Cobrança pela criação de empregos testa a autoridade de Trump

Nelson D. Schwartz e Alan Rappeport

  • SAUL LOEB/AFP

    Presidente Donald Trump e o chefe de gabinete da Casa Branca, Reince Priebus

    Presidente Donald Trump e o chefe de gabinete da Casa Branca, Reince Priebus

O presidente Donald Trump convocou os titãs dos negócios dos EUA para uma visita à Casa Branca na segunda-feira (23) para o que foi chamado de "sessão de escuta", mas foi o novo presidente quem enviou a mensagem mais forte: tragam de volta os empregos na indústria, ou enfrentarão tarifas punitivas e outras penalidades.

O contraste entre o discurso de Trump e o comportamento real da América corporativa, porém, salientou as forças tectônicas que ele estava combatendo ao tentar devolver os empregos a sua base de colarinho azul em um setor que vem perdendo vagas há décadas.

Muitos dos executivos-chefes com quem Trump se encontrou cortaram empregos domésticos nos últimos anos. Além disso, suas empresas frequentemente fecharam fábricas nos EUA enquanto abriam outras no exterior.

Trump disse que usaria a política fiscal, entre outros meios, para impedir que as empresas enviem trabalho para fora. "Uma companhia que quer demitir todo o seu pessoal nos EUA e construir uma fábrica em outro lugar, pensando que o produto simplesmente fluirá sobre a fronteira para os EUA", disse ele, "isso não vai acontecer."

Mas enquanto líderes sindicais, com quem Trump se reuniu na segunda-feira à tarde, muitas vezes atribuem a mudança dos empregos fabris para o exterior à "cobiça corporativa", a migração é consequência de um cálculo corporativo mais complexo.

Wall Street está pressionando as empresas industriais a aumentar os lucros em um ritmo de dois dígitos, quando a economia americana cresce apenas 2%, e a maneira mais rápida de produzir lucros maiores é reduzir os custos trabalhistas, seja por meio da automação, seja mudando os empregos para locais mais baratos, como o México ou a China.

Em alguns casos, administradores de fundos hedge no estilo Gordon Gekko são os culpados, mas na maioria das vezes é o impulso por maiores retornos nas contas de aposentadoria e outros veículos do tipo que dependem do aumento constante dos lucros empresariais e, por sua vez, de um mercado de ações pujante.

Igualmente significativo é o desejo das companhias multinacionais de ir para onde está o crescimento, e muitas economias de mercados emergentes, assim como a China, estão crescendo mais que o dobro dos EUA.

"O capital global não tem consciência social", disse Kevin Sharer, que é professor de estratégia corporativa na Escola de Administração de Harvard e serviu nos conselhos da 3M, da Northrop Grumman e da Chevron, além de dirigir a gigante de biotecnologia Amgen. "Ele irá aonde estão os retornos."

 

Um caso típico é o da Dow Chemical, cujo executivo-chefe, Andrew Liveris, lidera um grupo sobre indústria criado por Trump e esteve na Casa Branca na segunda-feira (23).

No final de 2015, a Dow empregava 49.500 pessoas, cerca da metade delas nos EUA, quase 5.000 a menos que no final de 2012. Durante o mesmo período, o número de locais industriais da Dow nos EUA caiu de 58 para 55, mas aumentou 5 na América Latina e na Ásia.

Não que Liveris deva ser culpado --ele e a empresa foram alvos em 2014 do investidor-ativista Daniel Loeb, que pediu a divisão da empresa em duas para aumentar os lucros e a demissão de Liveris. Depois de uma batalha de vários anos, Loeb basicamente prevaleceu, e Liveris sairá da Dow depois que completar uma fusão com a DuPont neste ano, com uma divisão a seguir.

A Dow não é absolutamente a única companhia que reduziu seu número de funcionários nos últimos anos. A International Paper, cujo executivo-chefe também esteve na reunião na Casa Branca, teve sua força de trabalho nos EUA reduzida para 34 mil em 2015, cerca de 2.000 a menos que no final de 2010.

A última peça do quebra-cabeça dos empregos industriais é a tecnologia, segundo Bill George, que dirigiu a Medtronic, produtora de marcapassos, stents e outros dispositivos médicos, e que hoje é professor na Escola de Administração de Harvard.

George notou que a Ford Motor Co., com a qual Trump se emaranhou e cujo executivo-chefe esteve na Casa Branca na segunda-feira, emprega uma fração dos trabalhadores que tinha duas décadas atrás, porque suas linhas de produção hoje são altamente automatizadas.

Trump deixou claro na reunião que seu plano de reformular a economia e reanimar o setor industrial vai além das exortações, porém. Os impostos virão a seguir, sugeriu ele, e quando se trata de política fiscal uma de suas maiores prioridades é punir as empresas americanas que levaram empregos para o exterior.

Para conter tal comportamento, Trump disse que pretende impor um imposto de fronteira "substancial" a essas firmas. Anteriormente, ele disse que a tarifa poderia chegar a 35%.

A logística desse imposto continua confundindo republicanos e democratas. Muitos se perguntam que penalidades poderiam enfrentar empresas como a General Motors, que já tem uma fábrica no México, ou o que acontecerá com uma gigante de tecnologia como a Apple, que tem contratos com fabricantes na China, mas não produz lá propriamente.

Também não ficou claro se a ameaça será realizada como parte de uma reforma fiscal mais ampla, ou será imposta com poderes executivos. Enquanto o Congresso geralmente define a política fiscal, o presidente tem autoridade para impor tarifas sob certas circunstâncias.

Michael Strain, do grupo conservador Instituto Americano de Empresas, disse que a ideia de Trump de castigar as companhias por enviar empregos ao exterior foi uma proposta protecionista e que ele prevê reações das empresas se vier a se concretizar.

"Tudo o que ele disse sobre isso foi muito vago e mal definido, é difícil pensar sensatamente", disse Strain. "Pode ser que a comunidade empresarial realmente comece a reagir contra isso e se torne uma luta mais ampla."

Durante a reunião na segunda-feira, Trump também defendeu a tese de que construir nos EUA em breve se tornará uma proposta mais eficiente levando em consideração os custos por causa de seus planos de cortar o imposto empresarial para 15% a 20% e reduzir a regulamentação.

Ele indicou os regulamentos ambientais onerosos como uma área onde as mudanças estão a caminho, e insistiu que, apesar do ambiente regulatório mais brando, as proteções vão melhorar sob seu governo.

"Haverá vantagens para as companhias que realmente fizerem seus produtos aqui", disse Trump.

 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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