Após sucesso da Marcha das Mulheres, fica a questão: qual o próximo passo?

Susan Chira e Jonathan Martin

  • REUTERS/Jonathan Ernst

    Marcha das Mulheres reuniões centenas de milhares de pessoas em Washington

    Marcha das Mulheres reuniões centenas de milhares de pessoas em Washington

As mais de 1 milhão de pessoas que apareceram no sábado para uma marcha das mulheres em todos os 50 Estados dos EUA guardaram suas placas, tiraram seus gorros cor-de-rosa e encerraram suas palavras de ordem naquilo que foi uma extraordinária demonstração de discordância contra a presidência Trump.

Uma questão crítica permanece: o que acontecerá daqui para frente?

O desafio que os organizadores enfrentam é como canalizar a determinação e a revolta de um protesto orgânico para uma ação que produza mudanças políticas em nível local e nacional. É uma meta que não foi atingida por outros movimentos populares, desde o Occupy Wall Street até o Black Lives Matter. E é uma tarefa intimidante, visto que os democratas foram incapazes de derrotar o presidente Donald Trump em 2016, apesar de uma maioria demográfica emergente.

Os organizadores estão tentando. Minutos depois de a marcha em Washington terminar ao anoitecer do sábado, seus líderes convocaram uma assembleia de quatro horas e uma sessão de networking chamada "Para onde vamos a partir daqui?".

No domingo, a Planned Parenthood realizou uma sessão de treinamento para 2 mil organizadores para tentar transformar a mobilização em ação política, com o sistema de saúde no topo de sua lista de prioridades. David Brock, o ativista democrata, reuniu um grupo de aproximadamente 120 grandes doadores progressistas em Aventura, na Flórida, para ouvir planos para uma série de ações judiciais e outros desafios para Trump.

Movimentos anteriores se reuniram em torno de alguma causa unificadora: a Guerra do Vietnã, os direitos civis, os resgates financeiros e os gastos do governo que ajudaram a criar o Tea Party. No sábado, manifestantes e ativistas progressistas abraçaram um amplo leque de questões, que iam desde direitos reprodutivos até encarceramento em massa, passando por ativismo ambiental, levantando questões sobre como se criar um movimento coeso.

Mas os líderes acreditam que o que há em comum entre eles, como a repugnância e o desprezo pelo homem que agora é o presidente, pode ser poderoso o suficiente como uma causa unificadora.

"O tamanho do público nessas manifestações é uma rejeição direta à abordagem de Trump para a presidência, que é continuar falando com as pessoas que concordam com ele", disse o governador de Connecticut, Dannel P. Malloy, que compareceu a uma manifestação de 10 mil pessoas em Hartford. "O que vocês estão vendo veio para ficar."

Ai-jen Poo, diretora da Aliança Nacional dos Trabalhadores Domésticos e apoiadora dos protestos, disse que os organizadores pretendiam estudar as marchas em todos os 50 Estados para identificar questões e recrutar voluntários para se prepararem para as eleições de 2018.

Em Washington, no comitê pós-marcha, Cecile Richards, presidente da Planned Parenthood e patrocinadora das marchas, realizou uma convocação maciça na qual os participantes ligavam para seus senadores e pediam para que eles protegessem seu acesso ao sistema de saúde.

Mesmo antes da marcha, a esquerda estava focando no pânico em torno de Trump para reunir eleitores que não foram tão facilmente mobilizados durante a eleição.

No último domingo, no Condado de Macomb, no Michigan—o famoso lar dos democratas de Reagan e um condado onde Trump decididamente venceu--, cerca de 6 mil democratas enfrentaram temperaturas congelantes para ouvir o senador Bernie Sanders, de Vermont, o senador Chuck Schumer (democrata, Nova York), e outros democratas defenderem o Obamacare. Foi só um das dezenas de comícios similares em todo o país.

No dia anterior, foram tantos os eleitores do deputado Mike Coffman (republicano, Colorado) a lotarem uma biblioteca de Aurora para confrontá-lo a respeito de seu apoio à revogação da lei, que ele teve de sair por uma porta dos fundos.

No entanto, foi significativo o fato de serem mulheres a galvanizar os maiores protestos. A derrota de Hillary Clinton levou a um questionamento sobre o porquê dos apelos ao feminismo não terem tido sucesso. Agora um amplo leque de grupos que defendem os direitos das mulheres estão tentando capitalizar esse ímpeto para transformar um evento em um movimento contínuo.

Todd Gitlin, ex-presidente dos Estudantes por uma Sociedade Democrática e estudioso de movimentos políticos, observou que os movimentos de direitos civis e anti-guerra tiveram sucesso por causa de redes organizadas que antecediam e faziam o acompanhamento de cada protesto em massa.

"A marcha em Washington no ano de 1963 foi o ápice de anos de ativismo local, incluindo desobediência civil, registro de eleitores, proteção dos direitos civis dos trabalhadores e movimentos de educação para o eleitor", ele disse. "As organizações precisam estar prontas para receber os manifestantes quando eles estiverem prontos para dar o próximo passo. Você precisa ser um movimento completo."

Isso é o que eles estão tentando fazer, segundo os organizadores. Eles enfrentam diversos obstáculos em potencial. Os líderes acreditam que o único jeito de mobilizar sua coalizão é entrar em um amplo leque de grupos diversos, o que pode criar o risco de diluir sua mensagem.

As feridas infligidas pela eleição foram profundas, especialmente entre as mulheres negras, que estão preocupadas com a possibilidade de a recém-descoberta atenção para com a classe branca trabalhadora voltar a suplantar questões que são urgentes para elas. Nem sempre uma atenção a causas específicas se traduziu em votos em nível local, onde os republicanos conquistaram cargos legislativos estaduais e de governadores.

A urgência da presidência Trump, segundo os organizadores, pode ajudá-los a resolver essas divisões. "Precisamos ter juntos recursos e criatividade suficientes para resolver problemas para todos nós", disse Poo. "Tem muito trabalho a ser feito até chegar lá."

Tradutor: UOL

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