Cubanos recém-bloqueados na fronteira dos EUA depositam esperanças em Trump

Frances Robles*

Em Nuevo Laredo (México)

  • Ilana Panich-Linsman/The New York Times

Ela passou semanas caminhando pela Amazônia, atravessando um rio repleto de crocodilos. Escalou muros de fronteiras, escapou da detenção de imigrantes no Panamá e dormiu em uma igreja. Sem um tostão, faminta e exausta, encontrou refúgio entre um povo indígena na selva que a abrigou e alimentou durante uma semana.

Por fim, seis meses depois de fugir de Cuba em uma tortuosa jornada até os Estados Unidos, Marleni Barbier, uma assistente de dentista de Havana, conseguiu chegar à fronteira com o Texas, cerca de 12 horas tarde demais.

Mais de mil migrantes cubanos que passaram por meses de caminhadas atravessando até dez países para alcançar os Estados Unidos se encontram bloqueados no México, devido à decisão tomada pela administração Obama este mês de acabar com as condições especiais de imigração para cubanos que chegam à fronteira americana.

A brusca mudança é profunda para os cubanos, que fugiram do país às dezenas de milhares no último ano para aproveitar uma antiga política de décadas que permitia que eles entrassem nos Estados Unidos.

Agora, os muitos cubanos bloqueados no México —e possivelmente outros milhares que estão se arrastando pela trilha dos migrantes que atravessa as Américas— estão esperando por uma suspensão: que o presidente Donald Trump, que foi eleito sobre uma promessa de construir um muro junto à fronteira mexicana, os deixe passar.

"Tenho fé de que Trump mudará isso", disse Barbier, 44, que chegou à fronteira texana logo depois de o presidente Barack Obama ter anunciado o fim dos direitos especiais para os cubanos. "Revogar uma lei no último minuto desse jeito é muito injusto".

Alguns dos cubanos presos no limbo da fronteira do Texas chegaram em 12 de janeiro, dia em que o governo Obama eliminou a regra "pé molhado, pé seco", de 1995, que permitia a cubanos que chegassem aos Estados Unidos a entrada no país. Cerca de 150 cubanos estão empacados a somente 50 passos da ponte internacional para pedestres que conecta Nuevo Laredo, no México, com Laredo, no Texas. Confusos e desanimados, eles estão sendo alimentados por estranhos mexicanos, e eles rezam.

"Todo mundo estava correndo para chegar aqui antes da posse, no dia 20", disse Yamila González Cabeza, 44, uma professora de Cuba, dizendo que muitos migrantes pensavam que o governo Trump é que fecharia a fronteira. "Mas foi o contrário. Não esperávamos essa surpresa no dia 12".

O governo cubano por muito tempo abominou os privilégios especiais de imigração, dizendo que essa política esvaziava a ilha de seus cidadãos e atraía ondas de imigrantes para jornadas perigosas por terra e por mar.

Ao cancelar a regra, Obama disse que ela havia sido "planejada para uma era diferente" durante um período de hostilidades antes que os Estados Unidos restaurassem relações diplomáticas com o governo cubano. Com o fim de seu privilégio de entrar nos Estados Unidos, disse Obama, os migrantes cubanos seriam tratados "da mesma forma como tratamos imigrantes de outros países".

Essa decisão poderia colocar Trump em uma posição embaraçosa. Ele fez campanha com base em uma plataforma anti-imigração, tendo prometido não deixar que imigrantes passassem pelas fronteiras americanas. Mas Trump também ameaçou derrubar as ordens executivas de Obama e endurecer em relação ao governo cubano.

Trump havia dito que a política do "pé molhado, pé seco", que enviava de volta cubanos que fossem pegos no mar, mas permitia a entrada àqueles que conseguissem alcançar a terra, era injusta. Ainda assim os cubanos em Nuevo Laredo esperam que ele demonstre uma compaixão humanitária por pessoas que passaram por viagens árduas para escapar do comunismo e da pobreza extrema.

Barbier disse que gastou todos os US$ 8 mil (mais de R$ 25 mil) que ganhou com a venda de sua casa em Cuba para chegar até lá. "Esse dinheiro foi embora", ela disse.

Cerca de 41 mil cubanos fizeram viagens similares pelas Américas no ano passado. Mas como ela chegou à fronteira um pouco tarde demais, Barbier e outros cubanos como ela podem ser enviados de volta a menos que consigam provar que sofreram perseguição individual, e não somente pobreza ou falta de oportunidades, na ilha.

Ilana Panich-Linsman/The New York Times
Yamila Gonzalez Cabeza, 44, uma professora cubana, reza em Nuevo Laredo, México

"Certamente me solidarizo com eles, mas a política foi alterada e, no momento em que eles a mudaram, a política foi eliminada", disse o deputado Henry Cuellar, um democrata que representa Laredo. "Eles não disseram que qualquer um que estivesse na fila do processo poderia entrar. Por sorte, alguns entraram e alguns não."

O governo cubano prometeu, nos acordos de migração de 1995 firmados com Washington, que não haveria uma retaliação contra os cubanos que fossem enviados de volta, disse Holly Ackerman, uma bibliotecária da Universidade de Duke que estuda a imigração cubana. Para terem direito à residência nos Estados Unidos, os cubanos terão de provar que são perseguidos pessoalmente em seu país.

"Ser pressionado, limitado e controlado pelo governo cubano não é mais o suficiente para satisfazer as autoridades americanas", ela disse. "Os cubanos que estejam considerando sair passarão por uma profunda reestruturação de sua identidade como resultado dessas mudanças".

Silvia Pedraza, uma professora de sociologia da Universidade do Michigan, argumentou que, embora a política anterior fosse equivocada, era ingenuidade tratar os cubanos como imigrantes por necessidades econômicas.

"Você precisa distinguir pessoas que saem de países totalitários", ela disse. "É claro, o peso das circunstâncias econômicas é muito grande em suas vidas, porque o dia a dia em Cuba é tão difícil que, quando os cubanos falam, é sobre isso que eles falam primeiro. Mas não parece certo não reconhecer a natureza política disso".

José Martín Carmona Flores, que dirige uma agência estatal no México que oferece assistência humanitária a migrantes, disse que havia cerca de 200 cubanos em Nuevo Laredo, e outros 1.100 estavam esperando em outras cidades até que eles decidam o que fazer.

De acordo com a Organização Internacional para as Migrações, cerca de 250 cubanos estavam sendo registrados na fronteira sul do México quando o anúncio foi feito. Muitos dos que chegaram desde então estão sendo enviados de volta para Cuba.

Mais de 11 mil cubanos chegaram ao México só nos últimos três meses de 2016, o que quer dizer que outros milhares que estão na rota de migração que atravessa as Américas poderão chegar ao México nas próximas semanas. Na manhã de sexta-feira, o governo mexicano deportou 91 dos que haviam entrado pela fronteira sul.

*Kirk Semple contribuiu a partir de Tijuana, México.

Tradutor: UOL

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