No Butão, índice de felicidade vira medida de problemas sociais

Kai Schultz

Em Thimphu (Butão)

  • Adam Dean/The New York Times

Enquanto um temporal se transformava em uma densa neblina do lado de fora, Dasho Karma Ura deixou seus olhos fixos no teto de uma sala de conferências forrada de madeira e começou a expor a natureza da felicidade.

"As pessoas se sentem felizes quando veem alguma coisa ética", disse. "Quando você pensa que fez algo certo, direito e corajoso, quando você pode constantemente se recarregar como um ator significativo."

"E afinal", acrescentou, manuseando um terço budista, "alguma coisa o faz parar e pensar: 'Ah, isto é lindo. Lindo, significativo, ético.'"

Ura, 55, talvez seja um dos principais especialistas mundiais em felicidade, pelo menos como é vista através da lente da economia do desenvolvimento. Tem sido uma espécie de preocupação há mais de duas décadas, em que ele desenvolveu e refinou um indicador de FNB (Felicidade Nacional Bruta) do Butão, uma medida suplementar, às vezes alternativa, da medição convencional de desenvolvimento, o Produto Interno Bruto.

Como presidente do Centro de Estudos do Butão e Pesquisa de FNB, Ura passou muito tempo perguntando aos butaneses sobre interações com vizinhos, qualidade do sono e vigor físico, na tentativa de compreender e medir o bem-estar subjetivo. Ao longo dos anos, ele viu essa ideia pegar muito além do Butão, um distante reino no Himalaia.

Quando a Dinamarca ficou em primeiro lugar repetidamente no Relatório de Felicidade Mundial, que examina a ciência da medição da qualidade de vida, mais pessoas se conscientizaram do relatório e do conceito por trás dele.

Enquanto os países lutam com o que Ura chamou de mais "armas, balas e bombas" do que em qualquer outro momento na história, ele disse que é imperativo que muito mais países criem indicadores que examinem mais que a economia.

"Temos de encontrar novas maneiras de organizar nossos impulsos e energias em direção à paz e à harmonia", disse ele. "Temos de sinceramente encontrar uma maneira de sair disso, dessa insegurança mútua. Porque vocês tem mais armas, eu preciso ter um pouco mais de armas. O colapso em longo prazo está diante de nós."

Enquanto a Felicidade Nacional Bruta se tornou uma ferramenta política na época das eleições, Ura acredita que o índice chamou mais atenção para os problemas sociais. E os resultados parecem ser positivos, segundo ele.

Em 2015, sua equipe divulgou um estudo que mostrou que 91,2% dos butaneses diziam que estavam um pouco, extensamente ou profundamente felizes, com um aumento de 1,8% em felicidade agregada entre 2010 e 2015.

Adam Dean/The New York Times
Dasho Karma Ura

Os que tinham instrução e viviam em áreas urbanas relataram níveis mais altos de contentamento do que os moradores da zona rural. Os homens relataram mais felicidade que as mulheres.

A Constituição do Butão, que entrou em vigor em 2008 com a transição para a democracia, orienta os líderes do reino a consultarem os quatro pilares da Felicidade Nacional Bruta --boa governança, desenvolvimento socioeconômico sustentável, preservação e promoção da cultura e conservação ambiental-- quando considerarem a legislação.

Nascido em uma comunidade agrícola no centro do Butão, Ura disse que sua infância foi marcada por mudanças que o aproximaram de um mundo além da agricultura. Nos anos 1960 e 1970, investidores suíços, animados pelo terreno alpino de seu distrito, ajudaram a desenvolver sistemas de estradas e de água. A introdução de um sistema de educação formal no Butão gradualmente alterou a mentalidade de muitos aldeões, que achavam que o estudo afastava das responsabilidades domésticas.

Depois de se formar entre os melhores da classe em Thimphu, a capital do Butão, Ura foi enviado ao St. Stephen's College, na Índia, onde inicialmente estudou história. Quando chegou a Oxford, em 1983, tinha começado uma longa incursão em filosofia, economia e política.

Ao retornar ao Butão, em 1988, Ura ficou desanimado, primeiro com a condição das bibliotecas do país, que chamou de "extremamente rudimentares", e depois com o modo como um enfoque no materialismo "industrialista, de Guerra Fria", começava a ameaçar as tradições budistas do país.

"A métrica das agências de desenvolvimento internacionais estava se inserindo em nossa língua, em nossa consciência e nosso sistema de contabilidade", disse ele.

Durante esse período, a métrica padrão para avaliar o progresso de um país na escala de desenvolvimento global havia sofrido um escrutínio no Butão, disse Ura. Os indicadores que examinavam exclusivamente a renda ou os investimentos de um país não levavam em conta a verdade moral, "que agrega um valor final ótimo que chamamos de felicidade".

O termo "Felicidade Nacional Bruta" já tinha sido cunhado pelo rei Jigme Singye Wangchuck, que governou o Butão até 2006. Mas o vocabulário continuava impreciso, disse Ura, e a tarefa de desenvolver critérios para medir a felicidade como instrumento de desenvolvimento foi transmitida a ele e sua equipe.

Em uma entrevista, Ura rapidamente atribuiu o crédito pelo desenvolvimento do índice de Felicidade Nacional Bruta a Wangchuck. Mas ele se tornou um defensor mais visível no plano internacional.

Em 2008, Nicolas Sarkozy, então presidente da França, encomendou aos economistas Joseph Stiglitz, Amartya Sen e Jean-Paul Fitoussi um estudo investigando a utilidade da felicidade nos índices de desenvolvimento. Em 2011, a Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução convidando os países membros a considerar medidas capazes de captar a "busca da felicidade" no desenvolvimento. O primeiro Relatório Mundial de Felicidade foi lançado em 2012.

Embora o Butão tenha seus próprios desafios econômicos, incluindo uma das mais elevadas proporções entre dívida e PIB do mundo e uma dependência da Índia para o desenvolvimento, Ura acredita que o índice de felicidade continuou popular no país em parte por motivos religiosos e históricos.

A crença budista em aliviar o sofrimento influiu, segundo ele. Mas também a ausência de colonialismo e de extrema pobreza. Os países que demoram para realizar a medida, disse ele, muitas vezes são incapazes de superar a "sombra" de passados traumáticos.

Quanto ao cálculo de seu próprio "dia feliz perfeito", Ura disse que envolve seis horas de sono profundo, uma caminhada de uma hora à tarde pela floresta e evitar o que muitos de seus concidadãos podem considerar um quinto pilar da felicidade: as pimentas ardidas do Butão.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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