.

O Harakah al-Yaqin, que em árabe quer dizer "Movimento da Fé", é dirigido por cerca de 20 expatriados na Arábia Saudita e liderado em campo por outros 20 rohingya com formação internacional e experiência em guerra de guerrilha, segundo o relatório. Ele tem boas conexões no Paquistão e em Bangladesh e parece estar atraindo apoio financeiro da diáspora rohingya e de grande doadores particulares na Arábia Saudita e no Oriente Médio, de acordo com o relatório.

A milícia tem recebido um apoio cada vez maior de muitos rohingya em Mianmar, que a veem como a única alternativa à repressão do governo, segundo o International Crisis Group. A organização alertou que uma abordagem dura por parte das forças armadas sairia pela culatra, atraindo mais apoio dos rohingya e possivelmente inspirando grupos islâmicos estrangeiros a se juntarem ao conflito.

Já foram emitidos sinais de interesse por parte do Estado Islâmico (EI). Em novembro, as autoridades indonésias prenderam três homens que juraram lealdade ao Estado Islâmico e foram acusados de planejar a detonação de bombas em locais proeminentes de Jacarta, incluindo a Embaixada de Mianmar.

Este mês, as autoridades malaias detiveram um homem que, segundo o governo, era um seguidor do Estado Islâmico que estava se dirigindo até Mianmar para realizar ataques.

"Tudo isso demonstra claramente que o EI está avançando, aos poucos e de forma contínua, para influenciar a questão rohingya", disse Rohan Gunaratna, professor de estudos de segurança na Escola de Estudos Internacionais S. Rajaratnam em Cingapura. "Pode-se até mesmo dizer que é uma tentativa de sequestrar a causa dos rohingya."

O governo de Mianmar negou as alegações de abusos dos direitos humanos, e diz que está respondendo à situação de acordo com o Estado de direito.

O governo barrou a entrada de jornalistas e trabalhadores humanitários na área de conflito, no Estado de Rakhine, ao norte, logo acima do Rio Naf de Bangladesh, e acusações de que o Exército está executando uma campanha de assassinatos, estupros e incêndios não foram verificadas por partes independentes.

Mas os relatos e as imagens de violência no local têm alimentado a preocupação por parte de outros países da região, especialmente Bangladesh e Malásia.

Na quinta-feira, a Organização da Cooperação Islâmica, uma coalizão de 56 países, realizará uma sessão de emergência em Kuala Lumpur, na Malásia, onde ela deve fazer um apelo por uma interrupção imediata das operações militares no Estado de Rakhine, uma investigação independente sobre as acusações de abusos dos direitos humanos e ajuda humanitária nas áreas afetadas.

Ao mesmo tempo, países na região estão alertas para uma escalada de violência em seus territórios.

Bangladesh, que está com dificuldades para conter a expansão de redes islamitas extremistas dentro de suas próprias fronteiras, está apreensiva quanto à ascensão de uma insurgência no país vizinho e a perspectiva de militantes rohingya usando Bangladesh como base para realizar ataques em Mianmar.

Fugindo da repressão em Mianmar, refugiados têm "atravessado a fronteira em peso" e se instalado em acampamentos improvisados, segundo Shafqat Munir, um pesquisador do Instituto de Estudos em Paz e Segurança de Bangladesh. "Se existir um risco de pessoas potencialmente radicalizadas entrarem, isso representa um desafio e tanto."

No entanto, ao contrário de crises anteriores, houve poucos esforços para se conter o fluxo enviando refugiados de volta para Mianmar. Estima-se que cerca de 65 mil rohingya tenham chegado a Bangladesh desde outubro, juntando-se aos cerca de meio milhão que já vivem nos campos de refugiados perto de Cox's Bazar.

Organizações islamitas, inclusive a poderosa Hefazat-e-Islam, organizaram grandes comícios em Dacca, a capital bengalesa, em novembro e dezembro, pedindo ao governo que dê abrigo aos rohingya.

Alunos de madraçais viajaram até os campos de refugiados vindos de cidades distantes para ajudar a construir abrigos temporários. Outros têm atravessado metade do país vindos de Dacca e outros lugares para entregar pequenas quantias de dinheiro como presente para os rohingya, antes insultados.

A televisão bengalesa tem feito uma cobertura solidária ao sofrimento dos rohingya em Mianmar, e imagens de supostas atrocidades cometidas pelas forças de Mianmar estão circulando nas mídias sociais, inclusive pelo WhatsApp e Facebook.

Mohammad Imam Hussein, cuja mesquita perto da fronteira de Mianmar tem fornecido ajuda a centenas de refugiados, disse que os vídeos deixaram o conflito mais claro para os bengaleses.

"Eles estão vendo com os próprios olhos o que está acontecendo com eles", ele disse. "Antes, não havia interação entre nós, e eu não tinha o mesmo sentimento. Mas agora vi com meus próprios olhos. Eu vi as pessoas sendo mortas."

Não é totalmente surpreendente que a Malásia esteja assumindo um papel de liderança na promoção da causa rohingya, dado que ela é a maior nação oficialmente muçulmana do Sudeste Asiático e abrigou dezenas de milhares de refugiados rohingya.

Mas um comício conduzido pelo primeiro-ministro Najib Razak em Kuala Lumpur em dezembro para protestar contra a repressão militar de Mianmar foi algo extraordinário, em uma região onde líderes raramente criticam uns aos outros e cada país em geral não se intromete em problemas alheios.

Najib chamou a campanha militar de "genocídio" e criticou a líder de facto de Mianmar, Aung San Suu Kyi, laureada do Prêmio Nobel, por não fazer o suficiente para evitar a carnificina. "Ela realmente ganhou o Prêmio Nobel?", ele perguntou.

Ainda que suas motivações possam não ser das mais puras --críticos dizem que ele estava tentando desviar a atenção das alegações de que ele teria roubado US$ 1 bilhão (mais de R$ 3 bilhões) em fundos do governo e conquistar eleitores no coração muçulmano da Malásia antes das próximas eleições--, sua voz tem ganho força.

Chris Lewa, diretora da Arakan Project, uma organização de direitos rohingya, diz que uma maior atenção por parte da comunidade internacional pode atrair extremistas, mas também pressionar o governo a buscar uma solução duradoura.

"Sem pressão", ela disse, "nada vai acontecer".

Tradutor: UOL

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